AGORA \ Crítica Teatral
O INVERNO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO - NOSSO RICARDO III
Izabel Cristina da Silveira, Porto Alegre (RS), 08/07/2022
Cia Teatro ao Quadrado reverencia William Shakespeare em um de seus textos mais conhecidos, Ricardo III, e celebra, também, vinte anos de existência
Crédito: Alisson Haguiar

E os homens que continuam a exercer seus podres poderes

A dualidade política, pela disputa de poder ao Reino da Inglaterra entre os anos de 1455 e 1485, simbolizada pela rosa branca (Casa de York) e a rosa vermelha (Casa Lancaster), ambas advindas da Dinastia Plantageneta, contextualizam, na chamada Guerra das Rosas, uma das mais controversas ascensões ao trono da Inglaterra: a do Rei Ricardo III. Este é o personagem da clássica obra homônima do dramaturgo inglês William Shakespeare, escrita nos anos de 1592 e 1593, em um período de um pouco mais de cem anos após o assassinato do Ricardo III da vida real, no campo de batalha em 1485, por Henrique Tudor (que viria a ser coroado Rei Henrique VII, unindo as duas Casas na Dinastia Tudor).

O descendente York personifica a representatividade histórica, social e psicológica da tirania e ambição política em um passado de séculos, que vem sendo facilmente atualizado ao longo dos anos. Shakespeare é contemporâneo, não há dúvidas. E a Cia Teatro ao Quadrado, de Porto Alegre, nos provoca adentrar pelos devaneios e confissões de Ricardo III, como cúmplices de quem já conhece essa história. Não se trata de um Ricardo III distante, é o “Nosso Ricardo III”, tão perto e tão conhecido, resgatado do século XVI para o século XXI, que na perpetuação cíclica da História, emerge de um golpe.

Em concepção ‘brechtiana’ o espetáculo - realizado dentro do Festival Palco Giratório 2022,  nos é apresentado a partir do surpreendente solilóquio presente no Ato I, Cena I da obra dramatúrgica: “O inverno do nosso descontentamento foi convertido agora em glorioso verão por este sol de York, e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais interno fundo do oceano”. Assim inicia o espetáculo protagonizado por Marcelo Ádams e Margarida Peixoto, com direção de Luciano Alabarse, em uma reverência ao ator, o texto dramatúrgico e a presença potente dessa construção cênica em tríade com o público. Marcelo e Margarida entregues em sua força visceral, mergulham por uma dramaturgia construída a partir do mundo ‘shakespeariano’ de Ricardo III, mas não só dele, levando o espectador por outros caminhos e possibilidades de conexões. É possível perceber a consonância com outras obras do dramaturgo inglês, como Hamlet e MacBeth e suas narrativas sobre a condição humana e relações com o poder; cenas fragmentadas e o “distanciamento” de Bertolt Brecht são apresentadas em uma dramaturgia não linear que transita e dialoga com situações e problemáticas atuais, de governos e países tão distantes para alguns e tão sufocantes para outros tantos. Por vezes, chegamos a sentir a regionalização da obra. Um William Shakespeare atemporal e universal que parece ter escrito para nós, frutos do século XXI, o seu Ricardo III.

Essas passagens que perpassam os séculos, e encontram no ponto convergente da tirania de um governo autoritário, são identificadas e protagonizadas pelo ator e pela atriz em cena, seja pelo texto e fragmentos contextualizados, suas ações, trilha sonora escolhida (inclusive a cena de Marcelo cantando com um microfone de pedestal, em uma clara sonorização tecnológica, subvertendo estéticas lineares e aristotélicas, é uma excelente proposta). A todo o tempo, o espetáculo nos provoca a emergirmos por Ricardo III da Casa de York e pelo “nosso” Ricardo III. A personagem do militar, general/coronel que Margarida nos apresenta com atuação primorosa, com sua subserviência e conivência vassala aos atos sanguinários do Rei, nos relembra, concretamente, o quão vil e asqueroso pode ser o jogo político e do poder que, na falta de carisma e propostas construtivas de governo, usam de violência, autoritarismo e opressão para manterem seu “status quo”. Constatação bem viva, entre nós brasileiros, nos últimos anos, ainda que com uma larga diferença de inteligência e complexidade entre a personagem dramatúrgica de Shakespeare e o “nosso Ricardo III”.

A cenografia construída com elementos diversos como livros, bonecas desfiguradas, materiais hospitalares, jornais, papéis, uma “torre”, remetendo ao caos, em uma simbologia de signos que passa pela possível loucura de Ricardo III, colabora na materialização e espacialidade do imagético, ainda que por vezes, tornem-se mais figurativas do que funcionais. Essa figuração pode ser percebida quando não existe uma exploração, por exemplo, da cena em conjunto com a iluminação intimista na construção de uma personagem que é, constantemente, assombrada por seus “fantasmas” e distúrbios psicossociais. Ricardo nasce prematuro e feio em suas palavras: “eu, que privado sou da harmoniosa proporção, erro de formação, obra da natureza enganadora, disforme, inacabado, lançado antes de tempo para este mundo [...]”se vê de tal forma deformado que sua mente se deforma junto com ele em seus atos ao longo da história.

Marcelo ocupa: a cena, o palco, e coloca todo o seu corpo, voz, emoção, intenção a favor de uma obra construída a partir de três corpos (ator, atriz e diretor) e tantos outros, personificados na vilania da personagem shakespeariana e revelados na sua tirania pelo mundo por séculos. É evidente e, talvez, esse seja o ponto alto da peça: O Inverno do nosso descontentamento - Nosso Ricardo III diz muito para além da obra de Shakespeare, diz sobre mim, sobre nós, sobre a Cia Teatro ao Quadrado, que em 2022 completa 20 anos de existência e resistência artística, cultural e social. Diz muito sobre nosso país. Sobre nossa História. E diante de verdades tão reais e complexas, a linha entre o real e o imagético torna-se tênue. Obra, personagem, ator se fundem em um destaque, algumas vezes, do ator e seus textos extensos, dilatados, outras vezes da personagem, ratificada na cena final em seu derramamento de sangue sob o corpo de um Ricardo III vencido e de um ator presente, após dois anos de distanciamentos, no encontro real do artista, palco e público, reafirmando a arte da presença e sua inesgotável importância reflexiva, provocadora e catártica, principalmente, em tempos sombrios.

 

Izabel Cristina da Silveira é graduada em Teatro pela UFRGS e Especialista em Acessibilidade Cultural pela UFRJ. Diretora e professora de teatro, dramaturga, produtora e Coordenadora de Artes Cênicas em Gravataí/RS. Atua como colunista, curadora, crítica teatral e avaliadora em Editais e Festivais de Teatro no RS.