AGORA \ Crítica Teatral
FORMAS DE FALAR DAS MÃES DOS MINEIROS...
Ruy Filho (SP), em Porto Alegre, 06/05/2016
Participação do Agora no Palco Giratório/RS se inicia com crítica de Ruy Filho sobre montagem do gaúcho Breno Ketzer para texto de Daniel Veronese
Maria Cecilia Guimarães e João França elaboram jogo de dissimulação nos papéis de funcionários de uma mineradora

Os olhos enxergam para além de si mesmos no escuro

A maior dificuldade em se montar um texto escrito em outro idioma, que não o nosso português, é permear as características culturais inerentes à escrita. Como cada lugar possui suas maneiras de ser e de expressar, a transposição exige na remontagem certa adaptabilidade para além da própria dramaturgia. Não basta, então, traduzir uma peça, e sim investigar sobre como e para quem fora originalmente criada. No caso de Formas de Falar das Mães dos Mineiros enquanto esperam que seus Filhos saiam à Superfície, ambos os aspectos são determinantes ao resultado, quando compreendidos os argumentos objetivos e subjetivos no tratamento da palavra.

Ao primeiro olhar, nesse enigmático texto de Daniel Veronese – e mais por escolha dramatúrgica do que ao seu entendimento -, está a metáfora evidente das crianças desaparecidas durante a ditadura militar na Argentina e as buscas ininterruptas das mães pelas entranhas das histórias e arcabouços das pistas apagadas. Após notificada, a mãe segue até uma empresa não identificada, cujo acesso a uma mineradora a faz imaginar o reencontro com o filho. É ela, induzida, quem fornece todas as informações aos funcionários para que seu imaginário seja alimentado. Veronese trabalha o desaparecimento não apenas na perspectiva do filho, avança sobre as condições da ilusão e das manipulações sobre o indivíduo ao ponto de também ele sumir no turbilhão de sensações distorcidas, desviadas e alienantes. Nesse aspecto, a história basta ser contada, encenada, e a direção de Breno Ketzer realiza isso com eficiência.

A dificuldade, no entanto, está no segundo olhar necessário ao texto, aquele que implica reconhecer para quem fora escrito. Esse quem, não tão direto como se fosse uma pessoa específica, refere-se ao argentino. E há aí uma distância complexa a ser compreendida. Ao ser a peça encenada a partir dos preceitos, técnicas e características dos atores brasileiros, muito se conflita com o idealizado pelo autor. Ainda que seja sempre um equívoco tentar dizer o que um dramaturgo tinha por intenção maior, arrisco-me por outro viés. Em Formas de falar..., Veronese provoca os intérpretes não ao descritivo dos acontecimentos, mas à difícil construção daquilo não dito entre eles, das subjetividades das palavras deformadas por interesses não esclarecidos, das dúvidas que se acumulam ao nível do insuportável. Por aqui, somos, à nossa maneira – e não cabe juízos hierárquicos, apenas funcionais -, mais histriônicos na projeção da voz e menos comedidos nos gestos. Tais características provocam na montagem de Ketzer a perda dos silêncios e da velocidade ao pensamento do espectador que tanto deles necessita para formar suas próprias desconfianças, tornando tudo um pouco mais literal e demasiado corrido. Mesmo instantes, quando os personagens permanecem sem falas, os gestos e movimentos dos olhos buscam construir no silêncio representações literais daquilo que estariam os personagens tentando esconder ou entender. Sobra pouco, portanto, ao espectador para construir seus próprios desvios pelos buracos propositais da dramaturgia, algo que a atuação argentina, não tanto dramática e previamente consciente da história como um todo, tão bem realiza em Veronese.

Ao escolher esse texto, um assunto complexo que não nos provoca imediatamente como o faz aos argentinos, precisa-se ser um tanto mais portenho. Nesse aspecto, ainda que não traduzido na atuação, é a ambiência cênica a melhor tradução do universo veroneseniano. A eficiência estética conquista o estranhamento em sua estrutura falsamente simétrica e matemática. No jogo oferecido pelo texto, também essas simetrias e equações podem ajudar a verticalizar os ditos e não-ditos. O espetáculo se aproxima em bons momentos dessa combinação, ainda que as entradas e saídas sejam pragmáticas e não artificiais o suficiente para igualmente serem interrogações. De todo modo, o espelhamento entre os personagens existe, realiza-se de forma intuitiva, e o jogo se estabelece como mecanismo de contar essa história. Talvez, se menos contada, a narrativa passe a ser descoberta por público e atores.

Optar por um texto profundamente complexo em sua estrutura é já um bom acerto, pois exige aos artistas empenho em desvendá-lo a partir de outras paisagens simbólicas. Em um momento como esse, em que se desconfia das manipulações e joguetes de todos os envolvidos, parece sermos nós as mães desesperadas oferecendo os argumentos contra nós mesmos. É claro que Veronese não pensou na situação brasileira. Contudo, o teatro, face exposta de escolhas e urgências reveladas por artistas, permite-nos encontrá-lo a partir de nossos interesses sempre mais imediatos. Se não estamos à procura de filhos, estamos, em certo sentido, tateando as minas escuras dos acontecimentos em busca de nossa própria realidade. O escuro assumido é sempre melhor do que a ilusão do visível. Se, na Argentina, o escuro é assumir o passado horrível, o nosso parece ser perceber o futuro. Essa é a importância de espetáculos como Formas de falar..., levar-nos a compreender a presença do horrível. Nessa escolha, Ketzer acerta o fazer teatral em cheio.