AGORA \ Crítica Teatral
STILL LIFE
Federico Zurita Hecht (ÁGORA Chile), de São Paulo, 07/04/2016
Crítica de Federico Zurita sobre peça da MITsp 2016 inaugura intercâmbio com o site chileno ÁGORA
Montagem do grego Dimitris Papaioannou recontextualiza mitos para expor a responsabilidade dos homens por sua condição

O ser humano traz o peso do mundo às costas

No espetáculo Still Life (Natureza Morta), do diretor grego Dimitris Papaioannou, a ação se desenvolve em um espaço vazio, escuro e silencioso, habitado por seres de origem divina que trazem às costas a marca do que seria um par de asas, como que esmagadas por um grande peso. A alusão ao divino se completa pelo uso de recursos de iluminação e de fumaça na parte superior do palco que se combinam para simular uma cobertura de nuvens pairando acima de tudo, inatingível para os anjos caídos. A condição de "caídos" se manifesta no aspecto das asas, cobertas de pó, como se esses homens fossem objetos em desuso. Somando-se ao sarcasmo das asas esboçadas nas jaquetas dos personagens, o acúmulo de detritos produzidos à medida que a ação avança permite que Papaioannou formule pareceres sobre o sofrimento experimentado pelos seres humanos, sofrimento este que molda a sociedade ocidental contemporânea.

No início da montagem, vê-se em cena apenas um pequeno muro, mais próximo de ser classificado como figurino do que como cenário, já que se constitui praticamente em um segundo revestimento trazido às costas pelo personagem que muito custo o arrasta pelo palco. O muro, portanto, não é estático e acompanha o homem aonde ele for. O arrastar do muro remete à personagem mitológica Sísifo, mas também a Prometeu, que, ainda que não estivesse condenado a carregar indefinidamente uma pedra, teve por castigo viver acorrentado a uma delas. No entanto, os anjos são apenas semelhantes àqueles personagens do mundo antigo. Still Life deve ser entendida como uma recontextualização dessas figuras, cujos significados precisam ser atualizados tendo em vista as discussões de nosso tempo. Há, portanto, no trabalho de Papaioannou, alusões ao mundo religioso ou político da Antiguidade, mas também ao que seria a sensação de condenação que marca o homem do nosso tempo. Os personagens que arrastam o muro não são Sísifo, nem a ele procuram assemelhar-se. Still Life alude a Sísifo para, em seguida, questionar a ideia de que o castigo tem natureza divina, uma vez que, como explicarei mais adiante, o peso do muro não deve ser atribuído a uma ação dos deuses, antes deve ser entendido como de responsabilidade dos próprios homens, ainda que estes não percebam (ou não queriam perceber) sua responsabilidade nessa construção.

À medida que o homem arrasta sua carga, o palco vai progressivamente sendo tomado por destroços, enquanto os corpos se deformam e assumem a forma do muro. O céu e o muro parecem cúmplices na construção de uma realidade social opressiva que submete o homem ao sacrifício de suportar nas costas um pedaço de concreto. Nesse sentido, é crucial perguntar: o que a obra propõe em termos de formulação de significados? Still Life busca iluminar a idéia de que a realidade social é feita de discursos, e que o peso nas costas da Humanidade resulta de um exercício discursivo criado pelo homem para atribuir a autoria dessa carga àquele que habita na nebulosidade que a tudo cobre. Assim, os significados do peso do muro e do esforço que ele impõe aos homens podem ser entendidos como a manifestação de uma moral, de uma racionalidade ou de um conhecimento que se pretende verdade. Todas estas formas de conhecimento produzidas pelo ser humano podem estar envolvidas na construção do muro. A deformação dos corpos dos homens resultaria, portanto, do peso que eles próprios criam, mas que atribuem a deuses ou a outras formas discursivas que representem o poder. Como resultado, o homem carrega o muro que ele próprio construiu, mas também nasce, parido por esse muro/útero que o expele como a um ser disforme.

A construção de significados em Still Life se socorre ainda de outros personagens. Um deles é uma mulher que, ao ser parida pela parede (cuja origem humana e não divina já foi revelada), perde o falo e é reconstruída pelo homem, que deforma a aparência dela por meio de uma placa que filtra a imagem. Outro personagem é o trabalhador, assoberbado pela responsabilidade de carregar tijolos que serão usados para erguer outra parede. Importante observar que o muro que será levantado por este operário ainda não existe, mas já se constitui em peso para a consciência dos seres humanos. Em seguida, os personagens executam uma ação que poderia ser descrita como o desmantelamento das fronteiras invisíveis que existem no espaço que habitam. Com isso se estaria sugerindo que a realidade social se assemelha ao teatro na medida em que constrói limites fictícios. As verdades que condicionam nossa vida seriam ficções construídas por nós mesmo. Dessa maneira, o peso divino que os homens carregam às costas pode ser definido como uma construção discursiva criada por eles mesmos. Mas o ser humano, responsável final pelo mundo, para ignorar ou fugir da responsabilidade, assume a forma de um objeto inanimado, como aqueles que estão em cena em Still Life.

Por consequência, qualquer busca de equilíbrio nas ações humanas implicará em queda, e, ainda que o desenrolar dramático de Still Life avance para o que seria o alcance do prazer, a pedra (o fragmento do muro) deixa claro que é impossível fugir de seu peso, já que o ser humano se submeteu a tal esforço de autoconvencimento que este fardo revestiu-se da condição de imposição externa e indiscutível.

 

A postagem de Still Life, por Federico Zurita, inaugura um intercâmbio de conteúdos entre o Agora, do Brasil, e o Ágora, do Chile. Nosso site vai publicar traduções de críticas postadas no Ágora, facilitando o contato com o teatro e a crítica teatral chilenos. Simultaneamente, o Ágora estará postando traduções de críticas do Agora, a começar pelo comentário de 100% São Paulo, por Michele Rolim. Confira em http://is.gd/wMQFfs