AGORA \ Crítica Teatral
Nunca Pensei em Ser Atriz
Luís Francisco Wasilewski, Porto Alegre (RS), 06/04/2022
Livro retrata a trajetória da atriz Suzana Saldanha partir de depoimentos de colegas e de fragmentos escritos pela autora
Cena do monólogo, Eu é Nós, que marcou a volta da atriz ao teatro gaúcho em 2015 depois de 30 anos morando no Rio de Janeiro Foto: Gilbero Perin

A bela memorabilia de Suzana Saldanha

Nunca Pensei em Ser Atriz, livro no qual Suzana Saldanha faz um inventário de seu ofício como artista será lançado no dia 6 de abril , 19 horas, no Theatro São Pedro . O processo de recuperação da sua carreira na obra é feito a partir de depoimentos dos (muitos) colegas que ela teve em sua trajetória, bem como de fragmentos escritos pela autora. Está no livro o texto de Eu, depois rebatizado pela intérprete de Eu é Nós, monólogo que marcou a volta da atriz ao teatro gaúcho em 2015 depois de 30 anos morando no Rio de Janeiro, onde se dividiu nas atividades de atriz e professora de interpretação.

A gênese de Eu é Nós aconteceu após a atriz ler uma crônica de Martha Medeiros, onde era comentado um livro do psicanalista Abrão Slavutzky e na qual aparecia a palavra desamparo. Estava lançado o mote para Suzana começar a mexer em seu baú afetivo e oferecer ao espectador/leitor uma bela memorabilia. Foi no conceito autoficção, cunhado por Serge Dubrovsky em 1977, que a autora encontrou a definição mais apropriada para catalogar seu monólogo.

Além deste texto, a obra Nunca Pensei em Ser Atriz traz também as confissões da autora sobre a escolha do seu ofício. Descobrimos que o primeiro espetáculo a impactá-la como espectadora foi a histórica encenação do Musical My Fair Lady, com Bibi Ferreira, Paulo Autran e Jaime Costa nos papéis principais. Uma montagem que faz parte da memória afetiva de quem viveu a Porto Alegre da década de 1960, tamanho o sucesso de sua temporada no extinto Teatro Leopoldina.

O leitor é convidado pela obra a singrar o começo como atriz de Saldanha. Sua graduação no Departamento de Arte Dramática da UFRGS, bem como a gênese do grupo de Teatro Província (1970-1979) que, além dela, foi revelador dos talentos de nomes como Luis Artur Nunes e Caio Fernando Abreu. O Província encenou montagens como Era uma Vez uma Família muito Família, Era uma vez uma Família que disse Não, em 1972. Para utilizar o Sistema Coringa, criado por Augusto Boal o elenco ensaiou todos os papéis. E o público girava uma roleta a cada sessão, para ver quem iria representar determinada personagem naquela noite. Este efeito cênico foi utilizado 28 anos depois, na montagem de Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços, sob direção de André Paes Leme.

E há o registro da fulgurante passagem da atriz pela televisão gaúcha. Atuando na RBS TV e TV Guaíba, protagonizou eventos históricos, como a última entrevista de Elis Regina para a RBS TV em 1981 e o registro da primeira passagem de Pina Bausch pela cidade. Também está na obra a fértil parceria que Suzana manteve com o diretor Aderbal Freire Filho, no Rio de Janeiro, em encenações como A Mulher Carioca aos 22 anos em 1990.

 

 

Livro: Nunca Pensei em ser Atriz

Autoria: Suzana Saldanha

Apresentação: José Ronaldo Faleiro

Capa e contracapa: fotografias de Gilberto Perin

Edição: Alfredo Aquino

Editora: Ardotempo

Valor: R$ 40,00

 

Luís Francisco Wasilewski é Pós Doutor no Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ. Doutor e Mestre em Literatura Brasileira pela USP.