AGORA \ Crítica Teatral
PALÁCIO DO FIM
Thiago Silva, Porto Alegre (RS), 25/07/2022
Peça da Cia Incomode-te tensiona o real e a ficção como mote de reflexão sobre o início de século e seus conflitos humanos, políticos e socioculturais
Crédito: Boca Migotto

Quando o fim é apenas o começo

Tiros, bombas, explosões. Barulho. Ruído. Estrondos. Corpos que caem e arrastam-se pelos escombros. Líderes com discursos de ódio, proselitistas, carregando nações como matilhas que marcham na direção de um mesmo fim: matar. Matar o diferente, o opositor, o inimigo. Matar outra crença, outra ordem societária, outro ponto de vista acerca de um mesmo fato. Matar a pulsão de vida que aponta, que sentencia outra verdade, que fala para além do que está dado. E matar, sobretudo, aquilo que não alimenta histórias simetricamente condicionadas. Aquilo que não serve, que não resolve, que não tem hora e nem lugar perante o discurso oficial. Matar é a ordem do dia, nos diz os primeiros anos do século XXI. Matar como forma de legitimar-se diante de um mundo fragmentado. Matar como elemento crucial nas notícias diárias e nas narrativas que estruturam o poder. Matar. Invadir. Destroçar.

Palácio do Fim, espetáculo da Companhia Incomode-te, de Porto Alegre, nos convida a pensar sobre estes aspectos beligerantes da contemporaneidade, tensionando o real e a ficção como mote de reflexão sobre nosso conturbado início de século e seus conflitos humanos, políticos e socioculturais. Com dramaturgia da canadense Judith Thompson e inspirado em histórias reais que apresentam prismas distintos sobre as guerras travadas entre ocidente e oriente, entre nós e os outros, o trabalho, que comemora 12 anos da companhia, confronta o público a pensar sobre as mazelas sociais e humanas que uma guerra é capaz de produzir, bem como nas consequências que discursos de ódio - sob o pretenso manto do salvacionismo - acarretam em diferentes grupos, sujeitos e sociedades.

Ao assisti-lo, na ocasião do 16º Festival Palco Giratório realizado pelo SESC, em Porto Alegre, me peguei pensando no enorme acúmulo de pormenores que não sabemos a respeito de uma guerra, na quantidade expressiva de vozes e óticas que um conflito armado é capaz de soterrar para sempre com seus crimes, suas impunidades e sua violência e nas centenas de relações históricas que podem ser travadas entre a Guerra do Iraque, do Golfo, do Vietnã e tantas outras que existiram e continuam existindo indiscriminadamente. E, de repente, para além da própria composição teatral do trabalho, o que mais me tocava no momento pós-espetáculo era a nossa impotência frente a um mundo que segrega, classifica, diminui, tortura e mata. Todos os dias.

Palácio do Fim remete-nos a uma série de poéticas da cena contemporânea, que vão do Teatro Documentário - com suas narrações e construções cênicas sobre fatos e eventos históricos - ao Teatro de Testemunho e o docudrama biográfico, provocando uma fricção constante na linha tênue - no caso deste trabalho - que separa a realidade daquilo que consideramos ficção. Assim, não sabendo que aquilo que é dito pelo elenco é baseado em eventos que de fato existiram, o espectador é cooptado para um universo ficcional que destroça seu olhar perante a animalidade de cada situação apresentada. Sabendo previamente, contudo, que as histórias são tecidas no bojo da realidade concreta e que elas de fato aconteceram, o espectador é capaz de adentrar uma zona de perplexidade ainda maior. E mais desoladora.

Neste embate translúcido entre verdade e mentira, o real e o irreal, Palácio do Fim também evoca uma impressão de distopia por meio das imagens projetadas na arquitetura narrativa que o ator e a atriz estruturam em cena - imagens que são sempre solidificadas como geograficamente distantes, embora próximas - em uma espécie de distanciamento frente ao que assistimos, como se os fatos apresentados fossem tão insuportavelmente cruéis e desumanos, que pensá-los enquanto uma realidade outra, que não faz parte da nossa, fosse necessário para nos manter firmes e seguros, longe da barbárie. Acontece que, assim como quando lemos romances distópicos como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, e 1984, de George Orwell, essa sensação de proteção perante a crueldade do mundo e das guerras é apenas ilusória e temporária. Rapidamente nos damos conta de que, ainda que os eventos apresentados não façam parte, efetivamente, de nosso cotidiano, o paralelo com questões que são caras ao nosso tempo e espaço é inevitável.

Deste modo, do militarismo exacerbado ao nacionalismo acrítico e  irracional; das ideologias, discursos e representações que excluem e punem todo corpo divergente; da misoginia institucionalizada como política de Estado; da tortura e do desaparecimento como mostra do poder instituído e como fonte de desumanização do “inimigo”; da xenofobia como prática basilar na estruturação identitária de si e do outro: estas e outras questões que envolvem a dramaturgia de Palácio do Fim ressoam em nossos ouvidos como elementos que nos são bastante conhecidos, ainda que de modo diverso nas perfurações que atravessam nosso país, nosso estado e nossa cidade. A própria cenografia de Alexandre Navarro Moreira tece estas relações ao potencializar imagens de caos e desolação no palco - como um ser humano segurando outro ser humano por uma coleira, primeira imagem que nos deparamos ao adentrar a sala. Entretanto, por mais que as imagens sejam fortes e o texto seja impiedoso, o trabalho se alicerça também na sua aptidão em emocionar e despertar a compaixão em quem assiste por meio da universalidade de temas como perdão, dor, abandono, solidão e o medo de perder quem amamos.

Este é outro ponto extremamente positivo do trabalho: sua capacidade de vinculação e empatia com o público. E isso se dá, em grande medida, pelas atuações de Nelson Diniz e Liane Venturella, que conseguem conferir verdade para as vozes políticas e humanas que representam, assim como a enorme sensibilidade concedida para o tônus de suas personagens. E cabe ressaltar que não é apenas na fala e no discurso que essa comiseração é personificada: é também na respiração, nos movimentos minimalistas, no olhar vazio e, especialmente, no silêncio matematicamente calculado pelo ator e pela atriz em cena - pelo qual somos transportados para os sentimentos intensos que o espetáculo nos concede. Nelson Diniz e Liane Venturella são artistas de técnica aplicada e sensibilidade aprofundada, uma combinação que torna Palácio do Fim uma experiência de imersão.

A direção de Carlos Ramiro Fensterseifer, por sua vez, sabe lidar com a força da dramaturgia e do elenco que tem em mãos, destacando apenas aquilo que precisa ser destacado. Não há grandes movimentos, ações ou marcas de cena, pois o que fica ao fim do espetáculo é o efeito daquilo que precisa ser dito. As escolhas de direção para que este efeito se intensifique é o que torna a encenação e o seu resultado: como uma espécie de instalação na sala, cada cena possui uma triagem específica que corrobora na condução da atmosfera e na comunicação política proposta para com o público. É como se, o tempo inteiro, o espectador fosse martelado - ora sutilmente, ora nem tão sutilmente assim - com todas as feridas que uma guerra é capaz de produzir e alimentar.

Desde o início do espetáculo, esta sensação de incômodo é perfurada no público: seja com a declaração de George W. Bush sobre as artimanhas e os perigos do terrorismo, seja quando um vídeo (com a participação especial de Fabiane Severo como uma soldada norte-americana) é projetado, mostrando um lado da História que, sabemos, será contestado - e problematizado - logo em seguida. Não há para onde desviar o olhar. É preciso ver e ouvir. Neste caso, também a iluminação de Nara Maia e a trilha sonora original de Angelo Primon intensificam o mal estar produzido, como se traduzissem, visual e sonoramente, aquilo que as palavras não são capazes de dizer acerca do horror de um conflito armado, onde tantas vidas são pulverizadas. Neste sentido, o que fica, com cada detalhe do trabalho, é o recado de que não importa o lado, em uma guerra todos perdem algo ou alguém. Em uma guerra ninguém sai ileso.

Há uma passagem em 1984, de George Orwell, que diz que o fim de uma guerra ou de um sistema totalitário está sempre contido no seu princípio. São suas regras e seus motes discursivos que definem onde tudo começa e onde tudo acaba. Não há nada, nem um único detalhe, que não entregue o fato de não existir ninguém que se beneficie de algum modo de um conflito bélico além dos algozes que o produzem. Basta tirar a venda e querer enxergar esse fato. O fim, tendo em vista esta circunstância, é sempre e apenas o começo: o começo de uma nova forma de dominação, isolamento e intolerância; ou o início de uma outra possibilidade de convivência nos entremeios da alteridade, sem a crueldade e os erros cometidos no passado. Palácio do Fim nos joga a corda. Cabe a nós decidir o que faremos com ela.