AGORA \ Crítica Teatral
A VIDA DELE
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 30/09/2015
Grupo gaúcho In.Co.Mo.De-te conclui Trilogia Auster com linguagem consolidada
Personagens de Nelson Diniz, Liane Venturella e Carlos Ramiro Fensterseifer são inspirados nos filmes policiais dos anos 50

A um nariz da perfeição

Afirmar que A Vida Dele é um espetáculo divertido, bem dirigido, com ótimos atores, cenografia e luz indissociáveis, trilha sonora de Alvaro RosaCosta que se integra aos outros elementos de encenação com perfeição e que merece alguns reparos na dramaturgia resume o comentário que segue abaixo. Mas o novo espetáculo da In.Co.Mo.De-te não cabe nessa frase – tão ou mais importante é a consolidação de uma estética de grupo, a tão perseguida assinatura.

Uma parte da unidade criativa do grupo gaúcho vem da escolha dos textos dramáticos. A Vida Dele (2014) sucede O Gordo e o Magro Vão para o Céu (2008) e DentroFora (2009), todos inspirados na obra de Paul Auster. O coletivo está à vontade mesmo nas mazelas de Auster, com talento de sobra para lidar com a densidade que se esconde nos pequenos lugares onde o escritor americano situa seus personagens.

Outra parte vem do fato de praticamente todos os membros do grupo serem também diretores, o que permite um revezamento revigorante. Em DentroFora, Carlos Ramiro Fensterseifer dirigia Nelson Diniz e Liane Venturella. Em O Gordo e o Magro, Diniz e Liane dirigiram Fensterseifer e Heinz Limaverde. Em A Vida Dele, Ramiro Silveira dirige Fensterseifer, Diniz e Liane.

Ramiro Silveira, desta vez, propõe a encenação mais bem-humorada da chamada Trilogia Auster, inspirando-se na estética sombria dos filmes policiais da década de 1950, mas impondo trejeitos, piadas de repetição, usando ganchos que estendem coisas para dentro do palco como nos números de vaudeville. E colocando próteses de narizes enormes no elenco, aludindo ao ofício de quem é xereta.

Na maior parte do tempo, estão em cena Verde (Liane Venturella) e Preto (Nelson Diniz). Há uma evidente relação de subordinação do primeiro para o segundo – Preto é o cara, autossuficiente e experiente, mas que nada questiona e se propõe uma vida asceta. Verde está próximo de um bufão – a início submisso, vai subvertendo a autoridade do Preto porque inconsciente e teimosamente está em busca de prazer (seja este comida, sair para um espaço aberto, ter o direito de pegar o cheque de pagamento). À dupla de detetives desajeitados cabe ficar de olho no Azul (Carlos Ramiro Fensterseifer), um homem que aparentemente nada faz a não ser sapatear e batucar a máquina de escrever (nem lixo decente o sujeito rende).

A questão essencial fica clara em uma cena que certamente ajudou Cláudia de Bem a vencer o Prêmio Braskem 2015 na categoria Destaque, pelo desenho de luz e pela cenografia de A Vida Dele. Azul, Verde e Preto ficam saltitando pelo palco na tentativa de se posicionarem sobre focos de luz com suas cores. Os focos se multiplicam, mudam de cor provocando um sapateado inútil e insano, representação em luz e movimento da luta que a humanidade trava para encontrar seu lugar no mundo.

Com duração de justos 48 minutos, A Vida Dele é uma coleção de qualidades que a dramaturgia não acompanha. A paulista Michelle Ferreira combinou elementos de Fantasmas e Blecautes para criar um texto ágil, mas com final precipitado. A libertação do Verde seria o grand finale da história, mas a redenção é dada com um texto à beira do palco, numa solenidade irreconhecível no personagem. A também rebelião do Azul se dá sem maiores traumas ou conquistas.

Mas o que fica está longe de incomodar: brigas de gato preto com rato verde, rolinhos engraçadíssimos quando os atores saem de cena, a voz valendo como sonoplastia, brincadeiras com o público, como quando as cortinas se fecham num falso final. O encerramento da Trilogia Auster traz um desafio para o In.Co.Mo.De-te: onde encontrar um autor que se afine tão bem com o grupo?
 

 

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