AGORA \ Crítica Teatral
P-U-N-C-H
Michele Rolim (RS), de Porto Alegre, 30/09/2015
Ópera do gaúcho Christian Benvenuti aborda o Holocausto com elementos de performance e com provocações estéticas
Elenco de "P-U-N-C-H" leva para a cena elementos de dança, de teatro e de performance

Golpe radical na intolerância

O genocídio promovido por Hitler e seus seguidores é um tema bastante explorado pelo cinema, pela literatura e pelo teatro. A ópera P-u-n-c-h, no entanto, leva ao palco uma parceria dos nazistas ainda pouco conhecida: a (ir)responsabilidade corporativa da empresa IBM, que colocou sua tecnologia de classificação de dados a serviço do Terceiro Reich.

P-u-n-c-h destaca-se por sua ousadia e contemporaneidade. O gênero ópera já se caracteriza como uma criação interdisciplinar, mas a montagem, que tem direção geral, música e concepção assinadas pelo porto-alegrense Christian Benvenuti, amplia o conceito ao propor inovações como a utilização da performance, além de provocações estéticas como o uso de uma guitarra em cena. A direção cênica é de Alexandre Vargas, cofundador do grupo Falos & Stercus e coordenador e curador do Festival Internacional de Teatro de Rua de Porto Alegre.

O eixo principal é o livro IBM and the Holocaust (2001), do jornalista e ativista de direitos humanos Edwin Black. Publicado em mais de 40 países, IBM and the Holocaust revela que a colaboração entre a empresa americana e o regime hitlerista iniciou-se nos anos 1930 e se estendeu até a II Grande Guerra, com o fornecimento de equipamentos e de know how que seriam utilizados na perseguição, prisão e extermínio de milhões de judeus, ciganos, homossexuais, prisioneiros políticos e tantos quantos o nazismo considerasse entraves para a afirmação de uma raça superior. Na construção do espetáculo, foram aproveitadas canções, poesias e cartas escritas em guetos e campos de concentração, assim como documentários e discursos de chefes de Estado realizados durante a II Guerra Mundial.

P-u-n-c-h está organizada em três atos: A corporação, O gueto e O campo, explorando três significados em inglês da palavra “punch”: “inserir informação ao pressionar um botão ou perfurar um cartão”, “conduzir gado, empurrando-o com uma vara” e “golpear com o punho”. Quem não sabe de antemão sobre o que trata a ópera tem dificuldade em compreendê-la na sua totalidade, embora talvez seja essa a intenção da encenação: convidar o público a acompanhar a narrativa através de imagens potentes, explorando outras formas de a palavra alcançar o espectador, como quando projeta textos em uma tela no fundo do palco. Em relação a música, temos quatro solistas nas laterais de cena e a orquestra ao centro que executam de forma precisa as canções sob a batuta de Benvenuti.

Quando trechos de textos são ditos no palco fica visível que não há homogeneidade no elenco e muitas das interpretações não são eficientes.  O que é compreensível dadas as dimensões de um projeto que envolve 70 pessoas direta e indiretamente, entre atores, bailarinos, músicos e coralistas, que se distribuem pelo palco pelas coxias do Teatro Renascença, em Porto Alegre.  Porém, se a interpretação não é de todo satisfatória, P-u-n-c-h encontra na performatividade dos corpos em cena a sua redenção. As coreografias assinadas por Silvia Wolff deixam evidente que há uma busca individual e, ao mesmo tempo, coletiva em cada gesto. Cada gesto e deslocamento é muito bem desenhado.

Um dos pontos altos da montagem é quando alguém do elenco tem seu cabelo raspado em cena, repetindo um ato que servia para descaracterizar a identidade dos prisioneiros nos campos de concentração. É quando a ficção e a não-ficção se justapõem, emprestando radicalidade à encenação e introduzindo elementos de performance à cena. Outro destaque é quando os cantores e o próprio regente (Benvenuti) avançam para a cena e extrapolam sua condição de instrumentistas, dão falas, agregando novamente traços performativos à montagem.

A conclusão dos 100 minutos de função tem impacto proporcional à ambição do espetáculo: corpos nus e desamparados  assomam à frente do palco e encaram o público como se esperando pela morte, vulneráveis a toda violência. Talvez P-u-n-c-h  funcionasse melhor se contasse com um elenco mais experimente, mas podemos afirmar que a montagem quebrou paradigmas no Estado. O pioneirismo é uma tarefa difícil.

 

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