AGORA \ Crítica Teatral
ROLETA RUSSA/MAÇA DO AMOR
Michele Rolim(RS), em Porto Alegre, 01/07/2016
Solo de Lisandro Belloto propõe o entrecruzamento entre teatro e performance
Espetáculo tensiona o que é a representação quando coloca no palco elementos reais como um peixe dentro do liquidificador

Vamos “brincar” de Deus?

O título Roleta Russa/Maçã do Amor, solo de Lisandro Belloto, associa duas expressões de forma curiosa. Sabemos que a roleta russa consiste em deixar apenas uma bala dentro do tambor de um revólver e disparar a arma contra a própria fronte sem saber em que posição ficou o projétil. E podemos, talvez, pensar que a maçã do amor é um elemento que evoca a infância. A intenção da Cia Espaço em BRANCO é se utilizar da representação dessas palavras para, ao longo dos 50 minutos, propor uma experiência diferenciada ao público. 

A montagem tem diversos entrecruzamentos entre o teatro e a performance. O ator-performer inicia o espetáculo conversando com os espectadores, pedindo abraços, apresentando fotos, contando fatos de sua vida. Depois, fala um texto de Sarah Kane que sempre quis dizer em cena. Fazendo uso do corpo e de outros recursos – como vídeos – na tentativa de criar um ambiente mais íntimo, relata episódios de sua vida. Uma passagem dessa história é fundamental: a notícia da morte de sua avó e a maneira como ele, ainda criança, reage. Belloto conta que correu até a cozinha para pegar sal grosso e jogar nas lesmas (que derretem em contato com o sal). Essa seria uma forma de ele próprio escolher quem devia ou não morrer.

Bellotto, que também dirige a peça, compartilha sua biografia cênica, o que impõe algumas questões ao público, comuns na cena contemporânea: tudo o que está no palco é ficção? Até que ponto a linha tênue que separa elementos ficcionais e não ficcionais pode ser tensionada no teatro? E qual o papel do espectador em um espetáculo que tem esta linha esfumaçada?

A chave das respostas para essas perguntas está na cena final, que fortalece a opção pela performance e por algumas de suas características básicas: o risco, o acaso e a possibilidade de erro. O mesmo procedimento realizado na infância, no extermínio das lesmas, parece se repetir. Belloto retira um peixe de um aquário que está em cena desde o início do espetáculo e coloca o animal dentro de um liquidificador com água. Tensão na plateia.  Bellotto está deitado, e o liquidificador está em cima de sua barriga, ligado à tomada.

A cena expõe a fragilidade da vida e o quanto a morte pode ou não ser controlada. Frente ao público está um peixe frágil que, por um descuido ou propositalmente, sem maiores explicações, pode ser morto. O performer levanta-se, abre a porta da sala, deixa o liquidificador conectado à tomada e convida a plateia a escolher o destino do peixe, acionando ou não o botão que liga o aparelho. Por um lado, o público experimentava a banalização da vida e a impotência frente à morte. Por outro, cada espectador tinha poder de vida e de morte sobre o peixe. Nesse conflito, o teatro tensiona o que é a representação.

A sessão de 20 de janeiro de 2016 levou ao extremo os limites da performance. Quando Bellotto depositou o liquidificador no chão, o equipamento acidentalmente ligou, triturando o peixe. Mesmo não sendo “intencional”, naquela noite o “erro” e os riscos intrínsecos à performance deram espaço àquele desfecho. Mesmo havendo milhares de peixes sendo mortos todos os dias, a cena foi chocante, pois um ser vivo foi morto de forma instantânea. A plateia tornou-se cúmplice do ato. Não houve aplausos.

Roleta Russa/Maçã do Amor, que esteve em cartaz no mês de janeiro, em uma das salas da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, vem reafirmar a vocação da Cia Espaço em BRANCO para a performance. Ao completar 12 anos, o grupo radicaliza em termos de experimentação com a performance.