AGORA \ Crítica Teatral
UM DIA ASSASSINARAM MINHA MEMÓRIA
Michele Rolim (RS), de Porto Alegre, 25/09/2015
Espetáculode Decio Antunes e Carlota Albuquerque propõe deslocamento do público pelo Museu Júlio de Castilhos
Movimentos e falas fragmentados de bailarinas e atrizes (na foto, Ângela Spiazzi) evocam a memória pessoal do público

O outro é quem reflete nossa memória

Ao embarcarmos em Um dia Assassinaram minha Memória, com direção geral de Decio Antunes (de Jogodecena Companhia Teatral) e Carlota Albuquerque (da Terpsí Teatro de Dança), somos conduzidos ao limiar do sonho. Nossas próprias memórias são ativadas a partir de fragmentos de imagens e de textos a que seremos expostos ao longo de 60 minutos de jornada.

Na primeira cena, somos recebidos pela atriz Kaya Rodrigues que convida o público a adentrar o Museu Júlio de Castilhos, atualmente com várias salas vazias em razão de reforma. “Venham, não tenham medo”, afirma ela. Assim como Alice atravessou um espelho para conhecer o estranho país das maravilhas, a plateia cruza uma grande moldura instalada no hall principal do museu para mergulhar no mundo de Um Dia Assassinaram minha Memória. O fato de transpormos uma moldura sem espelho sugere que existimos a partir da memória do outro - é o outro que nos vê, e não nós mesmos. É nisto que reside a essência do espetáculo: a memória individual existe a partir da memória coletiva.

Um Dia Assassinaram minha Memória, vencedor em seis categorias no Prêmio Açorianos 2014, entre elas a de melhor espetáculo e a de melhor direção, é bem sucedido em quase todos os aspectos. O principal deles é o ambiente cênico onde ocorre. O museu, considerado o mais antigo no Rio Grande do Sul, foi moradia de Júlio de Castilhos – que governou o Estado por duas vezes. Nada melhor do que evocar e falar da memória em um lugar que a guarda há mais de um século. Portanto, o local atua como discurso do espetáculo, ou seja, a carga semântica do espaço se insinua entre as lacunas da encenação.

O elenco formado exclusivamente por mulheres – Angela Spiazzi, Lurdes Eloy, Naiara Harry, Renata Stein, além de Kaya – interpreta e coreografa textos livremente inspirados em obras de autores de diversas épocas, como Sófocles, Eurípedes, Simone de Beauvoir, Sylvia Plath, o Sartre de As Troianas, Samuel Beckett, Marguerite Yourcenar, Heiner Muller, Nelson Rodrigues, Herta Müller, além de recordações do diretor Decio Antunes, que assina como autor do espetáculo. Os temas discorrem sobre violência, solidão, finitude, infância e partidas.

A maioria das cenas se passam em um salão, onde um grupo de cerca de 15 espectadores se acomoda em cadeiras junto a uma das paredes. É quando o espetáculo perde um pouco da sua potencialidade.  Este arranjo espacial impõe ao público uma visão frontal, limitando o jogo entre atores e espectadores em uma encenação que se destaca pelo seu sentido radicalmente espacial. O ideal seria o público ter liberdade para ocupar o espaço e a ele pertencer, como tão bem faz o elenco e como tão bem já fez Decio Antunes no espetáculo A Casa (2007).

Assim como a memória, o espetáculo se apresenta fragmentado e não segue uma linearidade. Os textos buscam ressonância junto ao público através de imagens sugeridas por palavras, gestos e objetos. Entre os elementos cênicos importantes estão os livros, que transportam o espectador para outras memórias; balões e lanternas, que lembram as brincadeiras da infância; malas, que simbolizam transitoriedade, partidas e chegadas; além dos figurinos (assinados por Daniel Lion) e as molduras já mencionadas. Vale destacar as cenas que ocorrem nos corredores do Museu, como aquela protagonizada por Angela Spiazzi e Kaya Rodrigues, em que esta se apoia nas costas da outra para produzir uma sequência de imagens potentes.

Quando a Alice de Lewis Carroll atravessa o espelho ou cai no buraco, ela acessa seu inconsciente em busca de sua identidade. Por conta do cheiro, dos personagens fantasmagóricos, da penumbra (luz de Gruto Greca) e do silêncio preenchido com sons específicos (Ricardo Pavão), quando o público de Um Dia Assassinaram minha Memória ingressa no museu, ele imerge em outro tempo e em outra atmosfera. Assim como Alice cria seu próprio mundo, Decio Antunes e Carlota Albuquerque constroem um ambiente em que cada espectador se permite ativar suas lembranças a partir das memórias do outro.

 

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