AGORA \ Crítica Teatral
BUKOWSKI – HISTÓRIAS DA VIDA SUBTERRÂNEA
Michele Rolim (RS), de Porto Alegre, 23/09/2015
Novo trabalho do Depósito de Teatro mergulha no universo do “velho safado”
Roberto Oliveira estrela e dirige montagem que combina vida e obra de Charles Bukowski

Bukowski a partir das mulheres

A primeira cena do espetáculo Bukowski – Histórias da Vida Subterrânea antecipa o que encontraremos ao viajar pela vida e obra daquele que é considerado o último escritor maldito da literatura norte-americana: um exagero de álcool, cigarros, palavrões e sexo, uma máquina de escrever e um punhado de personagens autodestrutivos e passionais. Tudo isso em meio a centenas de garrafas espalhadas pelo palco e entre o público do Teatro de Arena de Porto Alegre.

Charles Bukowski (1920-1994) nasceu na Alemanha e se radicou nos Estados Unidos, vertendo poemas, contos e romances críticos em relação à cultura do sonho norte-americano e às boas maneiras. São dele frases absolutamente lúcidas e impiedosas como "De algum modo, sentia que estava ficando meio maluco. Mas sempre me sentia assim. De qualquer forma, a insanidade é relativa. Quem estabelece a norma?"

A dramaturgia do novo espetáculo do grupo gaúcho Depósito de Teatro, assinada por Roberto Oliveira (que também é o responsável pela direção e interpreta o poeta), foi construída de forma fragmentada, não-linear, enfatizando episódios na vida do escritor a partir de obras como Mulheres, Misto Quente e Cartas na Rua. Mostra, por exemplo, o trabalho de Bukowski nos correios de Los Angeles, seus atritos com o pai violento, as palestras que realizava em universidades e sua amizade com Jimmy (interpretado por Marcelo Johann).

Mas o ponto alto é a relação que Bukowski estabelece com as mulheres. Nos 80 minutos de peça estão presentes os grandes amores do autor: Jane (interpretada por Pitti Sgarbi), sua primeira mulher, 10 anos mais velha que Bukowski; Linda King (chamada na peça de Lidia e interpretada por Elisa Heidrich), escultora que preparava um busto de Bukowski e que lhe ensinou, aos 50 anos, a praticar sexo oral; e Pamela (Tami na peça, interpretada por Aline Armani Picetti), uma mulher jovem, que não dá muita bola para o escritor. Há, ainda, Giorgia (antes interpretada por Francine Kliemann e durante o Porto Alegre Em Cena, por Cris Eifer), referência forte para Bukowski, principalmente quando ele estava deprimido.

Pitti Sgarbi garante para Jane a condição de protagonista entre as mulheres, construindo a personagem mais completa da trama. Na primeira cena, já brinda o público com uma passagem memorável: limpa a vagina com cerveja, deixando em evidência a decadência dos personagens que habitam aquele universo. Aline Armani Picetti também protagoniza um dos grandes diálogos da peça, quando Pamela tenta vencer o efeito de tranquilizantes para aprontar uma mala para viagem.

Roberto Oliveira constrói um Bukowski convincente, alternando-se em um registro naturalista, que ganha força quando seu personagem divide a cena com suas mulheres, e um tom mais empostado e forçado, quando dá voz aos poemas.   

Bukowski – Histórias da Vida Subterrânea chama a atenção por estabelecer uma empatia muito forte com o público, rendendo lotações esgotadas e sessões extras. O espetáculo capta a essência do “velho safado”, se faz pela sucessão de potentes momentos, mas a energia se perde no decorrer da trama ao propor uma organização que dê conta da biografia do autor. Às vezes é como se surgissem apostos na encenação, truncando o ritmo do espetáculo.

Assim como a literatura e a vida do escritor eram fragmentadas e desorganizadas, para que o espectador capte a essência do autor é preciso que o caos do começo se mantenha ao longo da narrativa, e isso não significa uma dramaturgia que não conte histórias, mas que assuma esse caráter de desordem. Bukowsky está lá o tempo inteiro, mas nem sempre aparece.

Pitti Sgarbi interpreta Jane, uma das muitas mulheres de Bukowski

 

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