AGORA \ Crítica Teatral
CAESAR – COMO CONSTRUIR UM IMPÉRIO
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 13/10/2015
Club Noir ilumina meandros da política revisitando tragédia de Shakespeare
Caco Ciocler (foto) e Carmo Dalla Vecchia multiplicam-se em 20 personagens

Roberto Alvim desconstrói o poder 

A crise política e social que o Brasil atravessa serviu de "curadoria informal" para o 22º Porto Alegre Em Cena. Vários dos espetáculos mais representativos do festival tinham por tema lutas pelo poder – Galileu Galilei (peça paulista, militância versus independência intelectual), Marx in Soho (montagem do Uruguai, necrópsia do socialismo), Contrações (de SP, Corporação alçada à condição de Deus) e Oleanna (do Rio, politicamente correto patrolando o individual), além das gaúchas Cidade Proibida e A Vida Dele. A montagem que melhor sintetizou esse complexo embate, entretanto, escolheu fazê-lo de maneira descarnada, praticamente em preto em branco: Caesar – Como Construir um Império.

O ponto de partida da montagem do Club Noir (SP) é a tragédia Julius Caesar, escrita por Shakespeare, narrando os jogos sangrentos pela sucessão do líder romano, assassinado durante um complô liderado por Bruto. O vale-tudo da corrida presidencial no Brasil do ano passado e o vale-nada que estimulou linchamentos nas grandes cidades brasileiras convenceram o diretor e dramaturgo Roberto Alvim de que o texto escrito presumivelmente em 1599 não podia ser mais atual.

O que destaca Caesar, entretanto, é não apenas a oportunidade de estabelecer paralelos entre a carnificina política romana e a chacina ética brasiliense, mas o fato de vários elementos de encenação se somarem e se combinarem para potencializar não apenas a exposição dos processos, mas o questionamento dos papéis dentro e fora do palco.

A começar pela ambiência que já caracteriza as montagens do Club Noir, marcadas pela quase inexistência de cenários, pela narrativa truncada de modo a provocar e ampliar o papel do espectador na construção do espetáculo. Os atores se vestem de preto, trajes levemente marciais, um figurino com prazo de validade que contempla a conferência do Wansee, os fantasmas futuristas de 1984 e a jornada épica adolescente de Jogos Vorazes (poder é mesmo algo que está na moda). A iluminação escassa e extremamente seletiva já é conhecida do público gaúcho pelas montagens Peep Classic Ésquilo e Tríptico Samuel Beckett, apresentadas nos Porto Alegre Em Cena respectivamente de 2013 e de 2014.

Caco Ciocler e Carmo Dalla Vecchia interpretam com rigor por volta de 20 personagens, revezando os papéis entre eles, alternando-se como Bruto, Júlio César e Marco Antônio. Um detalhe de voz, um braço dobrado às costas, e cada um transfigura-se em traidor com boas intenções, líder popular com vocação para tirano, aristocrata conservador light. É uma das grandes sacadas da encenação: para se manter no controle, existem papéis que vão sendo sucessivamente ocupados sem que importe o ator, o cavalo, o RG, a ideologia. No jogo do poder, somos todos coringas.

O cenário é tão eloquente como despojado: para sediar uma luta em que todos são judas a traírem  causas, há 30 mil moedas no chão e um filete de luz vermelha que se ergue no fundo do palco qual rio de sangue, cordão umbilical ao avesso que garante nutrientes para a disputa. Alvim providencia um fundo musical para essa jogatina: praticamente durante todos os 60 minutos da peça, ouve-se a trilha composta e executada ao vivo pelo filósofo  Vladimir Safatle (em Porto Alegre, a pianista foi Mariana Carvalho). Outro acerto: trata-se de uma ópera bufa trágica, pois não? A teatralidade que modula as vozes dos atores, desde sempre traço fundamental na estética do Club Noir, é potencializada pelo som do piano, com reforços e contrastes que se constituem em outros focos de atenção e de compromisso criativo para cada espectador..

Um elemento que vale a pena detalhar é o texto dramático. Como já fez em outras oportunidades, o carioca Alvim adapta textos clássicos valorizando o que sua memória registrou como o núcleo duro da trama original. No caso de Caesar, isso fez com que ele limasse a cena inicial do original shakespeariano, em que dois tribunos patrícios, num tom levemente cômico, sinalizam claramente que Júlio César ansia realmente tornar-se ditador. Por outro lado, Alvim trata de explicitar um interesse físico de Cássio por Bruto, o que reforça a tese de que grandes motivações políticas e sociais estão cravadas nas urgências pessoais.

As tramas palacianas são de fazer corar, mas o povo romano também não sai bem na foto. Durante o velório de Júlio César, os cidadãos ora glorificam Marco Antônio, ora alinham-se com Bruto, dependendo da competência do discurso de cada um. Quando o complô é desbaratado, os respeitáveis romanos organizam-se em bandos para linchar os traidores da vez. Não é o que ocorre agora no campo de batalha dos blogs? 

Ao final do espetáculo, Alvim afirma sua independência como criador e não evita de posicionar-se. No original, Bruto suicidava-se jogando-se sobre uma espada empunhada por um serviçal. Ao descobrir o cadáver do rival, Marco Antônio o elogia, desqualificando a traição de Bruto como o erro de alguém bem-intencionado. Um dos melhores entre os romanos (aristocratas)... que se desviou do caminho. O final escrito por Alvim rejeita esse viés classista e projeta o que seria a atitude do artista frente ao Poder. A última cena de Caesar mostra Bruto seguindo por uma estrada e encontrando um poeta cego. Este lhe conta que está enojado do que acontece nas cidades, onde os homens tornaram-se lobos e matam-se uns aos outros por vingança política. Bruto pergunta se ele o reconhece, mas o poeta diz que não, embora perceba nele uma boa alma.

Está claro: o artista não deve dar atenção às tantas chicanas políticas, deve antes confiar na sua intuição para garantir-se acima das marés políticas. Alvim garante um desfecho mais nobre para o honrado Bruto, que morre não nas mãos de um serviçal, mas de alguém que o enxerga como igual por não estar cego pelos conchavos e jogos de cena da política.