AGORA \ Crítica Teatral
O QUADRO DE TODOS JUNTOS
Michele Rolim (RS), de Porto Alegre, 30/05/2017
Companhia mineira Pigmalião Escultura que Mexe trata de temáticas adultas por meio de teatro de formas animadas
Utilizando bonecos e máscaras, a montagem chama a atenção pela proporção realista e pela movimentação extremamente precisa dos bonecos Crédito: Claudio Etges

O não-teatro de bonecos

Um retrato de família aos moldes rodrigueanos e freudianos. Ao invés de pessoas, porcos. A montagem O quadro de todos juntos, da companhia mineira Pigmalião Escultura que Mexe, surpreendeu na 12ª edição do Palco Giratório Sesc/POA ao tratar de temáticas adultas por meio de teatro de formas animadas. Apesar de o Rio Grande do Sul ter um dos festivais mais longevos dessa linguagem no País – Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela, que completou 28 edições –, raros são os espetáculos (a exemplo de Clown’s house) que compõe a programação de Canela voltados exclusivamente aos adultos.

Está na centralidade deste trabalho a sexualidade desviante das normas sociais, atravessada por abusos e incestos.  O livro Escola da loucura, de Michel Foucault (1926-1984), foi o ponto de partida da pesquisa do Pigmalião. Também se procedeu uma pesquisa de campo que incluiu visitas a um hospital psiquiátrico e também se estudou o quadro A família de Carlos IV, pintura de Francisco de Goya (1746-1828) conhecida por retratar o fator psicológico da família real. A companhia, que existe há dez anos, já fez outras montagens com temáticas adultas, como a peça A Filosofia na Alcova (2014), adaptação do polêmico Marquês de Sade (1740-1814).

Utilizando bonecos e máscaras, que ora aparentam doçura, ora perversidade, a montagem chama a atenção pela proporção realista e pela movimentação extremamente precisa dos bonecos, que lhes empresta um sentido de humanização. Geralmente o teatro de formas animadas busca uma estética anti-realista, o que não é o caso aqui. Tanto os bonecos quanto as máscaras são confeccionados pelo próprio grupo, muitos dos artistas, inclusive o fundador e codiretor da peça (ao lado de Igor Godinho), Eduardo Felix, são oriundos das artes plásticas, o que explica o nível de detalhamento do material.

O espetáculo ocupa o lugar do não-teatro de formas animadas, pois transgride todas as “regras” do gênero não apenas nas proporções dos bonecos, mas também no fator ilusionismo. Há uma distorção da natureza do gênero (repito: qual gênero? Gênero teatral?) muito bem-vinda.

Se por um lado há um cuidado excessivo no não aparecimento do manipulador, em certo momento existe a quebra desse ilusionismo, quando os atores-manipuladores encaram o público tirando as máscaras como se quisessem deixar explicitado o fato de reconhecimento e do não-distanciamento dos espectadores com o que estava sendo mostrado no palco. Vemos em cena uma dramaturgia visual que explora a ação da luz no espaço. Temos a presença silenciosa dos atores e uma trilha sonora que dá conta de criar a ambientação da peça. Nesta montagem, luz e som são o cenário. São esses dois elementos que fazem a costura entre as cenas, materializados na piscada e no som do flash de um retrato para outro. A fotografia representa a eternização daquele momento, ou seja, ali estão apresentados os arquétipos de várias gerações que perpetuam a violência. Um teatro de imagens que incomoda.

O quadro de todos juntos só não é mais indigesto porque o teatro de animação tem a seu favor a permissão de fazer uso de um tratamento mais livre e criativo de temáticas adultas. Essas figuras transumanas podem fazer cenas que seriam impossíveis de serem realizadas no teatro da mesma forma pelos atores, como no caso de cenas sexuais que envolvem as crianças da família.

Assim como o teatro de formas animadas já foi revolucionário em romper na história mundial do teatro moderno com o mimetismo, a Pigmalião também acena como uma mudança significativa no panorama brasileiro.