AGORA \ Crítica Teatral
THE SOUL S MESSENGER
Ruy Filho (SP), em Porto Alegre, 09/09/2015
Meredith Monk abre o Porto Alegre Em Cena de forma magistral
Show da americana Meredith Monk teve ecos do minimalismo de Steve Reich e do gesto indispensável de Bob Wilson

A voz capaz de tornar os sons em imagens

É sempre importante entrar no Theatro São Pedro. Nele permanece a atmosfera de estarmos encontrando a história e a arte. Some a isso, o fato de ser a noite (3 de setembro de 2015) de abertura de um festival internacional de teatro, o 22o Porto Alegre em Cena, que se provoca a ir para além dos espetáculos teatrais. E é com tal propósito que a primeira noite não se limita ao cênico, mas à grandeza de uma criadora que moldou as manifestações artísticas contemporâneas. Isso, pois a convidada é simplesmente Meredith Monk.

Acompanhada por Katie Geissinger, Allison Sniffin e Bohdan Hilash e alguns poucos instrumentos além de piano, Meredith Monk, aos 72 anos, faz da voz o recurso maior ao som. As diversas composições apresentadas, em cerca de 90 minutos, buscam tornar melódicas sensações de ações, quais nos cabem imaginar, como o instante em escolher, o movimento de chegar, o estar junto à porta e outros mais. São gestos e ações simples próprios do cotidiano comum apresentados pelo canto e fortalecido como existência poética ao ser. A poesia nas mínimas coisas do dia-a-dia.

A aparente aproximação do folclore indígena americano induz a tal leitura com Meredith e suas tranças típicas, seu vestido cortado remetendo aos trajes pós-dominação branca, e que tanto vimos em filmes do gênero.

No entanto, não tratam disso as composições, e logo as sensações se esvaziam de qualquer primitivismo óbvio para a complexidade dos estados puros presentes apenas nas emoções não nomeáveis. As pistas são oferecidas para a entrada do público em cada partitura. Ainda que os títulos das composições sejam apresentados e rapidamente explicados por Meredith, esses só auxiliam ao reconhecimento da ação central e instante cantados. Bastam poucos segundos para, cada canção ao seu modo, disparar sobre o imaginário do espectador suas memórias mais introspectivas. Ouvir se torna uma viagem particular às paisagens sonoras elaboradas ricamente e, décadas depois do início da criação de sua linguagem, ainda tão geniais.

A dimensão cênica que as paisagens sonoras tomam deve-se, sobretudo, pela capacidade de as canções suscitarem imagens imprevisíveis. Existe nesse deslocamento certa teatralização dos sons e intervalos, das respirações e ruídos, nas artimanhas técnicas vocais capazes de produzir diversos sons simultâneos na mesma pessoa. A melodia se concretiza exatamente pela repetição de cada um desses mecanismos, com a impressionante capacidade de serem executados em ritmos diferentes, aonde, apenas após um acúmulo de sequência, todas voltarão a se encontrar e reiniciar a frase melódica, em um preciso e enigmático looping. Sobram ecos daquilo reconhecido facilmente como música minimalista americana, mais própria a de Steve Reich do que de Philip Glass, talvez o nome internacional mais popular.

Três são os detalhes curiosos ocorridos durante a apresentação e que revelam muito de Meredith Monk: o momento em que bate-se um diapasão sem disfarce para um dueto entre Meredith e Katie, oferecendo a primeira nota e afinação às duas, revelando, por conseguinte, não ser o espetáculo um exibicionismo da potência de quem possui ouvido absoluto, e sim de domínio técnico surpreendente. Também a primeira entrada das duas acompanhantes que tocam o piano como se batessem à porta, cumprindo o tema da canção, enquanto são recebidas por Meredith como se o palco fosse de fato sua casa, seu espaço íntimo. E, por fim, o leve gesto ocorrido algumas vezes modificando o desenho de um braço, por exemplo, ou apenas de uma mão, em poucos milímetros, durante o cantar, utilizando todo seu corpo como instrumento de ressonância.

Para quem, com eu, nunca a assistira, apenas acessando sua obra pelas músicas gravadas e imagens antigas, esperava-se a violência explosiva e marcante do início de sua carreira. Mas a expectativa é culpa de quem a antecipa, não da artista que surpreende por sua generosidade, tranquilidade e humor. Nem mesmo a inquieta e ruidosa plateia, ainda que visivelmente encantada, provocou-lhe qualquer questão.

Em seu último bis, a Meredith Monk de outrora ressurge como um presente final. É seu número mais divertido e livre, marcado por um gestual falsamente figurativo e exagerado. Se a música já trouxera sinais dos minimalistas, agora o corpo reaproxima o gesto ao diretor Robert Wilson dos primeiros espetáculos. Estão todos ali, portanto, em Meredith, em sua arte, na história de um vocabulário construído por uma geração excepcional de artistas. Se um ou outro se perdeu ao tempo, esgotou-se, esse não é o caso com Meredith. Sua genialidade supera até mesmo o escorrer da nota, quase ao final, quando o cansaço já era evidente. Afinal, ela própria nos mostra há décadas o quanto ruídos e dissonâncias são potencialmente fortes para provocar nossas imaginações. O festival começa no lugar certo e com a artista certa. Começamos bem.