AGORA \ Crítica Teatral
A FLORESTA QUE ANDA
Michele Rolim (RS), em Porto Alegre, 30/05/2016
Christiane Jathay busca inspiração em Macbeth para falar das mazelas geradas pelo poder
Espetáculo funciona como uma galeria de arte, abrigando uma videoinstalação com relatos de pessoas

Nós somos a floresta

Assistir ao espetáculo A floresta que anda no momento histórico que estamos vivendo ganha outra potência. A montagem, da Cia Vértice, do Rio de Janeiro, com direção de Christiane Jathay, fecha a trilogia começada por ela com Julia (2012), que já esteve em Porto Alegre, seguido de E se elas fossem para Moscou? (2014), que terá apresentações durante a 11ª Festival Palco Giratório RS. Entre os pontos em comum das três produções estão as fronteiras entre o teatro e o cinema, a “adaptação” de textos clássicos da dramaturgia teatral, o atravessamento da linha tênue entre a ficção e o real e a presença da atriz Julia Bernat.

A floresta que anda funciona como uma galeria de arte, abrigando uma videoinstalação com relatos de pessoas que tiverem suas vidas alteradas pelo sistema politico e econômico brasileiro e mundial.  Como o de Michelle, sobrinha de Amarildo Dias de Souza, que foi torturado e morto após ter sido detido por policiais militares. O do estudante Igor Mendes, preso em dezembro durante as manifestações na capital do Rio de Janeiro em 2013. De Prosper, imigrante do Congo que teve sua família assassinada. E de Ismael, integrante do movimento de acampamento de famílias desapropriadas.

Para realizar essa montagem Jathay buscou inspiração em Macbeth, de William Shakespeare. Macbeth é um general do exercito escocês do rei Ducan, que recebe a aparição de três bruxas. Elas revelam que ele será rei. A ganância por chegar ao poder antes, faz com que ele atropele os acontecimentos e mate o rei. O texto foi escrito entre 1605 e 1606, mas parece tranquilamente feito para o século XXI.

O espetáculo nos mostra que todos nós somos Macbeth, estamos inseridos em um sistema capitalista e em diversos momentos atravessamos a linha tênue para colaborar com os abusos de poder, seja efetivamente tomando partido politico de governos autoritários, ou ainda nos eximindo de nos posicionarmos, somos cúmplices das tragédias que vimos nos vídeos. Passamos por elas todos os dias e acostumamos o nosso olhar. Como diz Julia Bernat, atriz da montagem, que fica perambulando no espaço da galeria e mais ao final da peça lança questionamentos a plateia: “Por que a gente não faz nada?”.

A impressão é que estávamos tão ocupados com nossas vidas ordinárias que não deu tempo de olhar para o lado, e agora? Estamos sem um governo democraticamente eleito e, em consequência disso, em menos de 24 h tivemos extinto ministérios e secretarias tão importantes como o da Cultura, das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. A presidenta foi deposta. E em seu lugar ficou um grupo de pessoas que não representam o povo e seus interesses. Os vídeos que vimos na montagem certamente serão multiplicados.

Todos temos, sem exceção, as mãos sujas de sangue e compartilhamos o trecho em que Lady Macbeth, diz: “Sai, mancha amaldiçoada! Sai!”. Mas ela não sai e não sairá.

Para levar o público a tal questionamento, Jathay radicaliza a experimentação. Se em Julia, que tem cenas pré-gravadas e outras filmadas ao vivo durante a apresentação do espetáculo, o espectador é editor da obra, já que ele escolhe se observa a cena ou o vídeo, em E se elas fossem para Moscou? - composta de uma peça e de um filme que ocorrem simultaneamente em salas distintas - cabe ao público escolher qual das duas experiências, ou ambas, gostaria de ter, e em que ordem isso se dará. Já em A floresta que anda, o espectador recebe algumas instruções antes de ocupar o espaço, mas está livre para circular por ele e escolher o que vai assistir, como vai e se vai, há também a possibilidade de ficar no bar bebendo e comendo, ou fazer as duas cosias, ou nada. Ele é, portanto, mais responsável pelo que vai captar da obra. Fica-se com uma sensação de que algo está acontecendo o tempo inteiro, mas não se sabe o quê, já que a convenção teatral não está posta da maneira convencional. Soma-se a isso o fato de a peça romper com uma história linear e não apresentar um personagem como tradicionalmente conhecemos.

Essa sensação é de fato condizente com a realidade e com as sequências de imagens que somos bombardeados durante a apresentação. Não sabemos direito, ou não queremos saber, o que esta por trás dos jogos de poder. A verdade é relativa, e quem detém o poder escolhe qual dizer, mas Jathay inverte essa lógica e nos traz outras histórias, já conhecidas, dessa vez contadas pelo lado do oprimido e não mais pela versão do opressor. E nos questiona: “qual o comprometimento de cada um no mundo?”

O poder e a cobiça levaram Macbeth a protagonizar a maior tragédia escrita por Shakespeare. Com o distanciamento do tempo veremos o que o poder e a cobiça, tão implacáveis nesse momento, farão com as nossas vidas enquanto observamos.  A floresta está dentro de nós. Nós somos a floresta.