AGORA \ Crítica Teatral
A COISA NO MAR
Helena Carnieri (PR), em Porto Alegre, 18/08/2015
Montagem premiada volta ao cartaz em Porto Alegre com boas atuações
Gabriela Poester (D) está no elenco de "A Coisa no Mar", em cartaz em Porto Alegre

Vidas à deriva

Uma demonstração de como um bom texto é o substrato principal para que artistas em início de carreira exercitem seus instintos criativos é A Coisa no Mar, em cartaz até 2 de agosto no Instituto Goethe de Porto Alegre. O grupo revela ter bastante energia para erguer uma adaptação envolvente, com interpretações, ainda que desiguais, muito promissoras.

A diretora Jéssica Lusia reestreia o espetáculo, que já tem um ano de vida, com duas substituições. Os cinco atores no palco são tão jovens quanto ela, alguns ainda estudantes de artes cênicas.

O texto da alemã Rebekka Kricheldorf oferece 56 páginas de um enredo que oscila entre o realismo e o absurdo, no qual um grupo comemora a promoção de uma médica a um cargo de chefia. Eles estão a bordo de um barco ancorado no cais, mas, no final da festa, percebem estar à deriva. À medida que o tempo passa e eles não são resgatados, caem as máscaras sociais e sobra o humano orgânico e fedido – como diz o texto, “todos nós sabemos que se a gente raspa a camada de verniz /só sobra o macaco / e eu não quero ver o macaco”.

A degradação paulatina lembra a desconstrução das relações cordiais entre um grupo da alta sociedade no filme surrealista O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel. Se lá uma força invisível impede que os convidados de um jantar deixem a sala, sucumbindo aos poucos ao calor, à fome, à dificuldade de se relacionar, na peça um ser vivo, “a coisa”, ronda o barco e é avistado pelos cinco passageiros aterrorizados.

Na encenação de Lusia, essa metáfora para tudo aquilo que nos acua e ameaça é sinalizada com um código: as luzes caem e piscam, ouve-se uma sirene. Nas primeiras vezes em que isso ocorre, a escolha impressiona, mas ela beira o caricato pelo uso recorrente.

O mar, essa representação do inconsciente humano, cerca o palco na forma de plástico-bolha azul, compondo um conjunto coerente com o restante do cenário, confinado entre cerquinhas de desenho animado. A opção por um símbolo da classe média, no lugar de uma caracterização realista do barco, aguça o olhar. No centro, uma escada lembra um mastro e oferece um ponto de destaque em que os atores se empoleiram para dar suas falas cruciais.

À frente do cenário, dois bancos retangulares servem de praticável para mudanças de cena, o que é feito rapidamente pelos atores que protagonizarão o momento seguinte da peça. Dois a dois, eles estabelecem diálogos que nos apresentam as mentiras e deslealdades entre os personagens.

Enquanto isso, os demais estão sempre no palco, mesmo quando as mortes começam a diminuir a tripulação.

O todo da encenação é colorido, utilizando brinquedos infantis como mesa baixa e lápis de cor, caixas de plástico, um gravador gigante, o que entra num bom contraste com o figurino adulto de festa – que foi indicado ao Prêmio Açorianos de 2014, ao lado da direção do espetáculo.

A única categoria em que a montagem venceu na mesma premiação foi a de melhor atriz, para Gabriela Poester. Ainda “fresca” na cena teatral, ela demonstra uma  bem trabalhada caracterização de sua Berenice, uma mulher que bebe demais e parou de trabalhar após um choque emocional. Se nos primeiros cinco minutos do espetáculo ela se debate em busca do registro perturbado, logo embarca num corpo e uso da voz que fazem algo difícil no teatro, que é representar um bêbado.

A personagem é o ponto nevrálgico da peça. Convidada por Carla (Joana Kannenberg), a amiga médica, ela revela na metade da encenação que não tem tanta vontade assim de ser resgatada. As descobertas pessoais causadas por aquela situação de crise tornam a vida impossível?

Gabriela e Joana apresentam sintonia no palco, ressaltando as diferenças de personalidade e visão de mundo de suas personagens que, eventualmente, as separarão. O isolamento, aliás, surge no espetáculo como o resultado natural da convivência humana prolongada, a partir do momento em que se retiram algumas camadas de verniz de civilização.