AGORA \ Crítica Teatral
REVOLTING MUSIC
Mateus Araújo (PE), em São Paulo, 07/03/2016
Show do sul-africano Neo Muyanga revisita canções de protesto que marcaram apartheid
Valendo-se de sua voz e acompanhando-se ao piano ou na guitarra, Muyanga propõe um discurso musical de alta carga política

Voz a ser ouvida

Foi e é pela música que o povo negro transformou sua dor e sua revolta em grito. Dos navios negreiros às senzalas, nas plantações e nos roçados, nos terreiros e nas ruas, homens e mulheres obrigados pela história mundial à condição de marginalizados passaram a cantar suas mazelas como hinos de luta pela liberdade. Em show apresentado na última sexta-feira (4), na Sala Jardel Filho, no Centro Cultural São Paulo, o músico africano Neo Muyanga levou ao palco uma junção de composições que fazem parte dos movimentos de libertação acontecidos na África do Sul durante o apartheid. Uma colcha de retalhos de uma história presente até hoje no cotidiano do povo negro.

Revolting Music nos contextualiza em um tempo mais antigo, nas décadas de 1940 a 1990, na África do Sul, auge da polarização entre negros e brancos. Com violão e piano, Muyanga cria diante da plateia sua própria narrativa musicalizada, explicada por ele por meio de depoimentos e lembranças. A possibilidade de gravar sua voz e juntá-la como recortes em uma espécie de coro faz do músico um coletivo. Há uma metáfora possível de que, sim, podemos ser muitos, e precisamos ser ouvidos.

As músicas cantadas na maioria em zulu e soho, que são línguas nativas africanas, não têm suas letras compreendidas, mas a construção da cena do espetáculo nos possibilita o entendimento da atmosfera. O palco com penumbra e a luz em tons mais frios que acompanha Muyanga ratificam a tristeza que perpassa o repertório. Enquanto isso, a expressão vocal de Neo Muyanga enfatiza a revolução cantada. São tons de voz que em alguns momentos se assumem gritos, passam a sublinhar o protesto presente nas canções.

Quando Revolting Music acaba é que o discurso tenciona. A expansão de sentido e tempo das revoltas ganha os contornos contemporâneos, pontuado por um Brasil erguido pela força negra, mas ainda extremamente racista. Subitamente rompida a calma da apresentação de Muyanga, um grupo de atores, homens e mulheres negros “invadem” os corredores entre as plateias e impõem seus cantos, ditos com olhares questionadores e que revelavam urgência.

Aqui, neste momento, o canto já não é só música. É discurso que une referências também da literatura e do cotidiano de um país marcado pelas intolerâncias. A performance Em Legítima Defesa, dirigida por Eugênio Lima, fala da gente assassinada pela sociedade por preconceito de raça, de gênero e de classe. Fala de um genocídio que acontece diariamente nas favelas, nas ruas, nas escolas e trabalhos, mas silenciado pelas autoridades. Mostra que o passado ainda está presente, e que a África também é aqui.

É sintomático perceber, por exemplo, os números reais trazidos pela performance sobre o massacre institucional feito pela Polícia Militar brasileira: a cada quatro pessoas mortas por um PM, três delas são negras, como repetem inúmeras vezes os atores, utilizando um trecho de Capítulo 4, Versículo 3, dos Racionais MCs. É sintomático também que uma apresentação como essa aconteça numa São Paulo testemunha de violência desmedida da polícia contra jovens que questionam o governo sobre o fechamento de escolas públicas ou sobre o desvio do dinheiro que pagaria a merenda desses estudantes.

O que une Revolting Music e Em Legítima Defesa não é apenas o olhar de um povo sobre sua história, mas o olhar de uma nação sobre aquilo que nos diminui: o preconceito. Seja no trabalho de Neo Muyanga ou na ação performática dos atores dirigidos por Eugênio Lima, o questionamento predominante é sobre o respeito e a igualdade. E ali não estão apenas os negros, mas também as mulheres, os homossexuais, os refugiados, enfim, aqueles que lutam todo dia pelo direito de ser quem são.