AGORA \ Crítica Teatral
CLOWN S HOUSE
Michele Rolim (RS), de Porto Alegre, 20/10/2015
Bonecos do grupo grego Merlin Puppet Theatre levam à cena questões como solidão e suicídio
Bonecos com 45 cm de altura ocupam cenários sombrios e claustrofóbicos, expondo os males contemporâneos

Manipulações na sociedade pós-moderna

Clown's House foi o destaque entre os 15 espetáculos que participaram da 27ª edição do Festival Internacional de Teatro de Bonecos Canela. Distante das cenas coloridas e dos momentos cômicos que marcam boa parte da produção bonequeira, o coletivo grego Merlin Puppet Theatre (MPT) propôs uma montagem marcada pelo tom sombrio e pelo sarcasmo, enfrentando temas controversos como solidão e suicídio. O MPT já havia visitado o Brasil no ano passado, apresentando-se com sucesso no Festival Internacional de Londrina (FILO) e no Festival Internacional de Teatro de Animação (Fita), em Florianópolis.

Dimitris Stamou e Demy Papada fundaram o grupo em 1995, transferindo-se para Berlim seis anos depois. Clown's House parece ecoar a instabilidade social e econômica que a Grécia enfrenta desde 2010. A exemplo de outros conterrâneos, como os diretores de cinema Alexandros Avranas (Miss Violence) e Yorgos Lanthimos (Dente Canino), Stamou e Papada investem na criatividade e nas provocações sobre a sociedade pós-moderna para refletir sobre o mal-estar provocado pela crise do seu país.

Inspirado pelo livro de poesias homônimo, escrito em 1918 pela inglesa Edith Sitwell, Clown's House (2010) apresenta uma encenação com temática adulta (para maiores de 15 anos), o que por si só já o distancia dos demais espetáculos do festival gaúcho, voltados para crianças ou para toda a família. Se o gênero de teatro de bonecos é mais conhecido pelo encantamento e pelo riso, neste caso a recepção se dá de outras formas: o humor é ácido, e a beleza está na sutileza cruel da vida dos bonecos. O efeito de ilusão é buscado apenas quanto aos recursos utilizados (bonecos manipulados diretamente, objetos e sombras), pois os assuntos abordados em cena são bastante realistas.

A dramaturgia é composta de cinco quadros e seis personagens que estão, apesar da (e pela) globalização, cada vez mais isolados em seus próprios mundos. Há uma dureza poética em cena. Os bonecos de 45 cm de altura exibem expressões faciais estáticas e não possuem nomes, encarnando não indivíduos, mas personas. Os cenários são criados em tons sombrios, beirando uma estética Tim Burton. Cada quadro é introduzido por um  prólogo em inglês, que se ouve a partir de uma voz que parte de um alto-falante invisível.

A primeira esquete apresenta o Homem Solitário, que passa a noite assistindo a diversos programas da televisão, como aulas de ginástica, uma partida de futebol e um filme pornô. Podemos inclusive ver uma cena de masturbação do boneco. Também há uma Dona de Casa que, ao executar tarefas domésticas como limpar a casa e cuidar do bebê, está ligada no piloto automático, sem nenhum prazer de viver. Outro personagem é o Pai, praticamente um morto-vivo, que permanece impassível frente às situações e aos problemas familiares, sentado na varanda da casa escutando rádio. No penúltimo quadro, acompanhamos o Homem de Negócios. Isolado dentro de um escritório, ele enriquece, mas vê os blocos de dinheiro literalmente voarem de suas mãos, pela ação dos manipuladores.

Por fim, é abordado um dos temas mais fortes de Clown's House: o suicídio. O  rapaz bêbado – o Punk – tenta confortar a garota que quer se matar e acaba tendo ele uma overdose fatal de remédios. A Menina, que se desespera ainda mais, também morre, em uma cena inesperada.

Mais do que exibir “a solidão do homem moderno, casas que lembram prisões, pessoas acorrentadas a suas rotinas e hábitos, distantes de seus sonhos”, como se lê no programa da peça, os personagens enfrentam situações-limites, cuja única forma de libertação é a morte.

Se durante muito tempo e ainda hoje, o teatro de bonecos se afirma sobre uma narrativa poética, que nos anos 1990 ganhou novas alternativas a partir de avanços tecnológicos incorporados à cena, podemos dizer que Clown's House atinge o equilíbrio. Enquanto mantém a essência dos bonecos (o artista está presente em todas as fases de produção, desde a concepção, desenho, confecção dos personagens e adereços, som e luz, até a manipulação do boneco), avança em termos de linguagem.

“Durante muitos séculos o boneco aparece ligado ao teatro épico, um teatro simbólico, visual, poético-narrativo”¹  e é na (des)construção desse formato do fazer teatral de bonecos que a Merlin Puppet Theatre investe. Alcançam-se com este trabalho novas perspectivas do fazer teatral desse gênero. Um sopro de vitalidade para os bonecos. 

 

A jornalista viajou para Canela a convite do festival.

 

¹Amaral, Ana Maria em seu livro Teatro de Animação (1997, pág. 54).