AGORA \ Crítica Teatral
Avenida das Maravilhas
Michele Rolim, Porto Alegre (RS), 20/12/2020
Obra dirigida por Júlia Ludwig potencializa a atmosfera nonsense presente no texto de Sibylle Berg
Peça se passa em um cenário virtual – feito a partir das animações 3D - inspirado no visual de games Foto: Arquivo Pessoal

Fratura exposta pelo absurdo

 

Depois de nove meses da chegada da pandemia do novo coronavírus ao Brasil, os teatros do país inteiro continuam fechados e sem perspectiva de reabrir. Enquanto isso, experiências teatrais realizadas via plataformas de videoconferência e redes sociais vêm se multiplicando. O projeto TRANSIT [1], que está na sua quarta edição, também precisou de adaptar a essa nova realidade.

O projeto prevê a realização de duas montagens de um mesmo texto (alemão) por dois encenadores (brasileiros) diferentes. Neste ano, os grupos apresentaram projetos de encenação para o texto Wonderland Ave., da autora Sibylle Berg. O texto aborda um futuro distópico, quando as máquinas e a inteligência artificial subjugam e deixam a humanidade para trás.

Neste texto, vamos abordar a montagem apresentada pela diretora Júlia Ludwig, formada em Direção Teatral pelo Departamento de Arte Dramática da UFRGS em 2008, e integrante do Coletivo Das Flor. Assim como a maioria da equipe do espetáculo, Júlia faz parte do Bloco da Laje, entidade carnavalesca bastante atuante e significativa na cidade de Porto Alegre.

Havia uma certa expectativa de que esses mesmos corpos que desfilam pelas ruas da cidade, alegres e pintados, antropofagicamente criassem novos sentidos para a obra de uma autora européia. E isso aconteceu, através do estabelecimento de uma atmosfera nonsense – expressão inglesa que denota algo ou uma situação ilógica, absurda, desprovida de sentido ou de coerência.

É preciso dizer, antes, que o próprio texto de Sibylle Berg traz passagens absurdas, como a proposição de um cenário composto por uma área verde no centro e um lago com patinhos mecânicos. E também em trechos e falas que costumam fugir do bom senso como “O grupo parece bem contente – sangrando, mas contentes”. Ou ainda em diálogos que parecem fora de contexto, como “PESSOA: Há muito tempo foi travada uma guerra contra o homem branco heterossexual. CORO: What? PESSOA: Tudo bem, eu só queria dizer essa frase”.

Essa dramaturgia, por vezes nonsense, foi potencializada pela montagem de Avenida das Maravilhas. O fatalismo do texto cede lugar a uma encenação que potencializa o humor ácido e o deboche do temor de uma Europa que “recentemente” descobriu que o mundo está ruindo. O desemprego que vem se acentuando na Europa, proveniente de vários fatores como o acelerado processo de globalização, está extremamente ligado às novas tecnologias. Ou seja, você pode produzir com custos mais baixos e automaticamente acumular mais capitais, gerando a perda de postos de trabalho de “humanos” para “máquinas” – justamente uma das questões postas no texto.

Júlia se utiliza de diversos elementos, além da criativa atuação das atrizes e atores, para potencializar o absurdo. No “palco”, estão a atriz Kaya Rodrigues e o ator Thiago Pirajira, na figura “Humana”. Corpos negros interpretando um personagem europeu, branco, classe média e heterossexual. Humanos acompanhados de perto por robôs – interpretados por Chico de Los Santos, Dani Dutra, Diego Machado, Ju Barros, todos brancos – que vestem ternos, com elementos robóticos e mecânicos acoplados em seus corpos. Tudo isso, dentro de cenários virtuais – feitos a partir de animações 3D – de Tomás Piccinini, inspirados no visual de certos video games.

Para tal efeito no cenário, a produção utilizou recursos do chroma key (os artistas atuam somente com um fundo infinito verde, e o cenário desejado é inserido depois, digitalmente), dando a sensação de que estão fisicamente nos lugares onde a história se passa. O fato do visual lembrar bastante um game não faz, no entanto, com que o espectador se sinta imerso nesta perspectiva. Pois não há uma narrativa interativa, ou seja, o espectador não pode escolher mudar de direção, alterar um caminho. Apesar disso, o visual acentua a fantasia e o absurdo.

A opção pelo nonsense gera uma reflexão sobre nós, brasileiras e brasileiros. Enquanto os europeus estão preocupados com o fim da humanidade, nós estamos vivendo em um país que pode ser considerado, ainda, uma colônia. “Há uma história de privilégios, escravatura e colonialismo expressa de maneira muito forte na realidade cotidiana […] É espantoso ver a naturalidade com que os brasileiros conseguem lidar com isso”, disse Grada Kilomba quando esteve no Brasil, em 2017, para integrar a 32ª edição da Bienal de São Paulo.

Avenida das Maravilhas busca “descolonizar o pensar” quando provoca esse ruído, quase um estranhamento. Seremos todos devorados pela tecnologia, talvez. Mas não fomos nós brasileiros, latinos-americanos, que criamos as grandes estruturas de poder e nem as megas corporações. Não fomos nós que demos o start para uma direita extremista. A verdade é que aquilo que gera tamanho temor na Europa, não chega a fazer tanto barulho frente à realidade cotidiana no Brasil.

 

 

 

 

 

[1] O Projeto Transit, que está na sua quarta edição, foi idealizado pelo Goethe-Institut Porto Alegre com corelização do SESC Porto Alegre e em parceria com o AGORA. O projeto surge para estabelecer trocas entre continentes, estéticas e gerações. Dois diretores encenam o mesmo texto e o AGORA acompanha os processos de criação, com a presença de dois críticos-provocadores nos ensaios e escrevendo textos sobre os trabalhos. Em 2020, além de Júlia Ludwig, também foi contemplado Leandro Silva.