AGORA \ Crítica Teatral
CLLÃ
Verônica Prokopp, Porto Alegre (RS), 01/07/2022
Espetáculo de dança contemporânea, com direção de Alex Sander dos Santos e Carlota Albuquerque, recebeu cinco Prêmios Açorianos de Dança 2018
Foto de Claudio Etges

Cllã: um Vaudeville do Tempo Contemporâneo

Passados dois anos e meio, eis que retorno à plateia do Teatro Renascença em meio ao 16º Festival Palco Giratório Porto Alegre para assistir Cllã, o espetáculo de dança contemporânea, com direção de Alex Sander dos Santos e Carlota Albuquerque.

Ali olhando para o palco escuro, sou fisgada pelo humor peculiar da narração inicial que sinaliza de forma irônica os seus não patrocinadores, chamando a atenção sobre a pauta do fomento para o desenvolvimento/manutenção de obras artísticas.  Aliás, Cllã é repleto de sutilezas inteligentes do início ao fim.

Quase como um prólogo, o espetáculo inicia com os bailarinos ao fundo da cena, uma espécie de massas disformes, iluminadas por uma lâmpada manipulada, através de um braço que transpassa a rotunda. Os corpos-massa ganham o espaço revelando seres estranhos, aumentados, encaroçados. Em cena aberta, os bailarinos despem essa espécie de couraça deixando à mostra um figurino com uma paleta de cores sóbrias assinado por Margarida Rache. Cada qual, traja um figurino próprio, dando pistas da personalidade de cada personagem, bem como, nos situando em uma época outra do espaço-tempo.

A entrada do cenário na cena, apesar da atormentação visual que causa a luz estroboscópica (assinada por Fernando Ochôa), brinca com nossa percepção de velocidade, jogando de forma dinâmica com efeitos de câmera lenta. Cllã nos inquieta a todo momento. As cenas apresentam-se como micro narrativas dinâmicas e conectadas, onde em um piscar de olhos tudo se transforma, seja pelo movimento da cena, dos corpos ou pela trilha sonora. Quase como uma montanha russa, o espetáculo transita por sentimentos e situações distintas que vão da euforia à melancolia, da solidão ao frenesi coletivo, muitas vezes no mesmo momento. A visualidade que o espetáculo Cllã me trouxe foi a de uma Fita de Möbius: um estranho objeto sem lado, uma fita torcida parecida com o símbolo do infinito, onde o dentro e o fora não existem. Mesmo em situações distintas, os três bailarinos (Alex Sander dos Santos, Luciana Dariano e Laura Lautert) permanecem conectados, em um mesmo fluxo ondulatório, dentro e fora, individual e coletivo.

Algumas cenas seguem reverberando em minha memória. Uma delas, a “cena do jornal”, protagonizada por Alex Sander, me calou fundo: um rosto emoldurado, preso, às vezes desesperado, às vezes à espreita em meio a um sem fim de notícias. Atrás de uma lente de aumento, que permite ver e ser visto. Essa cena soa quase como um rebote com a contemporaneidade onde (quase) tudo se dá na tela ou através dela.

Em outra cena, protagonizada por Laura Lautert, seu “devaneio alcóolico” enche a cena de um humor peculiar que disfarça a solidão, em sua fantasia dançante com um terno, sem rosto e sem corpo, suspenso por um fio de nylon. A movimentação remete à um bailado à dois, onde Laura enlaça-se e se desvincilha de um casaco vazio, discutindo, empurrando, abraçando, rodopiando de mãos dadas pelo espaço com o que parece ser uma lembrança ou uma miragem.

Em outro momento, protagonizado por Alex Sander dos Santos, somos colocados diante de uma agonia aflita, um anseio por qualquer gesto de afeto ou atenção, que contrasta com o corpo apático, distante e imóvel de Luciana Dariano em oposição ao corpo cabisbaixo e ensimesmado de Laura Lautert me levam de volta à sensação da “cena do jornal”, quase como um retrato de algum momento do real. Assim como quando todos reúnem-se diante do aparelho de TV: corpos imóveis, olhos fixos, hipnotizados, seduzidos pelas luzes coloridas da mídia que ultrapassa seus limites e (n)os engole, pouco a pouco, diariamente.

O espetáculo nos mostra diversas partituras coreográficas dinâmicas, com acentos de movimento e pausas inesperadas que colocam a cena em suspenso. Há uma intensa relação dos bailarinos com o cenário disposto na cena como uma sala de estar: sofá, mesa, cadeiras e pequenos móveis. O sofá é o elemento cênico mais utilizado, sendo explorado de formas diferentes, principalmente por possuir rodas, em solos, duos e trios. O deslocamento do cenário pelos bailarinos, no decorrer do espetáculo, conecta-se com a dinâmica coreográfica proposta pelos corpos, contribuindo para a construção de diferentes atmosferas cênicas.

Cllã nos apresenta um ambiente e uma relação de aspecto familiar entre seus sujeitos. A entrada de Rui Moreira em cena, apesar de previamente anunciada de maneira demasiadamente frenética, parece abalar essa estrutura. A chegada de Rui inaugura novas narrativas cênicas tanto com Alex Sander quanto com Laura, as quais vão se resolvendo conforme Rui vai retornando à cena, numa espécie de subtexto sobreposto, espessando mais ainda a dramaturgia da obra.

Cllã recebeu cinco Prêmios Açorianos de Dança 2018: Espetáculo do Ano, Direção, Bailarina (Luciana Dariano), Coreografia e Destaque Dança Contemporânea. Um dos prêmios aparece em cena entre os livros na mesa de TV. Um detalhe que chamou atenção, e poderia passar (des)percebido, mas Cllã está nos detalhes.

O espetáculo parece flertar com a estética de um Vaudeville, gênero de entretenimento de variedades predominante nos Estados Unidos e no Canadá entre os anos 1880 e 1930, onde uma série de números artísticos sem relação direta, era apresentado ao público. Diante disso, diria que o espetáculo Cllã se apresenta como um Vaudeville do Tempo Contemporâneo tanto na sua estrutura cênica, que versa entre dança e performatividade, quanto pela sua trilha que embala as diversas cenas do espetáculo, bem como a trilha executada, aparentemente ao vivo, pelo músico Aldo D’Ibaños.

O dinamismo cênico e coreográfico, os truques de mágica, a montanha russa de sentimentos e sensações, sua visualidade em tom sépia, com uma direção que amarra e conecta as cenas nos fazem embarcar em uma viagem dialética: estamos lá e aqui. Suspensos e inquietados sobre o agora.

 

Veronica Prokopp é artista da dança, artista visual, bailarina, diretora, produtora, pesquisadora em dança e artista-gestora da Cubo1 Cia. de Arte. Doutoranda em Ciências do Movimento Humano (PPGCMH-UFRGS) e Mestra em Artes Cênicas (PPGAC-UFRGS).