AGORA \ Crítica Teatral
OS PÁLIDOS
Helena Carnieri (PR), em Curitiba, 14/09/2015
CiaSenhas aborda histeria e divisão políticas do país com personagens que falam sem parar
Público e atores (na foto, Ciliane Vendruscolo) percorrem sede da CiaSenhas durante encenação

O blablablá do Brasil

Quando o público escolhe uma das cadeiras espalhadas pelo primeiro andar da sede da CiaSenhas em Os Pálidos, já fica de olho na mesa de madeira em que estão um belo candelabro e inúmeras xícaras de porcelana ladeadas por bules. Vencida a timidez, chá na mão, o primeiro gole e a surpresa: está quentinho (Curitiba soma 13 graus). Normalmente, quando se recebe um chá de cortesia, ele está morno ou tem um gosto que lembra café velho.

A boa experiência sensorial logo no início da peça volta à mente ao longo do espetáculo, cujo texto alude ao momento de histeria e de polarização políticas do Brasil.

Aproveitando o gancho da opinião bastante corrente de que o país precisa neste momento repensar suas estruturas, “nascer de novo”, a peça pode ser lida como uma oportunidade de espelhamento em que o público poderá ouvir a própria voz. Pensar na corrupção inerente a alguns atos cotidianos, ou no simples hábito de fazer as coisas pela metade (o chá morno).

A cultura da gambiarra é apenas um dos muitos problemas de base do país que ressoam nas palavras dos cinco personagens. Inspirados nos filmes de Luis Buñuel O Anjo Exterminador e O Discreto Charme da Burguesia, eles parecem convidados de uma festa chique de pilequinho. “Somos maravilhosos!”, comemoram. Apesar de a intenção não ter sido identificá-los com a chamada “elite”, e sim questionar a essência do brasileiro, é difícil não fazer essa ligação.

Com palavras certeiras na dramaturgia, Sueli Araujo faz um espetáculo político calcado num estranho humor. As palavras é que riem, como no jogo “somos pardos – parvos – pálidos”, mas nunca é um riso fácil ou descompromissado. A própria estética da CiaSenhas, de um cuidado minucioso com figurinos, cenários e ocupação do espaço, atesta contra o chamado “jeitinho brasileiro”. Este é o segundo espetáculo da companhia apresentado em sua sede. Se em Homem Piano (2011) a peça foi adaptada ao local sem grandes intervenções, agora uma reforma foi realizada, com recursos de financiamento coletivo. Instalações técnicas foram criadas para luz e som, e foram colocados painéis que simulam paisagens nas janelas.

Enquanto ocupam de forma incansável os dois andares da casa, os personagens Os Pálidos se dão conta de que há algo de estranho na rua. Essa escolha da narrativa se vale da localização da CiaSenhas, situada na travessa de maior agito boêmio da cidade, a São Francisco. O forte rumor dos bares ao redor pode ser escutado lá dentro e se confunde com a sonoplastia, que utiliza captações sonoras do exterior em horários de pico.

A tensão cresce entre esses seres meio bambos e confusos, e leva junto o espectador. Enquanto três atores estão com dez pessoas no primeiro andar, dois seduzem os outros dez no piso superior com suas palavras. O elenco assim dividido se comunica por meio de um microfone e caixas de som.

A crise de insegurança do enredo é superada, ou camuflada, pela manutenção dos hábitos do grupo, que incluem a fala ininterrupta. Cada nova ideia surgida viaja como uma onda entre os cinco personagens, sendo então repetida de diferentes formas e dando ensejo a novas paranoias e elucubrações. O recurso pode irritar, e talvez seja essa a intenção.

O ápice se dá num dueto de blablablás entre as atrizes Greice Barros e Anne Celli que se vale dos recursos cômicos de ambas.

A companhia aprofunda nesta montagem sua investigação sobre o ato de ser observado e o de observar no teatro. Leva o público para mesinhas de bar e serve vinho, e ainda oferece o aconchego de colchões de ar com lençóis cheirosos.

Se vai um passo além de espetáculos anteriores, em que a aproximação se dava sobretudo pelo olhar prolongado, não chega a constranger os menos afeitos a participar. Lança iscas como tentar lembrar de uma música de outros tempos para quem quiser cantar junto. No final, arma-se um grande carnaval sonoro que faz a discussão anterior terminar em pizza, mas que convida o público a entrar na dança.

Por outro lado, a tensão no ar e a artificialidade com que se vestem, movem e falam esses seres (sempre com extrema ênfase em cada coisa que é dita e redita) afasta a ideia de identificação do espectador, num relance de Brecht, com cuja filosofia do teatro Sueli se identifica. Mesmo o envolvimento emocional é praticamente descartado pelo registro anti-ilusionista.