AGORA \ Crítica Teatral
BOOKPINK - O LIVRO DOS PÁSSAROS
Leandro Silva e Michele Rolim, Porto Alegre (RS), 14/10/2021
Com participações de Porto Alegre, São Paulo e Alemanha, obra dirigida por Liliane Pereira aproveita as potências do teatro digital
Na foto Jeffie Lopes um dos atores da peça BookPink - O Livro dos Pássaros selecionada para o projeto Transit 2021

O não-lugar habitado por personagens-pássaros

Com a pandemia da Covid-19, decretada no Brasil como emergência sanitária no início de 2020 e a consequente necessidade de isolamento social, o teatro respondeu a essa grave e drástica situação com uma miscelânea de modos de criação e propostas de espectação, nascida da fricção entre a cena, o universo digital em suas variadas plataformas e a imbricação com o audiovisual. O fato é que os artistas nunca pararam de pensar, tensionar e reinventar suas práticas durante a pandemia. Suas casas se transformaram em potentes laboratórios de experimentações e o uso das plataformas de comunicação em tempo real proporcionaram, desde então, a permanência dos encontros entre os artistas, o público e sendo elas mesmas a arena de apresentação.

A quinta edição do projeto TRANSIT realizado pelo Instituto Goethe Porto Alegre em parceria com o SESC RS, atenta e afinada com a realidade da pandemia e seus impactos na cena teatral, modulada por diferentes ciclos, propôs para este ano a montagem de duas encenações virtuais para o texto BookPink, da dramaturga alemã Caren Jeß. 

A chamada deste ano sugeriu aos grupos propostas de “experimentos cênicos virtuais”, denotando a liberdade criadora e a abertura para todos os formatos possíveis, expandindo os próprios limites do teatro e desvinculado da experiência teatral da pré-pandemia. Passados quase dois anos, que proveito podemos tirar dos limites impostos aos artistas pela pandemia? Que mudanças e aprendizados a dura experiência do isolamento social agregou às práticas artísticas? 

Liliane Pereira, uma das diretoras selecionadas para esta quinta edição, desenvolve uma obra baseada fortemente no experimentalismo, estreada na programação no Palco Giratório. A sua proposta BookPink - O Livro dos Pássaros nos ajuda a mapear essas potencialidades e aprendizados.

Uma delas é a possibilidade de criação de uma obra em  intercâmbio, em que artistas de diferentes lugares podem se reunir em torno de um trabalho comum, sem os limites da distância espaço-temporal, que podemos observar na proposta da diretora. Ela reúne participações de atores e atrizes de Porto Alegre, São Paulo e Alemanha, ocupantes de tempos e espaços simultâneos, proporcionados pelo ambiente virtual. Os quadros em transição, a voz em OFF e sobreposta e a colagem de imagens nos faz viajar por essa simultaneidade de espaços e tempos e nos mostra que o teatral digital não se dá nem dentro de um “terceiro” espaço-tempo, nem dentro de um espaço-tempo “alternativo”. Mas, dentro de uma simultaneidade de tempos e espaços complexos, dos quais se soma também o tempo-espaço do espectador no momento de assistir a obra. Pierre Lévy, refletindo sobre o significado do virtual (LÉVY, Pierre. O que é o Virtual? São Paulo: Editora 34, 2011. Pág. 21), fala dessa simultaneidade, dessa ubiquidade do tempo e espaço, nos quais o espaço físico e geográfico e a temporalidade do relógio se tornam apenas uma referência. Criado num tempo-lugar virtual, para ser atualizado em tempo-lugar distinto, distribuído de forma irradiada e paralela.  Somos, enquanto espectadores, mais uma dimensão espaço-temporal de BookPink, mais uma janela, uma gaiola, destacados estamos do tempo da criação-experimentação do elenco, mas ainda parte da mesma experiência.

Portanto, em BookPink, Liliane propõe um modo de criação que tem como ponto de partida o conceito de “não-lugar”, uma ideia convergente com os modos de criação no e para o ambiente virtual, que ajuda a entender o mundo emergente da pandemia. O antropólogo francês Marc Augé definiu como “não-lugares” os espaços que não proporcionam à maioria das pessoas manter uma relação duradoura com outras, como os lugares de circulação, os espaços de consumo e os espaços de comunicação. “O não lugar é o espaço dos outros sem a presença dos outros, o espaço constituído em espetáculo” (Le sens des autres. Actualité de l’anthropologie, 1994, p. 167).

Somados a isso, a obra tem uma proposta de captação, edição e montagem marcada por uma artesania na sua consecução, que nos lembra o recente fenômeno da cultura tiktoker e o seu “faça-você-mesmo e se coloque no mundo”, misturando recursos, que vão de dublagem off, tomadas em áreas externas e videoconferências. Cada ator e atriz criou a partir de seus espaços e condições materiais, elaborou suas cenas e caracterização de personagens com ampla liberdade para propor os rumos e suas texturas de atuação.

Essa mistura de planos e propostas visuais não colabora para haver um projeto unificador estético na totalidade do trabalho. O único elemento conectivo é a figura da narradora (aqui instituída como a única personagem fixa e que faz uma costura dos diversos quadros da peça), cabendo ao audiovisual a tarefa de dar alguma unidade à imensa variedade de cenas que nos são ofertadas, com diferenças em termos de atuação, cenografia, cor, som e textura.  Realizar a direção à distância certamente deve ter sido um grande desafio para Liliane Pereira e equipe e a ausência de um contato físico com o elenco dificulta encontrar pontos adequados de nivelamentos para esses diversos elementos, numa proposta de direção mediada por plataformas digitais.

Por outro lado, essa fragmentação narrativa e visual nos permite assistir a obra como a um reality show, no qual os personagens parecem ter consciência de nossa presença do outro lado da tela, observando suas existências mirabolantes através do olho mágico da internet. Tal perspectiva denota a clara intenção da diretora em nos colocar na função de ornitólogos sociais, observadores indecorosos da vida dos personagens-pássaros que poderiam habitar o nosso condomínio, a nossa rua, a nossa casa, ser nós mesmos. 

BookPink chega para nós como uma experiência de criação em intercâmbios complexos, expandindo nossa sensação espaço-temporal, friccionando a relação entre teatro e audiovisual e celebrando o poder criador dos artistas que, desde o início da pandemia, não se cansam de reinventar seus modos de criar e questionar o mundo.