AGORA \ Crítica Teatral
TENTILHÃO
Leandro Silva e Michele Rolim, Porto Alegre (RS), 14/10/2021
Peça montada com a direção de Thiago Silva traz uma experiência sensorial imersiva em vídeo costurada por diversidade feminina, para o texto de Caren Jeß
Na foto Ana Cecília Reckziegel uma das atrizes do elenco composto exclusivamente por mulheres

Espetáculo cria tensionamento entre universo e a violência

Tentilhão, com direção de Thiago Silva, estreou na programação do Palco Giratório no dia 13 de outubro de 2021, no âmbito desta da edição do projeto TRANSIT 2021, realizada pelo Instituto Goethe de Porto Alegre e SESC RS que traz como mote a realização de experimentos cênicos virtuais. Tal mote para a realização das obras desta quinta edição vem na esteira das profundas transformações geradas na cena teatral na atualidade pela sua fricção com a internet e o audiovisual, forçada, fomentada e sedimentada pelas condições da pandemia da Covid-19.

Desde a declaração de emergência sanitária no Brasil, no início de 2020, os artistas não deixaram de criar, provocar e experimentar formatos que, em alguma medida, também foram respondendo à dinâmica da pandemia. Do teatro de arquivos no inicio, às lives, às propostas interativas, à combinação de formatos síncronos e assíncronos e de diferentes plataformas, a primeira impressão que nos salta aos olhos assistindo o trabalho proposto por Thiago Silva e sua equipe é o modo como a obra foi criada, expondo o debate mais atual entre os fazedores de teatro, deste segundo semestre de 2021: o da progressiva retomada da criação coletiva. 

A equipe apresenta um trabalho que celebra o retorno de um elenco num mesmo espaço físico (Casa Santa Terezinha espaço do projeto Usina das Artes), compartilhando a atuação em estado de jogo, da qual a câmera em alguma medida é apenas a espectadora. Após um processo de ensaio através do ambiente virtual para trabalharem o texto, o diretor e  a equipe optaram em fazer uma experiência de criação em imersão, com a ocupação por um período regular e de forma intensiva, para criar, produzir e gravar a peça. 

Essa proposta, de criação coletiva e em imersão, tem sido uma estratégia de retomada dos grupos de teatro, que combinam a redução do contato físico através de ensaios virtuais num primeiro momento e articulam a criação final da obra dentro de um espaço de convivência em regime intensivo de trabalho, troca e tomadas de decisão. Essa estratégia é possível, primeiro pelo avanço da vacinação no país, e que já reduz drasticamente os tristes números da Covid-19 no Brasil, pelo exemplo de cuidado e prevenção demonstrado pela classe artística desde o início da pandemia (os primeiros a parar e os últimos a retomar de forma plena suas atividades) e também pelo incremento das tecnologias da internet e da parceria com o audiovisual como uma realidade que, em alguma medida, já reconfigurou os modos de criação, produção e espectação teatral, mesmo com a remissão da pandemia.

Esse contexto talvez explique a primeira e mais impactante característica da montagem de Tentilhão, com a direção Thiago Silva: a de uma experiência sensorial e visual imersiva em vídeo. Três elementos sustentam essa impressão: a presença feminina em cena com diversidade de corpos, a trilha sonora original e o projeto visual da obra, marcadamente onírico e poético (e paradoxalmente violento).

O texto de Caren Jeß, através de uma estrutura de fábula social contemporânea apresenta, a partir de seu universo de pássaros, um horizonte social distópico do cotidiano, escancara e crítica temas como o machismo, a homofobia, a alienação e os preconceitos, em suas variadas facetas, geradas a partir de uma sociedade que se estruturou, se reproduz e se mantém a partir da matriz patriarcal. 

A escolha da equipe pela presença de cinco mulheres no elenco, em toda a sua diversidade, acentua pela interpretação precisa e dinâmica, a denúncia social anti-patriarcal presente na obra da dramaturga Caren Jeß. Através de suas presenças e vozes, a obra é um eloquente “fuck patriarchy!” (Foda-se o patriarcado!), como respondido por Caren Jeß, em entrevista anterior para o AGORA Crítica Teatral. 

Na proposta de encenação de Thiago Silva, executada em profunda cooperação com as atrizes em cena, os pássaros não são representados de forma naturalista: estão nos corpos das atrizes, nos seus movimentos, o elenco obtém um sólido efeito de zoomorfização dos seus corpos, criando uma espécie de mulher-pássaro e não o contrário. Vemos asas e bicos, garras e penas, vôos e danças e sobretudo vemos mulheres em cena. A figura da narradora surge sustentada por todas as mulheres, diluídas em suas vozes e presenças, borrando a fronteira entre essa personagem fixa e a miscelânea de personagens. Chama a atenção o uso bem marcado da voz, o cuidado com a expressão dos olhos e a agudeza da interpretação das atrizes. Um trabalho de cooperação entre, de e para mulheres; uma experiência de sororidade no palco.      

Mesmo que o texto de Caren nos impacte pelo seu amargor e uma dose de distopia, a obra criada com a direção de Thiago Silva consegue se sustentar através do humor e do satírico. O riso amargo é uma experiência constante na apreciação da obra e as atrizes nos dão socos doloridos no estômago sorrindo (e enquanto sorrimos também). Humor sem leveza, com uma carga de denúncia social em cada palavra, gesto e olhar. De tantos elementos que a peça traz, fica nítido o recorte da equipe de levar à cena questões mais diretamente relacionadas às mulheres: a maternidade desromantizada, a opressão feminina, o etarismo, a solidão e a alienação social.

A peça também se destaca por ser uma obra para ser escutada com atenção. A trilha sonora original, assinada por Régis Moewius, é cuidadosa e integrada à cena e ao vídeo o tempo todo. A música ajuda a diferenciar os quadros na qual a obra está dividida, dando o tom humorístico de cada um. Fica evidente que houve grande preocupação do diretor em trabalhar a trilha como elemento estético, narrativo, discursivo e integrador da obra. O resultado é uma obra recomendada para fones de ouvido ou para ser revisitada depois de olhos fechados (experimentem!). A trilha integra uma paisagem sonora que ambienta a atuação e a cenografia, a música marcada e um trabalho de tratamento das vozes das atrizes, em que se percebe recursos como transições, ecos e sobreposições. Fica nítido o lugar de uma “trilha sonora atuadora”, integrada ao trabalho como uma tessitura da qual não é possível se desvincular. Em Tentilhão, a trilha sonora não é um recurso, não é um efeito. É uma atriz.

Por fim, destacamos o projeto visual da obra, que expressa uma sensação de unidade. Essa unidade vem de vários elementos, imbricados em uma realidade complexa: do recorte de gênero marcado na atuação, dos figurinos, do cenário (que nos lembra um galpão abandonado numa floresta escura), da luz (presente como um recurso, mas colaborando decisivamente para a costura visual da obra) e, especialmente, pela cenografia.

No projeto original apresentado por Thiago Silva e sua equipe no processo de seleção dos trabalhos para esta quinta edição do TRANSIT, o diretor propôs a realização da obra em um único espaço, entulhado, que fosse sendo mexido, redesconfigurado ao longo da encenação e que impregnasse as atrizes, seus corpos e figurinos, ao invés de uma diversidade de espaços. Essa proposta já guardava em si a metodologia da imersão como possibilidade da criação, uma vez que isso implicaria o compartilhamento de um mesmo espaço pela equipe. Tal resultado chega ao formato original da obra e é um dos elementos que dá unidade narrativa à obra. Mas não só. Percebe-se todo um cuidado visual com a criação da obra, na escolha dos elementos plásticos e no uso e manipulação dos objetos em cena. 

No entanto, o ambiente onírico proposto na peça guarda um paradoxo interessante. Existe um entrechoque provocado pela beleza estética da obra que privilegia um universo onírico ao mesmo tempo que expõe a violência na qual aqueles corpos de mulheres-pássaros estão submetidos na peça e também fora dela.  

O arremate final fica por conta da edição, uma arte autônoma que pode modificar e até subverter o sentido original de uma obra. Renata Lorenzi aposta bastante em recursos de transição das imagens, o que nos proporciona uma apreciação fluida do vídeo, sem mudanças e cortes abruptos, nem mesmo na mudança dos quadros. Mesmo que esse recurso às vezes pareça exaustivo, no conjunto é uma escolha acertada quando consideramos o movimento fluido da trilha (sempre presente) e o projeto enxuto da cenografia, figurinos e iluminação. Ainda sobre o processo audiovisual, percebe-se o nítido interesse em estabelecer uma relação direta com o espectador, tomando como referência a experiência teatral: os planos fechado e detalhe nos mantém numa relação tete a tete do início ao fim, preenche a tela e tensiona o sentido de presença teatral, já tão ressignificado desde o início da pandemia. 

Tentilhão é uma obra fincada no agora da experiência teatral. É uma obra com um pé na pós-pandemia, habitando de maneira harmoniosa a fronteira entre teatro e  audiovisual. Não há grandes tensões nessa fronteira, na proposta da obra. Teatro e audiovisual não parecem dois desconhecidos obrigados a conviver pela força das circunstâncias pandêmicas e não parecem preocupados com o que pertence a cada lugar. Pelo contrário, a peça acolhe os trânsitos entre as duas linguagens e se enriquecem de suas proximidades e diferenças.