AGORA \ Crítica Teatral
ENTRE
Thiago Silva, Porto Alegre (RS), 31/03/2021
Com produção do Pequenices "Entre" é uma experimentação em dança, circo e vídeo para crianças
Fernanda Boff e Gabriel Martins protagonizam o espetáculo que propõe um jogo entre artistas e espectadores foto Vini Fontoura

O incessante desejo de movimento

 

Dias atrás, conversando com um amigo sobre as mobilidades e imobilidades que a pandemia de covid-19 nos trouxe como companhias inevitáveis em nosso cotidiano, mencionei o fato de meus irmãos estarem com problemas para dar conta da necessidade de movimento de meus sobrinhos e sobrinhas crianças, que têm entre sete e doze anos, diante de um tempo que nos impôs tantas transformações. Isso porque, toda a energia infantil contida em suas vidas, antes excedida em diferentes ações e espaços para além de suas casas, agora concentrava-se única e exclusivamente no âmbito domiciliar, tendo em vista a paralisação de suas atividades. Sendo assim, contei ao meu amigo que, não raro, pude ouvir de meus irmãos sobre os desafios cotidianos que estavam encontrando para lidar com as necessidades diárias de seus filhos e filhas, pois nunca haviam ficado tanto tempo confinados desse modo. As mesmas coisas de sempre não bastavam. Os pequenos e as pequenas queriam sempre mais.

Não obstante, meu amigo relatou que, em sua família, a realidade não era diferente. As crianças apresentavam, diariamente, um incessante desejo de movimentar-se. Isoladas e sem contato umas com as outras, já não podiam mais ir ao cinema, ao teatro, ao parquinho ou mesmo viver aquela aglomeração boa com os amiguinhos nas ruas próximas de suas casas. E, sobretudo, não estavam mais frequentando a sua célula de relações sociais mais significativa: a escola. Desse modo, sem novidades provenientes desse contato tão vital que lhes foi subtraído pela pandemia, as crianças, bem como suas famílias, ficaram na busca por encontrar atividades instigantes e prazerosas.

Nesta direção, algumas alternativas passaram a fazer parte do dia a dia de crianças e, consequentemente, dos adultos por elas responsáveis. Serviços de streaming potencializaram suas produções infantis; empresas especializadas em atividades para o público infantil multiplicaram-se, fornecendo subsídios e atividades recreativas para pais desesperados por ocupar o tempo ocioso de seus filhos e filhas; diversos canais no YouTube dedicaram-se a criar material audiovisual voltado para a infância e juventude; professores e professoras viraram-se como puderam para manter os educandos ocupados com tarefas interessantes e lições que despertassem o gosto pelo conhecimento de suas disciplinas; entre outras coisas, que surgiram como forma de aplacar os ânimos, o tédio e a angústia.

No campo teatral voltado para a infância, tão vasto de possibilidades no contato presencial entre artista e criança, uma dúvida pairou em meio aos profissionais do teatro infanto-juvenil (digo por experiência própria, por fazer parte deste reduto criador e partilhar deste dilema): como dialogar e trocar com nossos pequenos espectadores diante da tela? Como colocá-los em movimento diante de uma proposição sem a nossa presença física? E, principalmente, como criar uma dramaturgia que os instigue e estimule, mesmo que, muitas vezes, estejamos separados no tempo e no espaço do acontecimento cênico devido aos protocolos de segurança em relação à covid-19? Certamente, para todos os artistas que se dedicaram a criar para o público infantil durante o período de distanciamento social, as respostas para estas perguntas não foram facilmente encontradas.

Uma alternativa atraenteforam os festivais destinados ao teatro para a infância e juventude realizados de modo remoto, online e de forma gratuita em sua maioria. Alguns exemplos de festivais realizados em 2020, durante a pandemia, são o FENATIFS (Festival Nacional de Teatro Infantil de Feira de Santana- BA), o Festival Nacional de Teatro de Passos (7º Festival Criança no Teatro, Edição Online- MG) e o PROFEST TEATRO: Festival Online de Teatro (MG), que contou com peças infantis do Brasil inteiro. Em todos esses casos, foram disponibilizados espetáculos na íntegra em plataformas e redes sociais diversas, com o intuito de estabelecer uma rede de troca entre os artistas envolvidos nas produções e, principalmente, fornecer um material teatral gratuito e atrativo para crianças e adolescentes assistirem em suas casas.

Entretanto, poderíamos nos perguntar: qual seria a diferença entre as produções disponibilizadas pelos festivais e o conteúdo audiovisual que as crianças têm acesso em inúmeras plataformas digitais? Existe uma distinção de envolvimento significativa, nesse sentido, além da evidente assimetria entre a forma e as linguagens de cada objeto? Mais uma vez, não são perguntas de respostas fáceis, pois, chegando próximos a mais de 1 ano longe dos palcos, ainda buscamos maneiras de respondê-las (se é que exista, de fato, uma necessidade de quantificar ou mesmo qualificar essas produções em nomenclaturas). Uma questão bastante clara, todavia, diz respeito a uma distinção bem específica no que tange às produções teatrais atravessadas pela tela do computador:  o universo do “teatro gravado” e o universo do teatro feito exclusivamente para o audiovisual (o chamado “teatro online”, “teatro remoto”, etc.). É exatamente aí, me parece, que a questão da troca com o público infantil é marcada de maneira diversa nos dois tipos de fazer cênico.

Para exemplificar essa questão, trago neste texto o trabalho de criação, composição e apresentação do grupo Pequenices, da cidade de Porto Alegre, RS, como forma de elucidar alguns pontos que acho de suma importância  na produção voltada para o público infantil. Isso porque, ao entrar em contato com uma montagem específica desse grupo- realizada especialmente para o ambiente virtual- chamada “Entre”, várias reflexões se fizeram presentes no modo de operação que este coletivo de artistas insere em suas produções infantis. Desenvolvido desde 2016, a partir do prêmio FUNARTE de dança Klauss Vianna, o projeto Pequenices, composto por diferentes artistas da área cênica da capital gaúcha, dedica-se a pensar o protagonismo da criança em processos artísticos e pedagógicos, e isso se reflete positivamente nos meandros pelos quais Entre consegue atingir uma movimentação interessante nesse aspecto. Isso acontece pelo fato dos artistas não perceberem a criança como um sujeito passivo frente ao que assiste. Mais do que uma “peça gravada”, a produção audiovisual do grupo Pequenices é um convite ao encontro.

Entre é uma experimentação em dança, circo e vídeo feita para crianças, que utiliza de recursos cênicos distintos para brincar com as emergências da união entre diferentes coisas. Segundo o grupo, o trabalho é um desdobramento de um espetáculo futuro, que encontra-se em fase de pesquisa e composição. Todavia, é importante ressaltar que Entre não é um mero registro de um processo de montagem, mas um produto artístico que se basta em si mesmo, ainda que seja parte de um projeto posterior. Isso, por si só, já difere a produção do grupo Pequenices de um “teatro gravado”.

Entre corpos, objetos e diferentes fazeres que transitam pela dança, pelo teatro e pelas técnicas circenses, o trabalho revela as imediações de um olhar artístico que busca trazer a criança para junto do acontecimento que se desdobra na tela. Isso nos leva à leitura de que o “entre” do título, para além do entre lugar sugerido pelos artistas envolvidos, também é um entre do verbo entrar, um chamado para que o público faça parte da brincadeira proposta em cena. Aqui, novamente, há uma diferenciação entre uma peça previamente gravada e um produto pensado para o online que leva em conta o agora como meio de significar sua criação artística.

O trabalho é dividido em diversos quadros que alternam-se ao longo da exibição, mas que, no entanto, se misturam e se retroalimentam, sendo que a dramaturgia é composta pelas próprias ações delineadas pelos corpos dos dois artistas. Fernanda Bertoncello Boff e Gabriel Martins se valem de recursos múltiplos como dança, brincadeiras, jogos de adivinhação, mímica e memória, bem como de expressões faciais que viram uma composição divertida de formas e dizeres para orientar ludicamente o que assistimos, convidando-nos a fazer parte desse universo. Na alternância entre gesto e movimento, objeto e linguagem e no híbrido corporal que, por vezes, acontece nas ações de Fernanda e Gabriel, somos catapultados, enquanto espectadores, para um espaço que possibilita uma relação direta com o que se assiste, ainda que estejamos separados por uma tela.

Neste sentido, mesclando diferentes brincadeiras e técnicas, o trabalho se estabelece como um produto sem encaixe exato que, no entanto, torna-se convidativo justamente por transpassar as fronteiras impostas pelo “teatro gravado”, convidando as crianças a colocarem-se em movimento através de uma proposta lúdica e interativa. Isso porque, Entre não se propõe a colocar o público infantil sentado assistindo, apenas; mas, sim, a relacionar-se com o que é proposto pelas situações delineadas no vídeo, como uma espécie de jogo que acontece entre os artistas e a criança espectadora.

Sendo assim, a grande diferença deste produto cênico voltado para a infância (ou melhor, infâncias, no plural), é o deslocamento do olhar que ele propõe. Não se trata de algo gravado que está finalizado em uma proposição ficcional limítrofe, mas que dialoga de uma maneira aberta com as crianças, fazendo coro com o movimento contínuo da imaginação. No fim das contas, a impressão mais forte que fica do trabalho do grupo Pequenices é exatamente essa: um experimento, uma brincadeira, um “entre” que ativa e mantém aceso o incessante desejo da criança de movimentar-se, mesmo em um tempo carregado de imobilidade.

Thiago Silva é dramaturgo, ator, diretor teatral e pesquisador em Artes Cênicas. Graduado em História e Mestre em Processos e Manifestações Culturais pela Universidade Feevale, onde pesquisou as relações entre História e Teatro. Bacharel em Direção Teatral pelo Departamento de Arte Dramática da UFRGS, onde foi bolsista de pesquisa em Escrita Dramatúrgica. Membro fundador e artista pesquisador no Coletivo Nômade de Teatro e Pesquisa Cênica de Porto Alegre (RS).