AGORA \ Crítica Teatral
O ANO EM QUE SONHAMOS PERIGOSAMENTE
Mateus Araújo (PE), em Recife, 14/12/2015
Magiluth (PE) recorre à corporalidade e à metateatralidade para continuar sonhando
Encenação proposta por Pedro Wagner para “O Ano em que Sonhamos Perigosamente” estabelece tom de desintegração e desencanto

Retrato em corpo inteiro do caos

O Magiluth é hoje um dos mais relevantes e atuantes grupos de teatro do Recife. Desde sua criação, há 11 anos, o coletivo ganhou evidência local e nacional com espetáculos criados a partir de uma estética cênica que afronta os limites do real, em jogo com a desconstrução da teatralidade. Sem medo de expor os pormenores que os afligem nesse 2015 de tantas dúvidas e crises, os atores do coletivo resolveram colocar em cena suas próprias incongruências atuais.

O Ano em que Sonhamos Perigosamente, que esteve em cartaz durante novembro no Sesc Belenzinho, em São Paulo, adverte para a iminência de um colapso. O espetáculo lança um clarão sobre os desajustes sociais e comportamentais que marcam o mundo contemporâneo, e que não poupam sequer o fazer teatral.  

O próprio Magiluth vive uma fase conflituosa de sua trajetória, com a saída do diretor Pedro Vilela e o desencadear de uma reflexão interna sobre os novos rumos e criações. Situação, que, claro, serve de norte para o espetáculo: os atores se perguntam – e nos perguntam – sobre o estão fazendo, alfinetam as necessidades de encenar ou não e satirizam a própria maneira de pensar o teatro.

A peça, com direção de Pedro Wagner, é azeitada pelas reflexões e pelos questionamentos das obras do filósofo Slavoj Zizek (o título da montagem é o mesmo de um livro de Zizeck) e do cinema de Yorgos Lanthimos. Criações que se valem das crises da família, do poder e do capitalismo para refletir as falências e as revoluções sociais.

A encenação opta por um tom angustiante. O corpo submetido a tensões e a pancadas grita pela dor física e psicológica a que a sociedade tem sido exposta. Embora tão pautado pelo filosófico, o espetáculo é mais expressão do que palavra. A cena é corporal, explora movimentos violentos, bruscos e repetitivos, com marcações pulsantes e dançantes. Quando já não se sabe para onde ir, a “saída” é dançar. E eles dançam.

O cenário se aproxima do caos dos pensamentos que explodem na dramaturgia. O palco nu, com as estruturas da caixa cênica expostas, desmascara a ideia de encenação. A eficiente direção de arte, criada por Flávia Pinheiro, junto com a luz desenhada por Pedro Vilela, extraem a poesia dessas angústias e desconformidades sociais, afirmam uma textura empoeirada e esfumaçada. Enquanto a música de Leandro Oliván explora os ruídos e experimentações eletrônicas, trilha de um espírito da desordem.

A primeira parte do espetáculo se dedica unicamente ao próprio teatro – traz o corpo como centro. Em um jogo ardiloso de movimentos e de repetições de palavras, os artistas ensaiam um espetáculo – como quem se prepara para um conflito. O sarcasmo com que tratam a interpretação suscita dúvidas da arte para com ela mesma.

Do “ensaio”, eles partem para o espetáculo, e recorrem a textos clássicos de Tchekov. Ao pinçar trechos de A Gaivota, a peça ratifica os questionamentos sobre o teatro e seu papel na sociedade atual, para depois questionar esta mesma sociedade sobre a maneira com a qual se erguem o presente e o futuro. Em O Jardim das Cerejeiras, percebem-se referências para as demolições que levam consigo parte da história de gerações: no cerejal que vai ao chão para uma moderna construção, apagando memórias e afetividades, assim como o Recife que desaba em favor da especulação imobiliária. 

O terceiro momento do enredo é o caos das angústias. A insatisfação existe, mas a resolução ainda não. E por isso o elenco dança e se questiona para onde vamos e o que estamos fazendo. Quando já não há mais o que fazer, eis que as palavras de Tchekov ressoam na caixa de som, sozinhas. É o momento de respirar após tanta guerra. O fim é marcado por um tom de incredulidade, assim como o próprio sentimento que instiga o ponto de partida de tudo.