AGORA \ Crítica Teatral
VERTIGENS
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 25/09/2015
Circo Girassol investiga recursos dramáticos da mistura entre teatro, dança e artes circenses
Montagem com direção de Dilmar Messias e coreografias de Simone Rorato se vale de elásticos e de rapel

"Vertigens" em busca de equilíbrio

O Núcleo de Aéreos do Circo Girassol trabalhou dois anos na preparação do espetáculo Vertigens, uma das atrações do 22º Porto Alegre Em Cena, com direção artística de Dilmar Messias. Entre as intenções do grupo gaúcho estava “descontextualizar a técnica do tecido aéreo, das cordas de rapel e dos elásticos, numa transposição de linguagens para a cena teatral”. Ou seja, ir além da exibição de virtuosismo nos aparelhos, explorando o potencial dramático que possuem equipamentos e técnicas normalmente associadas ao ambiente circense.

Após 50 minutos de Vertigens, somos brindados com uma sensação de divisão. Felizmente, a maior parte corresponde ao reconhecimento de um espetáculo visualmente muito bem-acabado, em que iluminação e trilha sonora valorizam a cena, povoado de coreografias sensíveis, onde movimentos são executados, se não com virtuose, com competência e entrega. Uma montagem com momentos em que se vislumbram os potenciais dramáticos dos artistas e de suas cordas de rapel, elásticos e tecidos. Mas, também: a dramaturgia merece reparos, o uso da palavra soa como uma interferência descartável, há signos em cena que são desnecessários.

Qualidades e carências não se distribuem equanimemente pelos dois atos de Vertigens. O primeiro, que equivale à terça parte do total do espetáculo, é dedicado a uma das principais personagens criadas por Shakespeare, Lady Macbeth (Débora Rodrigues, também responsável pela concepção da montagem). Não é então que a exploração do Circo Girassol logra êxito: panos vermelhos são espalhado pelo palco, numa remissão previsível à trajetória sanguinolenta da ambiciosa rainha, enquanto as falas acabam se perdendo sob a trilha sonora (que, apesar dessa interferência, é um dos elementos fortes da encenação). Uma cena se destaca: quando Lady Macbeth, corpo praticamente todo coberto por um tecido púrpura, tenta se olhar no espelho e não consegue. Aquela que clama aos céus para deixar de ser mulher e assim tornar-se mais impiedosa e competente na consecução dos seus planos, aquela lady não consegue se ver refletida – sua identidade escorreu no banho de sangue que ela mesma incitou. Mas o tom geral do primeiro ato é de frustração narrativa e de aproveitamento tímido dos recursos aéreos.

No segundo ato, Vertigens atinge o equilíbrio, envolve o espectador, afirma-se em suas explorações. O acúmulo de imagens e movimentos nos sugere que vamos acompanhar o grande revival de uma mulher, a revisitação de sua vida, de seus amores e desamores, de aproximações e rupturas, de suas quedas e seus voos. Isso é colocado claramente quando uma mulher mais madura (Simone Rorato, coreógrafa de Vertigens) empunha um espelho e o exibe em vários momentos àquela que seria sua versão jovem. Outro signo que nos inclina para essa leitura surge quando essa mulher madura estende cordas puídas pela plateia e pelo palco – na juventude, cabos e tecidos colocam os personagens nas alturas; na velhice, quando se avalia se o plano de voo de uma vida inteira foi bem-sucedido, restam amarras quase sem possibilidade de uso.

O maior predicado do segundo ato é apostar na capacidade narrativa do espectador. Na medida em que desfila imagens fortes, e convida o público a combiná-las sem a muleta da palavra e a sugestão mais explicita de trama, o espetáculo revigora. Não é difícil enumerar momentos em que o Circo Girassol acerta a mão: quando o casal está apaixonado, os elásticos que prendem a um e a outro vão se enrolando, antecipando um inevitável encontro; ou quando a mulher se projeta na ambição de alcançar seu amante, mas é contida pelo elástico; ou quando os casais traduzem em movimento os vários equilíbrios possíveis numa relação, ora subindo aos ombros do outro, ora servindo de chão para que o outro ande por cima. Até mesmo a parede ao fundo do palco serve de base para evoluções em rapel, provando que o amor e suas travessuras podem se dar na horizontal e na vertical. Numa imagem sutil, o casal só atinge as maiores alturas quando os dois estão de mãos dadas, afinados, in love.

Necessário apontar que, além dos problemas estruturais da dramaturgia e o eventual desnível de volumes entre trilha e falas no primeiro ato, aqui e ali era possível verificar-se falhas de marcação, o que talvez possa ser creditado aos atropelos próprios de um festival. Outra questão é o desafio nem sempre bem-sucedido de os bailarinos darem falas dramáticas. O uso insistente da ampulheta para materializar em cena a passagem do tempo também poderia ser dispensado, já que as cordas e o espelho já dão conta dessa tarefa narrativa.

Talvez se pudesse valorizar uma imagem deixada um pouco de lado: os calçados espalhados aleatória e descuidadamente pelo palco. Evitando a associação mais óbvia de que defuntos não usam calçados, esses objetos poderiam reforçar a ideia de que devemos, todos, às vezes, descalçarmo-nos. Seja em cena, suspenso por elásticos, cabos e tecidos; seja na vida, ao alçarmos voo fora da nossa zona de segurança, de quando em vez é bom perder o chão.

 

 

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