AGORA \ Crítica Teatral
OKTOBRE
Mateus Araújo (PE), em Recife, 03/11/2015
Grupo circense francês de Florent Bergal encena universo dominado por violência, humor e demônios pessoais
Espetáculo "Oktobre" foi destaque na 11ª edição do Festival de Circo do Brasil, no Recife

Circo do absurdo

No início, a escuridão do cenário e as expressões enigmáticas dos três personagens sem nome sentados em torno de uma mesa já coloca a plateia na expectativa de um espetáculo fantástico. Nos minutos seguintes, enveredamos por um universo bizarro, provocante e mágico, respaldado pelo talento circense, preciso e extremamente hábil dos artistas franceses da companhia Oktobre. A montagem, cujo título traz o nome do grupo, foi uma das principais atrações do primeiro final de semana da 11ª edição do Festival de Circo do Brasil, no Recife.

O trabalho dirigido por Florent Bergal une circo e teatro do absurdo em uma dramaturgia que possibilita ao espectador inúmeras leituras. Uma delas é a impressão de que aquelas pessoas coabitam uma casa assombrada e enigmática e, naqueles cômodos, têm que lidar com os seus próprios fantasmas e verdadeiros eus. Dois homens e uma mulher dividem a cena, implicando uns com os outros, vivendo uma série de disputas e ameaças.

A aparente tranquilidade dos primeiros instantes da apresentação, quando estão sentados à mesa, é quebrada tão logo cada figura traz à cena suas personalidades. Em quadros solo ou em duplas, eles evidenciam os seus monstros e desequilíbrios internos. São cenas que misturam, nas expressões dos personagens, sarcasmo, violência e humor.

Eva Ordonez-Benedetto vive uma senhora que, dentro de si, se equilibra para sobreviver com os seus medos. A metáfora do perigo e a insistência desta mulher estende-se à arte do trapézio, na qual Eva mostra ao público uma força física extrema em diálogo com as situações psicológicas de sua personagem. Na iminência da queda, a atriz deixa a plateia em silêncio absoluto e atenção redobrada.

A quebra desta tensão presente no solo da equilibrista vem nos números dos seus colegas Jonathan Frau, no papel de uma criatura desajeitada construída com base em uma habilidosa técnica de contorcionismo; e Yann Frisch, uma sumidade na mágica mundial, que encanta o público com a velocidade de suas mãos, revelando e escondendo objetos de maneira impressionante, numa fração de segundo.
Uma quarta personagem, a mais carismática do elenco, vivida pela atriz Pauline Dau, irrompe na história reforçando o caráter absurdo, com humor e extravagância que nos lembram o teatro dos bufões. A mulher desconstrói a linearidade da dramaturgia transformando-se numa ruptura do compreensível. Aqui vêm os risos e gargalhadas de crianças e adultos que assistem à apresentação.

O próprio cenário de Oktobre reforça esses estranhamentos e o caráter absurdo da obra. Contraposto ao preto predominante no cenário e figurino dos personagens, o vermelho casual de objetos pontuais – como balões e cadeiras – e de um vestido torna visível a relação entre o feitiço presente naquele universo e o dos filmes de Tim Burton. Uma das mais belas imagens deste espetáculo é a luta corporal dos três personagens em que um pó também vermelho reproduz o sangue numa eficaz composição plástica.

Muito distante do convencional, a montagem é daquelas em que o encanto da arte abre leques de percepções e compreensões. É daqueles circos que arrebatam e alimentam a imaginação de quem o vê.