AGORA \ Crítica Teatral
A SANTA JOANA DOS MATADOUROS
Renato Mendonça (RS), em Porto Alegre, 19/05/2016
Trama ambientada por Brecht nos anos 30 segue questionando compromissos pessoais e de classe
Montagem de Marina Vianna e Diogo Liberano é uma das que trazem discussões políticas para o público do Palco Giratório

Ninguém é santo

Comemoremos: o teatro está refletindo e discutindo o transe político, ético e social que o Brasil atravessa. Mudança pessoal é o centro de E se elas fossem para Moscou, os mecanismos de dominação inspiram A Floresta que anda (ambas de Christiane Jathay), a afirmação da sexualidade está em BR-Trans (de Jezebel de Carli), a alienação é tema de Concentração (Ana Paula Zanandréa)... A encenação do texto de Bertolt Brecht A Santa Joana dos Matadouros (RJ) entra nessa lista como uma das montagens mais contundentes e como aquela que encerra decisivas sutilezas políticas.

Brecht escreveu o texto entre 1929 e 1931, em meio à crise capitalista mundial do crack da Bolsa de Nova York. Basicamente é uma aula de como funciona o capitalismo predador. Em Chicago, o inescrupuloso Mauler lidera uma horda de endinheirados que manipula preços, salários e bens de modo a maximizar o lucro. O outro pólo é Joana, missionária sincera e engajada no movimento assistencialista Soldados de Deus, para quem é preferível ser o número 1 no Céu do que na Terra.

A exploração segue em relativa paz até que sobrevém uma daquelas tantas crises cíclicas do Capital: Mauler erra a mão nas manobras, e fábricas fecham, matéria-prima some, trabalhadores estão a ponto de se revoltar. Joana toma a iniciativa de procurar Mauler, e se inicia uma espécie de malogrado Romeu e Julieta, onde Joana pertence ao clã dos Capuleto proletários e Mauler representa os Montecchio capitalistas. Ao longo da peça, num tom didático, somos instruídos, com uma atualidade impressionante, sobre como funciona o poder: dumping, etapas de produção, manobras na Câmara, a manipulação da fé e das Igrejas para garantir a paz na Terra, até uma fala sobre um empresário que por ganância causou a inundação de vasta área no rompimento de uma represa...

Os diretores Marina Vianna e Diogo Liberano propõem uma encenação afinada com o que queria Brecht. O principal elemento em cena são camisetas, dezenas delas, que são vestidas e desvestidas ao longo das duas horas de espetáculo como se fossem as cascas resultantes do amadurecimento. As luzes são frias, os sons têm timbre eletrônico, o cenário é construído com caixotes de plásticos – tudo como uma grande engrenagem, uma assepsia cirúrgica, nos forçando a por foco nas relações de poder. Os fundamentos épicos tão valorizados por Brecht, como atrair o espectador para a cena e logo em seguida quebrar esse encanto com música (o elenco canta muito bem), ou mudança no registro do texto, ou mesmo com fala dos personagens se dirigindo diretamente ao público, estão presentes com talento e oportunidade, driblando o texto por vezes maçudo.

O final, claro, não é feliz. Em meio a uma convocação de greve geral, Joana é encarregada de entregar uma mensagem e não o faz – morre sozinha na neve, soterrada por camisetas com estampa do Mickey e da Nike e por seus conflitos internos. Mauler abre mão de sua fortuna, sabe que não é inocente, mas está arrependido. Os outros personagens continuam onde sempre estiveram – o proletariado na miséria, os capitalistas no bem-bom. E os Soldados de Deus, disciplinadamente, estão perfilados prestando continência aos comandantes do Capital. Lição política dada, o público aplaude de pé e exige a volta do MinC.

No fundo de A Santa Joana, entretanto, reside um conflito não resolvido desde antes de nossos governos interinos. Brecht passa a peça toda pulando do plano social para o individual. Joana toma a iniciativa de conhecer seu opressor, mesmo desaconselhada por outros Soldados de Deus. Algumas poucas atitudes mais humanizadas de Mauler parecem ser tomadas por influência de Joana. Em alguma medida, se afirma que a iniciativa pessoal pode causar transformação. Mas o final da peça contradiz cruelmente essa conciliação possível. Morta, Joana é tachada por um popular como apenas mais uma moça, por não ter entregue a carta decisiva. Faz-se a defesa canina da submissão do individual à consciência de classe – se você não fizer sua parte, a causa toda pode fracassar.

Atenção: para Brecht, só existem dois oponentes no ringue. Não por acaso, a classe média, elemento decisivo em qualquer contenda social, está ausente na trama de A Santa Joana dos Matadouros. Dessa forma, ganha importância uma das melhores cenas da peça quando Joana, paralisada por suas contradições, é manipulada por outro ator como se fosse uma marionete. Quem a opera? A luta política é vital e urgente, mas o indivíduo também é ele próprio um campo de batalha e deve decidir a todo o momento se prefere alinhar-se numa batalha de slogans, conformar-se no possível ou encarar a complexidade de sua inserção na sociedade. Joana é destruída nesse embate. É só uma moça, e isso parece não bastar para os tempos de luta.