AGORA \ Crítica Teatral
NAUTILUS
Helena Carnieri (PR), em Curitiba, 26/10/2015
Infantojuvenil do Vigor Mortis reafirma características das montagens adultas do grupo curitibano
Michelle Rodrigues, Ed Canedo e Rubia Romani são o trio que combate os desmandos da indústria petrolífera

Um mergulho na ficção científica

A companhia Vigor Mortis, do curitibano Paulo Biscaia Filho, se firmou como uma das principais da cidade nos últimos 15 anos ao adotar uma linguagem inspirada no gênero centenário do “grand guignol”. A partir dessa estética francesa, o grupo tem se calcado em violência, sangue cênico, sensualidade e canastrice. Os espetáculos Morgue Story Sangue, Baiacu e Quadrinhos (2004) e Nervo Craniano Zero (2009) são alguns exemplos de peças premiadas com as quais o diretor amealhou um público cativo.

Após investidas cinematográficas também bem-sucedidas, Biscaia realiza agora um interlúdio infantojuvenil em que veem-se várias marcas de seu teatro habitual. No primeiro semestre, ele estreou o espetáculo infantojuvenil Lobos nas Paredes, a partir do livro de mesmo nome de Neil Gaiman. Agora em outubro, é a vez de Nautilus, segunda montagem aberta a crianças, numa bem-vinda colaboração a essa cena curitibana, à qual o diretor traz inteligência, referências diversas e o seu rigor estético. Por outro lado, talvez ele ainda esteja procurando o tom exato para se comunicar nessa nova seara, tendo deixado desguarnecido sobretudo o flanco da sonoplastia, elemento que, em suas montagens para o público adulto, costuma receber um cuidado maior.

O título indica que se trata de uma adaptação da obra de Julio Verne – na verdade, uma continuação. O submarino em que o capitão Nemo de Vinte Mil Léguas Submarinas viaja para destruir navios de guerra é reencontrado pelo público de Nautilus. Com efeito, é dentro dele, num corte longitudinal de extremo detalhismo e eficácia, que se passa o enredo.

Uma geóloga, Selena Theo (Michelle Rodrigues), e uma patricinha metida a documentarista, Janaina Kreutz (Rubia Romani), estão no Pólo Sul numa expedição em busca de petróleo. Quando se veem abaixo do gelo e dentro do submarino, cria-se um clima misto de suspense e comédia que lembra os filmes mais antigos da Sessão da Tarde – essa é, aliás, uma das referências de Biscaia para o espetáculo.

Um terceiro elemento entra para o rol de personagens: o próprio Nemo (Ed Canedo) estava congelado numa câmara criogênica e é despertado de seu sono pelas invasoras. A pegadinha geracional é que ele vem do século 19, mas já fora descongelado anteriormente pelos russos nos anos 1950, o que explica algumas atualizações da nave, como computador de bordo. A relação com as duas brasileiras do século 21, portanto, passa por choques culturais, de onde vem boa parte das brincadeiras em cena, mas é possibilitada pelas informações que ele já conseguira na época da Guerra Fria – depois, ele fora congelado de novo.

O trio parte então numa missão terrorista contra o petróleo, “causador de quase todas as guerras”. No cenário-máquina, destaca-se o movimento mecanizado que inclina o submarino durante a navegação, jogando o elenco para cima e para baixo. Outra solução excelente foi ilustrar os confrontos externos da nave por meio de maquetes, manipuladas por contrarregras caracterizados em escafandros.

Em meio à ficção científica, sobra espaço para o romance, salada que Biscaia constrói com habilidade a partir dos filmes B de Roger Corman dos anos 1950. Na dramaturgia assinada pelo próprio diretor, retorna o gosto pelas invenções presentes em sua fase sanguinolenta. O tom canastrão de suas peças também surge aqui, especialmente no personagem de Nemo, estilo que é somado ao didatismo exigido pela trama complexa e pelo perfil infantojuvenil.

Guardadas as proporções exigidas por uma peça destinada a maiores de 10 anos, está presente ainda a violência, na forma de peixes nojentos e sucuris assassinas. Quem empunha o arpão e a navalha é Selena, explosiva e ao mesmo tempo ingênua, mas destemida.

A construção que Rubia Romani faz para sua riquinha guerrilheira é fantástica, baseada num sotaque paulistano e muita gíria. Cansa apenas a repetitiva alusão a inúmeros namorados bem-nascidos.

Nautilus traz um enredo bem amarrado, com uma finalização dessas que Biscaia sabe fazer muito bem. O didatismo entra na conta do perfil etário. Cenário primoroso, atuações boas. Sente-se porém uma certa fragilidade no ambiente sonoro, tanto na opção de trilhas, que parece se encaixar somente em alguns momentos, quanto na sonoplastia misturada à dicção e volume da fala dos atores – o resultado é que, em muitos trechos, não se entende o que é dito, e há uma certa confusão auditiva.

Nada disso compromete o todo do espetáculo, marcado pela pesquisa que concede verossimilhança às invenções do enredo e pelas piadas bem situadas com assuntos atuais.