AGORA \ Crítica Teatral
LÍNGUA MÃE MAMELOSCHN
Michele Rolim (RS), de Porto Alegre, 04/10/2015
Diretora Mirah Laline recorre à emoção para investigar cicatrizes da ideologia
Ida Celina, Mirna Spritzer e Valquíria Cardoso interpretam três gerações de uma família judia

Ausência que ainda reverbera

Mirah Laline, depois do trabalho premiado O Feio (2012), do dramaturgo alemão Marius Von Mayenburg, volta a cena com uma encenação menos baseada no trabalho físico, agora com ênfase nos atores e nas emoções. O espetáculo Língua Mãe –Mameloschn vai além das consequências diretas do Holocausto e apresenta a submissão do sujeito à ideologia e como isso reverbera nas relações familiares. O texto também vem da Alemanha, criação da dramaturga (nascida na Rússia) Marianna Salzmann, de apenas 30 anos de idade.

Em cena estão três gerações de mulheres judias radicadas na antiga Alemanha Oriental: Lin (interpretada por Ida Celina), sua filha Clara (Mirna Spritzer) e sua neta Raquel (Valquiria Cardoso). A personagem de Ida é inspirada na vida de Lin Jaldati, cantora holandesa de música iídiche (língua falada pelos judeus do Leste Europeu), comunista e sobrevivente dos campos de concentração nazistas. A personagem foi socialista de carteirinha, e o peso de sua ideologia e de sua ausência como mãe foi carga demais para sua filha.

Clara, personagem que rendeu o prêmio de Melhor Atriz do Prêmio Braskem Em Cena 2015 para Mirna, acaba por renegar sua origem e cultura judias. Sua atitude de negação é tal que não é certo dizer que ela não tem ideologia – na verdade, sua ideologia é a não-ideologia. Já Raquel busca se encontrar. Para ser o que deseja e não o que a família espera, decide deixar para trás o núcleo familiar absolutamente ideologizado e rumar para os Estados Unidos, onde imagina encontrará liberdade para assumir suas próprias escolhas, inclusive de orientação sexual.

O que conduz toda a trama é a “ausência presente” de Davi. Gêmeo de Raquel, ele foi o primeiro dos irmãos a alçar voo. Seu destino foi Israel, onde vive em um kibutz (uma modalidade de fazenda comunitária, que busca o sustento da terra e condições iguais para as famílias judias). Único personagem masculino do enredo, ele representa o fantasma do presente que não deixa esquecer o passado. Sua ausência, mais do que a presença, acaba por forçar as três mulheres a encararem seus fantasmas.

Apesar de o texto original não prever a figura de Davi no elenco, a direção de Mirah Laline, da Ato Cia. Cênica, optou por colocar em cena o personagem, materializado pelo ator Philipe Philippsen (que toca acordeão durante a montagem). Davi é uma figura quase espectral, que transita pelo palco sem falas, incomoda e parece deslocado da encenação.  Seria ele a representação do deslocamento das ideologias no mundo de hoje? Devemos aprender a conviver com a ausência presente das ideologias?

Podemos perceber uma carga afetiva nos objetos que estão em cena, sejam as cartas que Clara guarda do irmão, ou os jornais que tantas vezes servem de elo de comunicação entre Lin e Clara. A encenação nos leva ainda a outras questões: como lidar com o não pertencimento? É possível construir uma nova identidade? Como e quando abandonar nossas ideologias? O texto não responde, mas deixa claro o rastro de destruição causado pelas fortes embates ideológicos que caracterizaram o século XX ao expor os dilemas e tormentos daqueles que sofreram e sofrem as consequências delas de forma indireta, mas nem por isso, menos importante.