AGORA \ Crítica Teatral
A ARTE DE ESCOLHER
Michele Rolim (RS), em São Paulo, 04/03/2016
Encontro em São Paulo recebeu o alemão Florian Malzacher para discutir o papel e os desafios do curador nos festivais de Artes Cênicas
Florian Malzacher é dramaturgo, escritor e curador de festivais na Alemanha. Foto de Wolfgang Silveri

A vez dos curadores em Artes Cênicas    

         Definição do que é curadoria nas artes cênicas, atribuições de um curador e diferentes formatações de projetos curatoriais foram os principais temas do 1º Encontro sobre Curadoria em Artes Cênicas, realizado nos dias 9 e 10 de dezembro de 2015, em São Paulo, em uma iniciativa conjunta do Goethe-Institut, da MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo e do Observatório dos Festivais.

          O convidado da reunião foi o alemão Florian Malzacher, curador independente, dramaturgo, escritor, diretor artístico do Impulse Theater Festival em Mülheim e região do Ruhr (Düsseldorf, Colônia e Wuppertal) e também curador do Festival Spielart, em Munique. O encontro foi voltado a curadores de festivais de teatro e de outras linguagens artísticas, programadores de espetáculos de instituições culturais, gestores e interessados em teatro.

          A seguir, reflexões de Malzacher registradas durante os dois dias do encontro.

Utilização do termo curadoria

          Apesar da multiplicação de festivais e mostras de Artes Cênicas, o termo curadoria ainda é polêmico e está em construção. “É discutível que o termo curadoria - emprestado das artes visuais - seja a melhor escolha para o contexto das artes ao vivo”, afirmou Malzacher. Ainda discutindo as aproximações que artes cênicas e artes visuais podem ter em relação ao ofício de curador, Malzacher lembrou a experiência de Harald Szeemann¹ reconhecido por definir a arte curatorial nas artes visuais. Em 1969, Szeemann trabalhou em um espaço expositivo de arte chamado Kunsthalle, na cidade suíça de Berna. Naquele lugar, mesmo com poucos recursos, inovou na relação entre arte e público, curiosamente comparando sua atividade curatorial com a de um diretor de teatro. Esse foi um dos exemplos que Malzacher usou para dizer que, no tocante à curadoria, artes visuais e artes cênicas estão em diálogo, preservando cada área as suas particularidades.

          Nomenclatura e conceitos seriam influenciados, naturalmente, pelo contexto em que o discurso artístico está inserido. Por exemplo, no momento em as artes visuais se interessam mais pela performatividade, pela coreografia e pelo teatro, os termos curatorial e curador ganham acepções diferentes.

          Para estabelecer esta diferenciação, o convidado se valeu das ideias de Beatrice von Bismarck² que entende curatorial como um conceito amplo. Segundo ela, “curadoria é uma atividade de constelação, combinando coisas que não haviam sido combinadas anteriormente – trabalhos de arte, artefatos, informações, pessoas, locais, contextos, recursos, etc. Curadoria não é definida apenas esteticamente, mas também social, econômica, institucional e discursivamente. Eu a entendo como impulsionada menos pela representação do que pela necessidade de tornar público”. A autora do livro Cultures of the Curatorial define curatorial como “campo dinâmico onde a condição de constelação se vivifica. Constitui-se tanto das técnicas de curadoria que são reunidas quanto dos participantes – pessoas reais que potencialmente vêm de backgrounds diferentes, têm diferentes prioridades e valem-se de diferentes experiências, conhecimentos, disciplinas, regionais, raciais e de gênero”.

          Ou seja, o conceito de curatorial é pensado como performativo, trazendo a ideia de um campo dinâmico. Conceito este que o palestrante gosta de estender para as artes ao vivo.

O que faz um curador?

          A década de 1980 no cenário do teatro internacional foi marcada por novas estéticas e consequentemente novas estruturas e hierarquias de trabalho. É neste cenário que surge no campo das Artes Cênicas o criador da programação, que posteriormente vem a ser conhecido como o curador. Malzacher defende que o curador é um sintoma dessas mudanças na arte, assim como na sociedade e no mercado. Segundo ele, os campos de trabalho do curador em artes cênicas “são formas teatrais que frequentemente não podem ser realizadas dentro das estruturas estabelecidas; escrituras artísticas que demandam abordagens sempre diferentes; um cenário cada vez mais internacionalizado e diverso; a comunicação de estéticas complexas; a transmissão e a contextualização. E, finalmente, mas de igual importância, o curador sendo vínculo entre arte e público”.

          Segundo Malzacher, cabe ao curador a tarefa de tomar suas decisões levando em conta um discurso específico, gosto e opinião.  O palestrante admite que muitos curadores tornam esse discurso vago, aberto e arbitrário, mas enfatiza que a principal tarefa reside justamente na clareza das decisões. O trabalho artístico, segundo o alemão, deve permanecer no centro das escolhas do curador, embora seja impossível ignorar as demandas ligadas à gestão (limites do orçamento e questões técnicas, p.ex.) ao avaliar a viabilidade da seleção artística.

          Dentro dessa visão, é indispensável considerar as particularidades das artes ao vivo, por natureza mais sensíveis a imprevistos. “Poucas exposições têm a complexidade e a imprevisibilidade de um festival de teatro”, observa Malzacher.  Entre as variáveis que podem interferir, ele salientou duas: o espaço e o tempo.  As artes ao vivo, como forma social de arte, necessitam definir espaço e tempo a fim de criar junto ao espectador uma experiência de comunidade temporária. “O curador de exposição raramente tem esta possibilidade de conduzir com tanta precisão a ordem da recepção pelo público”, diz Malzacher.

          O convidado defende que contextos e focos podem ser criados, por meio da elaboração de seções menores ou agrupamentos/elos no programa como um todo. “O fantasma do curador, corajosamente criando sua própria obra a partir das obras de arte de outras pessoas, não deve ser temido no campo performativo”, aponta ele, defendendo a autoria curatorial nas artes ao vivo.

Exemplos de projetos curatoriais

          Apontado por Malzacher como um dos mais famosos projetos curatoriais nas artes performativas, X Apartments foi ideia de Matthias Lilienthal, dramaturgo alemão e diretor fundador do Berlin HAU Theater. Lilienthal convidou diretores de teatro, coreógrafos e outros artistas a criarem pequenas performances dentro de diferentes apartamentos. A plateia assistia às apresentações em cômodos de um apartamento. Terminado a cena, os espectadores se dirigiam até outro apartamento para acompanharem uma nova apresentação.  “Ao introduzir uma estrutura de tempo, o curador coletiviza a experiência do visitante, que não se resume aos diferentes locais em si, mas também os corpos se movendo de espaço em espaço”. O projeto foi inspirado em Chambres d’Amis, de 1986, do curador Jan Hoet³ que então envolvia exclusivamente obras de artes visuais.

          Malzacher também destacou Truth is concrete, montado em setembro de 2012 em Graz, na Áustria, com curadoria da equipe do Steirischer Herbst Festival. O alemão fazia parte do grupo. A proposta era uma maratona-acampamento, 24 horas por dia, sete dias por semana, envolvendo palestras, apresentações, performances, produções e discussões. Pelas dimensões e características da maratona, o espectador era obrigado a fazer escolhas e abdicar de conferir algumas atividades.

          Por fim, Blackmarket for Useful Knowledge and Non-knowledge, uma instalação que envolvia 50 a 100 especialistas acomodados em pequenas mesas. Os espectadores podiam escolher livremente sentar em uma dessas mesas e conversar durante 30 minutos com pessoas que detêm um conhecimento especializado, como cientistas, artistas e cabeleireiros, entre outros.

Para pensar

         Ao longo do encontro foram levantados diversos questionamentos que não podem ainda ser totalmente respondidos. Estamos em um momento de muitas dúvidas e poucas certezas sobre o campo curatorial nas Artes Cênicas. No entanto, é importante trocar ideias com pessoas de outros países e continentes para entendermos em nível global em que pé está essa discussão.

          Podemos perceber que tanto na Europa quanto no Brasil as dúvidas são as mesmas, do uso da terminologia até a definição do papel do curador dentro de um festival. Na teoria, ainda se está buscando uma formulação para as questões que envolvem a curadoria de artes cênicas. Percebemos uma experimentação muito maior por parte dos curadores na Europa do que no Brasil, o que talvez se justifique pela longa história teatral no velho continente. Podemos verificar que na Europa há um entendimento do curador também como autor, assim como ocorre no campo das artes visuais.  Já se pensa que o curador pode-se ser um criador também.

Este encontro se reveste de utilidade na medida em que não há muitas publicações e debates sobre curadoria, sobretudo no que diz respeito à curadoria em festivais de Artes Cênicas. Estamos em um momento de muitas dúvidas e poucas certezas sobre o campo curatorial nas Artes Cênicas. Esperamos que debates posteriores venham a acontecer. Uma certeza, entretanto, se impôs: a importância da curadoria para as Artes Cênicas.

 

¹ O suíço Harald Szeemann (1933 – 2005) foi artista e historiador da arte, notabilizando-se por elevar a condição de curador praticamente a uma forma de arte. Ele teria feito a curadoria de mais de 200 exposições.

² Beatrice von Bismarck é professora de História da Arte na Academia de Artes Visuais de Leipzig. Vive em Berlim e Leipzig.

³ O belga Jan Hoet (1936-2014) foi fundador do Museu Municipal de Arte Contemporânea de Ghent, na Bélgica, e importante curador internacional.