AGORA \ Crítica Teatral
BUNDAFLOR, BUNDAMOR
Renato Mendonça (RS), de Porto Alegre, 24/09/2015
Eduardo Severino Cia de Dança usa muito humor e pouca roupa para discutir papel das nádegas na cultura brasileira
"Bundaflor, Bundamor" prega democratização daquela que é considerada por alguns como a preferência nacional

Resultado ficou atrás da intenção

A bunda é nossa. É a preferência nacional. É o tipo de coisa que não se pode deixar pra trás. Quase onipresente, está fritando ao sol nas praias, rebolando libertária nas avenidas do samba, turbinada com botox na promessa de ostentação. Tem até a sua miss. Algumas das piores ofensas em português referem-se ao derrière (bundão e cu de ferro, por exemplo). Que tema maravilhoso para um espetáculo. Imaginem discutir o traseiro por vários ângulos, investigar sua importância na fantasia erótica, as diferentes gradações de permissividade e controle social que a traseiro sinaliza quando dá o ar de sua graça.

Com essa proposta, a primeira montagem de Bundaflor, Bundamor estreou em Porto Alegre há sete anos. Na versão mostrada durante o 22º Porto Alegre Em Cena, os integrantes originais Eduardo Severino, Mônica Dantas e Luciano Tavares ganharam a companhia de Ana Paula Reis, Alceu Júnior Grandi e Andrew Tassinari, mas o espetáculo perdeu força.

Na montagem de 2008, o diretor Eduardo Severino investia sabiamente no humor. Colocava algo como um diabo para costurar as cenas, e propunha momentos muito interessantes como a coreografia em que se imitava a afetação empinada das modelos flanando nas passarelas. Outra imagem de impacto era o rebolar para o samba Não me Diga Adeus, que unia pelo ritmo os busanfãs masculino e feminino. Nesse momento, Bundaflor, Bundamor alcançava sua maior potência na medida em que subvertia a imposição de que só as nádegas femininas devem ser associadas ao sensual, quando democraticamente afirmava que nossos glúteos não têm dono, quando afirmava a bunda como o cartão de visita de uma energia libertadora e democrática.

Na remontagem, a Eduardo Severino Companhia de Dança constrói duas cenas realmente relevantes, justamente a primeira e a última do espetáculo de 40 minutos. No início de BB, cinco bailarinos estão encostados de frente na parede ao fundo do palco. A um sinal de apito, passam a exibir seus bumbuns, e lentamente viram o rosto, um de cada vez. Propositadamente, a cena se estende no tempo, forçando o espectador a dar a largada nas provocações principais: bundas masculinas e femininas – qual a diferença?

Depois do bom começo, os problemas se iniciam. Uma divertida corrida arrastando a bunda no chão dá a vitória a Mônica. Em seguida, ela saboreia languidamente uma banana, ao olhar indecifrável dos bailarinos. Seu salto alto é a única coisa que ecoa no palco. Impossível não deduzir que a ação vai tomar por eixo a relação entre homens e mulheres. Não é o que ocorre. A presença de Ana Paula Reis, que é mulata, também aponta para uma crítica mais localizada sobre a exploração erótica da outrora chamada "cabrocha". Também não é por aí. Seguem-se movimentos muitas vezes de questionamento visual aos espectadores, mas que nada somam ao desenvolvimento da montagem.  A paródia do desfile de modas reaparece, mas agora perdida dentro do todo.

Propor um espetáculo em que bundas estão à vista praticamente todo o tempo, questionando limiares de tolerância do público e as fronteiras do que pode ser tachado de pornográfico, garante vários pontos no quesito provocação estética e comportamental. Lamentavelmente, Bundaflor, Bundamor para por aí. Há alguns bons momentos de Severino e Tavares, mas faltam coreografias mais elaboradas e uma concepção que unifique movimentos, intenções e glúteos.

A cena final, entretanto, resgata aquele impacto inicial. Novamente encostados de frente na parede do fundo do palco, desta vez os bailarinos não têm seus rostos iluminados. Como a gritar: “Bunda é bunda, não importa o rosto, não importa o sexo!”, os spots só focalizam seus traseiros. Na última – e ótima – piada, o elenco contrai e relaxa as nádegas como se a bundaflor pulsasse, como se a bundamor fosse um coração. Está tudo lá: o forévis é um ser vivo. Quer ser livre. Talvez sejam os tais países baixos a terra natal dos nossos sentimentos.

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