AGORA \ Crítica Teatral
CORPOBOLADOS
Ruy Filho (SP), em Porto Alegre, 09/05/2016
Espetáculo propõe um diálogo entre o tango e o malabarismo
Gabriel Martins, Paola Vasconcelos e Giovanni Vergo colocam em relação corpos e objetos

Entre a dança, o circo e a performance, surge o tango 

A experiência teatral se realiza no espectador por diversos caminhos. É preciso fazer escolhas, entender aquilo que se propõe, os códigos apresentados ao outro, sustentando seus símbolos e, consequentemente, narrativas. De modo outro, a absorção pode simplesmente não se efetivar e permanecerá o público minimizado em sua função de observador distante. Cabe, portanto, estabelecer precisamente um diálogo na construção de alguns valores fundamentais. Dentre eles, o corpo como instrumento de discurso, o gesto como linguagem de representação de tudo aquilo subjetivo, a presença como estado performativo, além, é claro, de todos os demais aspectos tradicionais que permeiam a criação de uma cena. Essa complexidade trazida pelo teatro contemporâneo é tanto causa quanto resposta às intersecções entre as linguagens artísticas. Unindo-se a dança, circo, performance, artes visuais, o teatro rompeu com sua dimensão excessivamente literal de representação para se configurar como mecanismo de apresentação. Rapidamente, diferenciando-as, representar significa estar em cena a serviço de ser outro, um personagem, por exemplo; apresentar, por sua vez, utiliza-se do performer para, por ele mesmo, trazer algo ao outro. Parece demasiadamente difícil tudo isso, é certo. No entanto, ainda que tais considerações circulem mais entre teóricos e acadêmicos do que entre artistas, espetáculos surgem a todo instante dando conta de problematizar e validar tais questões.

É o caso de Corpobolados, em que dança, circo, performatividade se reúnem por uma estrutura cênica de modo eficiente e, por vezes, até muito simples. São jogos calculados entre os participantes, cujo olhar e reconhecimento da presença do outro determinam os pontos de acesso entre dois ou três deles. As respostas são sempre físicas e gestuais, estabelecendo rapidamente um tempo particular em cada instante de ação. Sem que se perca a naturalidade da presença, os artistas sustentam com pleno domínio as partituras e seus riscos. São malabarismos que falham, movimentos provocados nos outros que se interrompem antes de ocorrerem. Isso aproxima a ação mais do circo, caracterizado pelo imponderável, do que do teatro, treinado exaustivamente para ser impecável. E é, exatamente na presença do imponderável, que o teatro e a dança ganham sabores de presentificação. O nenhum incômodo aparente com o erro faz com que este seja assumido narrativamente, e isso é saboroso e interessante descobrir, pois destitui-se a máscara da perfeição para assumir a face de exposição dos limites momentâneos e circunstanciais. Essa qualidade é fundamental e ilustra bem o trazido antes aqui. Sem máscara, não há personagens. Limitados, são principalmente eles mesmos em cena.

Por outro lado, a racionalização não é negada, como se as ações fossem casuais e inconsequentes. Pelo contrário. A geometrização cênica do palco, constantemente reordenado para manter-se preciso, inclui os corpos de início. Também o indivíduo é esteticamente estruturado em linhas e verticais junto à clave e bolas de malabares. Como se fossem desenhos em cena, os três tridimensionalizam a cartografia dos objetos e lhes emprestam movimentos espaciais ao tempo sublimado. Dançar impõe-se como gesto maior, então. E a dança surge insistente e repetidamente sustentada no tango, que descobriremos, passo a passo, como a única necessidade de movimentação. É como se os olhos dos jogos agora fossem expandidos para todo o corpo e depois para os objetos. Existe na repetição da coreografia igual perspectiva do movimento circense em sua mecanicidade. Leva-se tempo até surgir o primeiro esbouço de sorriso em cada um deles. Talvez por não se reconhecê-lo pertinente. Talvez porque leva-se tempo para se encontrar o outro e se reconhecer no outro. Fato é que o espetáculo sugere a narrativa entre as aproximações e desencontros mais triviais do nosso cotidiano, e ainda assim radicalmente determinantes sobre quem seremos depois.

Ao reunirem os elementos de tantas linguagens, Corpobolados dialoga com as esferas mais atuais de cada uma. Moderniza, no melhor sentido do termo, a perspectiva de inclusão do circense à cena, assim como da dança como vocabulário de exposição narrativa do corpo. Nada no espetáculo é absolutamente inovador. Mas nem por isso deixa de encantar a singeleza e a perspicácia em trabalhar com tantos elementos. As coisas chegarão certamente ao tempo. E o próximo passo a ser investigado é como construir uma dramaturgia de cena para tudo isso sem que se perca o conquistado, sem que se caia na narrativa literal, e sem que a palavra, caso venha a existir, seja a afirmação da própria cena. A direção de Paola Vasconcelos já se mostra provocativa, inteligente e interessante o suficiente para esperarmos muito mais.