AGORA \ Crítica Teatral
ATTENDS, ATTENDS, ATTENDS...
Ruy Filho (SP), em Porto Alegre, 16/09/2015
Cédric Charron dança para se despedir do pai
Fumaça e corpo de Charron materializam liberdade executando duetos em cena

A libertária morte de um pai

A figura do pai é parte fundamental ao homem. Seja por seu espelhamento, seja por sua negação. Isso, a psicanálise, filosofia, antropologia e mitologia já nos explicaram exaustivamente. O difícil, então, é irmos além da sua presença, já que ao filho insiste-lhe a sobra dessa condição. É no instante em que o homem supera sua referência paterna que também se reconhece indivíduo e individual. E sua história começa a partir dele mesmo, e não mais de alguém. Para marcar essa transição profunda, e menos um acontecimento, é que Cédric Charron, em espetáculo solo criado para ele por Jan Fabre, elabora sua despedida ao pai morto, a busca por marcar seu novo início.

Attends, Attends, Attends... (Pour mon Père) não é outro espetáculo melancólico ou saudosista das relações que permeiam o tema. O performer representa o barqueiro que ajudará o pai na travessia para a morte. E nessa função, olhando aquele que se foi, encontra e descobre muito de si mesmo. A fala poética foge do lírico oportuno e se lança como artifício ao devaneio. A diferença entre tais possibilidades é a construção de uma fala que aparenta liberdade ao imaginário e às lembranças, ainda que, obviamente, planejada e calculada. Deve-se a isso à capacidade de o intérprete lidar com a palavra como sonoridades, impedindo os instantes de fala e não-dança de se tornarem meras interpretações teatralizadas. O poético, portanto, existe ao seu modo, e o lirismo permanece na combinação da circunstância e não naquilo que é dito, provocando nos intermédios que precedem cada coreografia uma espécie de prólogo simbólico nunca descritivo.

Ângulos diversos de leituras do pai e seu relacionamento vão acumulando-se sem a tentativa de desenhar em exagero, o que o tornaria uma figura específica. Assim, o pai morto é também qualquer um, ou a própria necessidade do homem contemporâneo de se livrar das origens e passar a construir outras possibilidades a si mesmo. A história, o passado, o acontecido, o vivido como o pai impositivo ao amanhã.

Há dubiedade a todo instante. E o que resolve aquilo que a palavra propositadamente provoca - a sensação de contradição - é a própria dança, na qual o gestual repetido ressignifica sua leitura original ao tempo. O homem que dança, o barqueiro-filho, em seu traje vermelho forte infernal e longo bastão de condução do barco, necessita da partida e ausência do pai. E isso não é simples. Por isso, a dança, o corpo, o Eu, faz-se discurso melhor do que as palavras, e, de tempos em tempos, necessita substituí-las. Como se as lembranças e sensações em algum momento não fossem mais possíveis de serem ditas e precisassem ser sentidas, trazidas ao corpo.

Jan Fabre cria na encenação uma ambiência onírica à presença do corpo utilizando-se da fumaça e da iluminação. Ambos os efeitos narram as transformações do homem de barqueiro à filho. E vão além. Surpreendem pela capacidade da fumaça, sobretudo, elemento limitado de recursos, igualmente bailar pelo espaço cênico, ora presa ao chão, ora controlada para subir e esvaziar na nota musical certa, na mudança de luz precisa. A fumaça, elemento vivo, então, dialoga em dueto com o corpo, feito o pai etéreo em eterna despedida.

Ao estabelecer o onírico como ambiência, Jan Fabre faz do homem a manifestação do sublime. Enquanto o pai morre, o filho surge. E o sublime, nessa dicotomia, é o próprio ser como latência poética desejante. Não à toa, nos instantes em que o filho entrega ao pai outra moeda para o pagamento do barqueiro, as falas se completam na lembrança de momentos e experiências vividas pelos dois, enquanto Cédric associa o sentir com a liberdade em desejar. Aos poucos, por exemplo, o pai chega ao penhasco e à morte, e o filho revela-lhe o desejo de assisti-lo. Porque quem deseja não é mais a cria, mas aquele distante o suficiente para ser outro.

Cédric Charron comprova agora sozinho no palco, depois de já ter impressionado em outros trabalhos coletivos de Jan Fabre, a potência de um performer que supera a condição de dançarino e ator. A amplitude de seu vocabulário gestual foge dos movimentos previsíveis, e, a cada quadro, cada coreografia, a pluralidade apresentada renova o próprio espetáculo provocando ansiedade por mais.

A dança se livrou da mera representação explicativa há muito tempo. Em Attends..., Jan Fabre e Charron dialogam com tal liberdade oferecendo a experiência particular aos silêncios de cada um. Se no palco Charrou se despede do pai, emancipando-se na figura do barqueiro, se ao fazê-lo na forma do solo provoca igual emancipação como artista, Jan Fabre, por sua vez, entrega ao espectador a possibilidade de se emancipar da racionalização do simbólico, permitindo o convívio com a arte, apenas e principalmente, por sensações. Não são, então, performer e a fumaça que Fabre consegue libertar e fazer dançar.