AGORA \ Crítica Teatral
PRÁTICAS POLÍTICAS DA CENA CONTEMPORÂNEA – A CENA NA RUA
Renato Mendonça (RS), em Porto Alegre, 18/05/2016
As manifestações cênicas no espaço urbano foram tema de seminário do Palco Giratório 2016
Exemplo de intervenção urbana, "Cidade Proibida" foi atração na edição 2014 do Palco Giratório, Crédito de Adriana Marchiori

As boas e as más crises

O Teatro de rua está em crise. Ou melhor: o Teatro de rua só manterá sua vitalidade caso se mantenha em constante crise. Essa foi a tônica da etapa A Cena na rua, realizada no dia 17 de maio, no Teatro de Arena. O encontro faz parte do Seminário Práticas Políticas da Cena Contemporânea, coordenado por Patricia Fagundes, dentro da programação do Palco Giratório 2016.

A escalação dos convidados garantiu multiplicidade de focos: André Carreira, professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e diretor do grupo de rua Experiência Subterrânea (SC) trouxe exemplos práticos e afirmou conceitos; Alexandre Vargas, cofundador do grupo Falos & Stercus e criador do Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre (Fitrupa), fixou-se no aspecto curatorial e na estética dominantes na cena de rua brasileira; Vitor Mesquita, designer e criador do projeto Urbe, que inclui uma revista sobre arte urbana, representou o contraponto a partir de outra área artística.

Carreira fez questão de desfazer o mito de que as ruas são uma ágora pacificada e confessou sua ojeriza a expressões-chavão como “resgate urbano” ou “a cidade é um palco”. Segundo ele, “rua é espaço de conflito constante. O vínculo do espectador na rua é mais tênue do que a ligação que se estabelece na sala. O espectador de rua não percebe por completo a cena”. Mas Carreira não encara isso como problema: “Quero produzir espaço no espectador. Ele tem de lidar com o incompleto. Mais ou menos como um atropelamento, quando ninguém tem acessos a todos os detalhes. A incompletude é o que provoca e que transforma”.

Vargas trouxe a crise para o campo institucional. Depois de ler um manifesto pela manutenção do MinC redigido pela Rede de Festivais de Teatro do Brasil, apontou o que seria uma ameaça à renovação da estética do teatro de rua: os artistas moldarem seus trabalhos para serem mais competitivos na disputa por recursos públicos de editais e prêmios. “Isso leva a que manifestações de rua do Interior do Amazonas pareçam com as do Interior gaúcho. Existem corredores culturais que ajudam a forjar um tipo de produção. Critico a agenda colocada nos últimos anos que definiu ou influenciou um tipo de produção artística”.

O coordenador do Fitrupa apontou um desvirtuamento no processo curatorial de vários festivais ao proporem grades que não refletem sobre si: “Baseiam-se no clichê ‘vamos levar arte onde o povo está’. Isso é arrogância. Há inteligência nesses lugares onde alguns creem que não há”. Vargas preparou o terreno para Mesquita ao afirmar que prefere a expressão “manifestações cênicas de rua” a “teatro de rua”, devido à multiplicação de formatos dos últimos anos. “Surgiram propostas como colocar um tapete numa vaga de automóvel, promover piqueniques noturnos, várias maneiras de ocupação de espaços urbanos”, registrou.

Mesquita usou projeções para compartilhar expressões gráficas de arte urbana, como grafites e murais, mas lembrou da ação Ecopoéticas, da gaúcha Marina Mendo e Rossendo Rodrigues, que em uma das performances ficavam suspensos em meio a lixo sobre o arroio Dilúvio, e do projeto Cidade Transmídia, de Camila Farina, Tiago Lopes e Lenara Verle, que recupera o rastro de personagens urbanos. Com o vídeo Descanso do Faquir, de Stéphane Argillet e Gilles Paté, Mesquita tentou evidenciar o quanto a cidade é avessa à participação criativa e mesmo física de quem mora nela.

Como nas outras etapas do seminário, houve uma intervenção durante o debate quando Gabriela Schultz, do elenco de Cidade Proibida, dirigido por Patricia Fagundes, dançou hip hop. Cidade Proibida, por sinal, propõe seu modelo de ação urbana ao estabelecer espaços de convivência e arte em pontos da cidade considerados perigosos à noite. A discussão com o público de cerca de 80 pessoas tocou ainda em pontos como o procedimento de passar o chapéu ao final das apresentações, a manifestação agressiva de alguns espectadores em relação à arte e aos artistas, a imposição dos editais de exigir contrapartidas quase invariavelmente na forma de oficinas, o atraso no pagamento de verbas de editais, as restrições burocráticas para ocupar a rua, a crispação política atual...

Focos de crise não faltam, mas Carreira defendeu ser isso inevitável e desejável. Ele lembrou uma ação na Cracolândia de São Paulo quando alternadamente experimentou a sensação de apoio aos craqueiros, na condição de artista, e depois de medo, como cidadão comum. “Aceitemos a crise. Às vezes estamos do lado dos periféricos, às vezes dos hegemônicos. Temos de ter consciência disso”. Vargas observou que o capitalismo é hábil ao instrumentalizar a arte e sugeriu uma estratégia: “Precisamos ter astúcia para não nos deixarmos cooptar, porque o sistema estimula e induz alguns modelos e depois muda tudo”. A Cena na rua enfrenta vários tipos de crise – algumas bem ruins, mas o encontro no Arena reafirmou que a boa crise do permanente autoquestionamento é indispensável para um bom artista.