AGORA \ Crítica Teatral
O QUE NÃO VAZA É PELE / NÃO CONTE COMIGO PARA PROLIFERAR MENTIRAS / ROLEZINHO – NOME PROVISÓRIO
Soraya Belusi (MG), em Belo Horizonte, 04/01/2016
"O que não vaza é pele" parte de uma fábula inocente para colocar em cena as complexidades do preconceito racial

Quando um é bom, dois é ótimo, e três é melhor ainda

Nos últimos anos, o ator e diretor Alexandre de Sena vem somando momentos singulares com a apresentação de trabalhos curtos no Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto. Em 2012, sob sua direção, foi apresentada O que não vaza é pele. Dois anos depois, foi a vez de Não conte comigo para proliferar mentiras, e, em 2015, um dos pontos altos de um dos eventos mais importantes para a cena teatral mineira foi Rolezinho – Nome Provisório. Vistas separadamente, as três cenas curtas demonstram potência tanto no discurso quanto na linguagem que propõem, mas, vistas em sequência, o que foi possível pela primeira vez na programação do projeto Conexões, na Funarte-MG, elas vão muito além de si mesmas e contextualizam uma produção que dialoga com o que vem se delineando nas artes cênicas da cidade.

Cabe aqui, para refletir sobre os trabalhos, levar em consideração a noção de performatividade, em que, segundo Josette Féral, a presença torna-se mais eficaz que a representação, em uma cena que evidencia o mostrar o fazer, que privilegia menos o personagem e mais o performer, enfatiza mais o discurso que a fábula – ou melhor, em que é possível estar “entre” uma coisa e outra, rompendo com a obrigatoriedade do isso ou aquilo. É possível ainda retomarmos a ideia de partilha do sensível proposta por Jacques Rancière, em que alguns são impedidos de ser parte ativa da construção do sensível e de sua vivência, o que nos leva ainda a uma percepção sobre (in)visibilidade e emancipação. Um terceiro viés que será utilizado para dialogar com a obra é a relação entre o teatro e o real.

Em O que não vaza é pele, os atores/performers/contrarregras/personagens Alexandre de Sena, MC Matéria Prima, Byron O’Neill e Jésus Lataliza contam a história de uma cidade chamada Clarimanha. Nela, apenas os mais de 80 tons de branco conhecidos na natureza são permitidos, e a chegada de um homem de cor abala o cotidiano local. Esta cidade é vizinha de Santa Alva, que está historicamente situada em qualquer época e em qualquer ano.

Remetendo ao recurso amplamente utilizado por Brecht para pensar o político no teatro, O que não vaza é pele parte da fábula para transbordar no real. A inocência de uma historinha inofensiva ganha contornos de profunda contestação política quando o espectador toma conhecimento, por meio da exibição de uma matéria de jornal televisivo, que o tal homem de cor é o ator e diretor Alexandre de Sena, vítima da violência policial, em decorrência de racismo, ocorrida na cidade de Blumenau.

A noção de personagem/ator que o espectador podia escolher até então como viés de fruição da obra cede lugar à presença do performer, o ficcional é esmagado pelo real, assim como a representação é abandonada em prol do autobiográfico. Porém, esse relato que acaba de assumir caráter pessoal explode em polifonia quando a voz do ator/performer é multiplicada pela passagem do microfone à plateia, que lê o texto escrito pelo artista. Na apresentação realizada no dia 13 de dezembro, em Belo Horizonte, o que se viu foi uma multiplicação de vozes borrar as noções de palco-plateia, de teatro e vida, de ficção e real, de razão e emoção, tratados sempre com tanta distância. A experiência do racismo, quando lida por outros negros presentes no teatro, fazia com que o texto do artista fosse, ao mesmo tempo, o texto de muitos, em um exercício de encontro entre o eu e o outro. A voz embargada do espectador ao realizar a leitura denota o impedimento social que é imposto aos negros de falarem. Como se algo estivesse sempre entalado, preso, impedido de sair de dentro.

"Não conte comigo para proliferar mentiras" usa trilha de rap para questionar gênero e sexualidade

O “entre” é o lugar que nos propõe Não conte comigo para proliferar mentiras, com os atores-performers Igor Leal e Will Soares. Com o playback de Homem na Estrada, canção icônica dos Racionais MC’s, gravada em 1993, Will Soares utiliza-se de signos ligados aos estereótipos de feminino e masculino – cerveja, camisa de time de futebol, vestido e colar de pérolas, etc. – para embaralhar o binarismo. E, pensando sequencialmente as criações de Alexandre de Sena, a escolha do rap como linguagem fortalece a relação entre hip hop e teatro que já se apresentava na presença e atuação do MC Matéria Prima em O que não vaza é pele, além de ressaltar como discurso um questionamento sobre também o preconceito de raça no Brasil.

O grupo de rap mais importante do Brasil – linguagem também muito associada aos supostos comportamentos padrões de masculinidade – encontra-se com a dublagem dos shows de transformistas. Will se despe das roupas como se trocasse simultaneamente das imposições de gênero e sexualidade dos olhares do outro, nunca assumindo um ou outro papel social exigido, mas sempre no espaço do entre. Questiona-se, assim, os padrões de originalidade que constituem o pretenso gênero verdadeiro e a respectiva sexualidade nele presumida, adotando uma perspectiva queer, pela qual a diferença é de fato política e não algo intrínseco à natureza humana.

Não conte comigo para proliferar mentiras, criada em 2014, antecipa para a cena, e transforma em potente experiência artística, o que um ano mais tarde se veria nas ruas de Belo Horizonte, quando, há poucas semanas, o Duelo de Vogue encontrou-se com o Duelo de MC’s, embaixo do viaduto Santa Tereza – local que, além de ser símbolo do nascimento da Belo Horizonte moderna, é ocupado por movimentos artísticos importantes da cidade¹ e no qual se realiza frequentemente, a contragosto da prefeitura, o encontro do movimento hip hop.

Fechando o que – conscientemente ou não – configura-se como uma trilogia, Rolezinho – Nome Provisório funde todos os conceitos e ideias que apresentamos no início deste texto para refletirmos sobre a criação de Alexandre de Sena. A relação entre teatro e vida, teatro e real, teatro e política se estabelece à medida em que o artista busca o equivalente na linguagem teatral para o fenômeno social protagonizado por jovens e adolescentes em shoppings que foi intitulado rolezinho. O que tanto assustava a classe média brasileira, a presença de um grupo de jovens negros e de periferia usufruindo o direito de frequentar espaços antes a eles negados, de se tornarem visíveis onde ninguém os queria ver, era, assim como se dá na cena, uma performance sobre poder – poder ser, poder existir, poder se fazer ver. Não é diferente no teatro. Ainda são minoria os atores negros ocupando os palcos brasileiros, assim como no público.

Na cena, uma adolescente negra sai do meio da plateia para ocupar o “lugar de fala”, como nos propõe Michel Foucault. Antes, protege-se como quem vai para o enfrentamento – joalheiras, cotoveleiras, guias espirituais. Pede que lhe tragam o microfone, quer ser ouvida. Em um manifesto político-poético, mostra que quer ser mais que ouvida, quer ser vista por todos que insistem em fingir que ela não existe. “Eu estou aqui há mais de 500 anos”, repete. Enquanto lê o texto em um celular, o palco vai sendo ocupado por diversas pessoas negras, num exercício de performatividade em que a força se instala na presença dos corpos. Ocupado o palco, finda a palavra. Resta o grito, aquele entalado que embargava a voz do espectador que leu o texto no qual Alexandre de Sena narrava a cena em que foi espancado pela polícia apenas e simplesmente por ser negro. Mas, como diz a adolescente de Rolezinho durante a cena, “... há muito a ser criado. E eu não sou mais criada”.

¹ Vale lembrar que a sede do Espanca!, grupo teatral de Belo Horizonte, também se localiza abaixo do viaduto Santa Tereza, e que Alexandre de Sena acumula participações como ator em trabalhos do coletivo, com o qual tem longa parceria.

"Rolezinho – Nome Provisório" garante voz e visibilidade aos jovens negros das metrópoles