AGORA \ Crítica Teatral
A ÚLTIMA INVENÇÃO
Consuelo Vallandro, Porto Alegre (RS), 04/08/2022
Montagem do grupo De Pernas Pro Ar apresenta as memórias do protagonista borrando os limites entre a vida do personagem e a do ator e inventor Luciano Wieser
Foto de Tayhú Wieser

Um convite à Invenção

A última invenção opera entre o que entendemos como uma exposição de esculturas/invenções e um espetáculo de Teatro de Animação. Mas, antes de tudo, é uma obra que nos faz um convite a visitar um entre-mundo e adentrar o reino do realismo fantástico. A proposta desta imersão começa pelo espaço escolhido: uma salinha no Museu da Santa Casa, em Porto Alegre (temporada dias 2, 3 e 4 de junho), ao lado das vitrines expositivas, cheias de objetos hospitalares antigos e imagens dos séculos passado e retrasado – um ambiente onde o público é recebido com um acervo pessoal sobre uma mesa, uma coleção de relíquias de família e objetos daquele tipo que muitos de nós guardaram por anos em caixinhas envelhecidas com muito carinho. São reminiscências pessoais do “Inventor”, como explica a mediadora aos olhos curiosos que se acumulam diante da pequena exposição.

Dessa maneira, somos levados a um mergulho nas memórias do protagonista do espetáculo, que borram limites entre a vida do personagem e a do ator e inventor Luciano Wieser. Em seguida, ao adentramos a sala e, em meio a uma luz baixa, vislumbramos 10 invenções escultóricas compondo uma atmosfera onírica, que parece ter saído de uma edição de Harry Potter (para os mais novos) ou de um capítulo de História Sem Fim (para os mais velhos). Nesse momento, um personagem idoso, o único ser humano presente na trama, vagando um pouco perdido de suas memórias, nos é apresentado como este inventor que hoje precisa das próprias invenções para lembrar-se de quem é. Então, uma a uma o personagem vai revisitando e ativando suas invenções diante do público, que o acompanha em suas interações e vivências.

O De Pernas Pro Ar, grupo artístico familiar de renome oriundo de Canoas, trabalha com essa construção de mundos imaginários desde 1988 por meio da linguagem do Teatro de Animação e mais especificamente, do Teatro de Máquinas (termo usado pelo grupo, que já conta mais de 50 criações nestes quase 35 anos de carreira), as quais são construídas a partir dos devaneios do artista inventor Luciano Wieser, que cria suas obras desde menino a partir de tesouros descobertos entre objetos e quinquilharias descartados em ferros-velhos e briques. Assistindo a este jogo de cena praticamente sem falas, onde o protagonismo muitas vezes é transferido às máquinas, delineia-se a humanidade maquínica diante do próprio inventor, que não se coloca como seu superior ou soberano criador, mas como alguém de uma sensibilidade apurada que se dispõe a escutar o que cada objeto descartado tem a contar. Aliás, foi exatamente do processo de escuta sensível com uma haste de luminária que nasceu a primeira “filha” desta série: a Máquina de Voar, de 2018, um par de asas acopláveis em tecido e ferro que remete às invenções de Leonardo da Vinci.

Entre as ora simpáticas, ora intrigantes e misteriosas engenhocas, o público ainda conhece o sedutor Vestido Dançante; os musicais Dedalejo e a Máquina de Sapateado (duas máquinas que produzem música à moda dos antigos realejos, a última feita com 20 moldes de sapateiro em madeira antiga) e a engenhosa Máquina de Lembranças (um grande Arco com bonecos robotizados que remetem a figuras marcantes da vida do inventor). Ainda, por outro viés, há uma surpresa: a tecnologia aparentemente rústica de um maquinário de estética vintage se opõe à sofisticação das soluções tecnológicas criadas por um dos filhos da figurinista e produtora Raquel Durigon e de Wieser, o engenhoso Tayhú D., que comanda por trás do palco um arsenal de controles remotos que conseguem fazer com que uma mulher robotizada converse e expresse sentimentos por meio de seu olhar ao próprio inventor, e que um gato – ou gaito, como batizado em honra à gaita que lhe deu forma – ronrone e demonstre medo quando incomodado.

 

Esta estética maquínica, rara e peculiar do grupo De Pernas pro Ar já foi tema de uma pesquisa de mestrado na UFRGS [1] em 2019, que levou a alto grau a característica constante no Teatro de Animação de exploração e por vezes de invenção de tecnologias. Segundo este autor, o perfil deste tipo de artista “se organiza entre um encenador, um inventor e um criador, elaborando sua arte entre o palco, o laboratório e o ateliê, sem haver um limite muito nítido entre estas funções e estes espaços”. De qualquer modo, é a metodologia da chamada “ressignificância” – o deslocamento de sentido destes objetos e de sua própria memória –, que dá ao grupo a capacidade de conceber “dispositivos geradores do surpreendente, do impossível e do estranho diante do espectador”. Assim, dado que as tecnologias não são aplicadas para gerar algo novo, mas para revelar e ampliar camadas de sentidos de cada objeto resgatado do descarte e do abandono, também é constituído um casamento genuíno e harmonioso entre o analógico e o digital.

Cada invenção nesta peça encarna não uma habilidade ou uma forma de pensar humanos, como geralmente o fazem as máquinas, mas sentimentos, desejos e memórias. É justamente nesse processo que vemos a alma, ou anima, como prediz o nome da técnica, se en(-)carnar num objeto. Uma das maiores pesquisadoras em Teatro de Animação na Europa, Joëlle Noguès, afirmou sobre a relação entre os bonequeiros e os bonecos: “o corpo de carne revela o corpo desencarnado”. No caso destas Invenções, no entanto, vemos uma linda Inversão: é o corpo maquínico e descarnado que revela a nossa carne.

Dessa forma, despido de palavras ou de um encadeamento de ações mais pretensioso, o grande mote de “A última invenção” é este paradoxal convite à fruição de um mundo encantado por máquinas e de uma dramaturgia que se constrói no “entre” com cada escultura/invenção, na poética inesperada destes encontros e no seu lirismo improvável. Afinal, em um mundo cada vez mais dessensibilizado pelo processo gradual e irrefreável da robotização do ser humano, sufocado pelo utilitarismo voraz que desvaloriza até as pessoas de maior idade, um inventor e sua família de artistas nos convidam à proeza de fazer brotar a humanidade justamente das e com as máquinas, ressignificando-as como a nós mesmos. Aceitemos de bom grado este convite e entremos nesse mundo!

 

[1] TEATRO DE ANIMAÇÃO E TECNOLOGIAS: Um olhar a partir da Interface sobre o trabalho de algumas companhias do Rio Grande do Sul, de LEANDRO ALVES DA SILVA

Consuelo Vallandro há mais de dez anos vem expandindo seus horizontes e práticas artísticas no campo da arte transdisciplinar, envolvendo a dança contemporânea, o circo e a performance, sendo esta última foco de sua pesquisa de mestrado junto ao PPG-AC da UFRGS.