AGORA \ Crítica Teatral
AS QUATRO DIREÇÕES DO CÉU
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 30/09/2015
Camilo de Lélis retoma fôlego criativo e vence Braskem de melhor espetáculo e de melhor direção
Renata de Lélis e Tiago Contte interpretam personagens sem propósitos de vida em "As Quatro Direções do Céu"

Encenação desaloja público do conforto

As Quatro Direções do Céu guiou Camilo de Lélis no caminho de volta a sua fase mais criativa e provocadora. Consagrado por montagens como Macário, o Afortunado (1991), O Estranho Sr. Paulo (1996) e A Bota e a sua Meia (1997), o diretor gaúcho venceu as categorias Melhor Direção e Melhor Espetáculo do Prêmio Braskem entregue durante o 22º Porto Alegre Em Cena.

Entre os espetáculos citados acima, além da assinatura artística do encenador, há em comum que os textos são escritos por dramaturgos alemães – B. Traven (Macário), Tankred Dorst (Sr. Paulo), Herbert Achternbusch (A Bota) e Roland Schimmelpfennig (As Quatro Direções). Além disso, os personagens estão desafiados  a encontrar um sentido para vida – ou, ao menos, para seguir vivendo.

As Quatro Direções … multiplica esse dilema por quatro: a garçonete que acredita ter cabelos que crescem para dentro da cabeça; o homem que ganha a vida modelando animais nos balões que infla; o caminhoneiro que decide trocar a boleia pelo crime e ainda uma cartomante que observa impotente o destino se realizar. Como cada um de nós, os infelizes anti-heróis de As Quatro Direções do Céu lutam para criar suas próprias narrativas da vida – nada de muito épico ou extraordinário, mas o suficiente para que consigamos seguir em frente. E é nesse ponto que se iniciam e se concluem a dramaturgia de Schimmelpfennig e a direção de Camilo.

O texto dramático coloca o quarteto a contar suas trajetórias aos fragmentos, embaralhando os depoimentos, revolvendo as narrativas em um vórtex, materializando nossa incapacidade de formular um discurso completo e, ufa!, pacificador. Os personagens e suas frases estão sempre aos pedaços, indo e vindo, revezando-se como protagonistas uns dos outros mas incapazes de definir suas próprias histórias. Indeciso frente às quatro direções do céu, o vento da História muda a todo momento de orientação.

A encenação preserva o texto original praticamente na totalidade, e busca inspiração no potencial de mudança que se percebe em um caleidoscópio, em uma rosa dos ventos, em uma encruzilhada. No palco do Teatro do Goethe-Institut, sobre um pano de picadeiro encardido, foram distribuídos cubos com arestas de um metro reunindo latas de alumínio recicladas. Pelo chão, mais latas amassadas que funcionam como sonoplastia quando os atores pisam nelas. Também é possível identificar dois mastros de sustentação de lonas de circos e fios com lampadinhas que lembram o clima de quermesses e circos das cidades do Interior. O ótimo cenário de Felipe Helfer coloca o conflito em cena, opondo a dureza e a descartabilidade dos cubos ao clima ingênuo e inconsequente de um parque de diversões.

Camilo identifica que seus quatro personagens são desterrados, estrangeiros em busca de asilo, gente que queimou os navios e não tem mais como voltar. O homem grande (Tiago Contte), por exemplo, largou seu caminhão. O pequeno (Diogo Cardoso) abandonou seu emprego e refez sua vida enchendo balões. A garçonete (Renata de Lélis) parece não pertencer a lugar algum, e a cartomante Oiseau (Maira Holzbach) sai de cena embarcando no trem que a trouxe para a cidade. Para marcar ainda mais a desterritorialização, a direção faz com que cada um use sotaques regionais brasileiros bem marcados (recurso que Camilo já usou em A Bota e a sua Meia). O estranhamento das narrativas é potencializado ainda quando os atores interrompem as histórias para dizer as rubricas (anotações usadas nos roteiros de teatro e de cinema para indicarem gestos e deslocamentos dos personagens).

A grande cartada de direção é o vaivém imposto ao público. A organização truncada e em espiral do texto distancia emocionalmente o espectador, e estabelece uma interface fria e psicologicamente complexa que caracteriza os textos alemães, mas Camilo intercala trechos da trilha sonora composta por Antonio Villeroy que pontuam com empatia e emoção as cenas. Assim correm os 80 minutos de ação: a objetividade da narrativa entremeada pelo acalanto da canção. Cabe observar: o fato de as canções terem letra muita vezes aporta um discurso que concorre com as falas dos atores. Talvez fosse melhor privilegiar temas instrumentais, guardando as versões com letra para oportunidades em que realmente sejam indispensáveis.

O esforço por desalojar o espectador do conforto de uma narrativa tradicional também é perceptível quando se inserem cenas com registros de interpretação farsescos ou quando se iludie a plateia com um final falso. É de se registrar a qualidade da iluminação criada por Fernando Ochôa, que enfatiza a fragmentação das vidas e das cenas. Há espaço até para uma manobra inesquecível: a cigana, como por mágica, surge de repente como a que uns 20 metros da plateia (na verdade, Ochôa ilumina a personagem no fundo do camarim que fica no fundo do palco... ).

Diogo Cardoso, Tiago Contte e Renata de Lélis atuam em nível de excelência, que Maira Holzbach não acompanha até porque um desequilíbrio da dramaturgia faz com que a cartomante seja o mais fraco dos quatro polos da trama, marcado pela passividade. Se a garçonete seduz, se o ex-caminhoneiro mata, se o artista de rua sopra volumes na forma de porcos e sapos, a cartomante só prevê e se desespera.

Ao final, depois que a besta do destino abateu inapelavelmente os personagens e suas pretensões, é importante guardar a passagem mais transformadora de As Quatro Direções do Céu, aquela em que o artista de rua defende que todos têm algo a vender (ou criar, se preferirmos um vocabulário menos capitalista), mesmo que seja o ar dos balões. Acreditemos: não somos descartáveis como latas de alumínio, a roda gigante ora nos põe embaixo, ora nos eleva, por alguns instantes podemos ser senhores do vento, mesmo que este esteja confinado nos limites de um inocente balão de criança.

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