AGORA \ Crítica Teatral
CRIATURAS DA LITERATURA
Leandro Silva, Porto Alegre (RS), 08/01/2020
Cia. Teatro Lumbra apresenta seu mais recente trabalho no Porto Verão Alegre
No espetáculo todo o espaço do auditório do Instituto Ling se torna lugar da encenação

Uma experiência imersiva nas nossas memórias literárias  

A Cia. Teatro Lumbra estreou em 2019 seu novo espetáculo teatral, no âmbito do projeto Ponto de Teatro realizado pelo Instituto Ling, em Porto Alegre – RS. A convite do site AGORA Crítica Teatral escrevo minhas impressões sobre esse trabalho, a partir do meu lugar de espectador, de artista e de pesquisador na área de Teatro de Animação. Assisti a última apresentação da temporada, no dia 26 de outubro de 2019, com a casa cheia de amigos e muitos curiosos para saber quais eram as novidades desse novo trabalho, uma vez que o anúncio de um espetáculo da Cia. Teatro Lumbra sempre vem cercado de uma boa dose de expectativas.

Inicialmente, é importante situar o leitor do fato de que estamos falando de uma companhia teatral bastante peculiar na cena do Rio Grande do Sul, com uma trajetória de 20 anos de estrada. Firmou-se como uma referência em teatro de sombras, certamente uma das mais importante do país, e tem no seu repertório trabalhos premiados dentro desta linguagem, que ocupa um lugar específico, campo de pesquisa, estéticas e acúmulo de conhecimentos próprios dentro do vasto universo de possibilidades que compõe o Teatro de Animação. Dentre esses trabalhos, anteriores ao que irei me debruçar aqui, destaco “A Salamanca do Jarau”, “Sacy – A Lenda da Meia-Noite” e “Bolha Luminosa”, atualmente todos em repertório.

Engana-se quem buscar uma aproximação imediata do teatro de sombras da Cia. Teatro Lumbra com o cinema de animação. Ao adentrar o auditório do Instituto Ling, palco da apresentação, “algo” já acontece e um ritual se desenvolve ali. Os sombristas Alexandre Fávero e Têmis Nicolaidis já estão no palco e seus corpos e silhuetas se mesclam a projeções de páginas de um livro aberto. Na verdade, uma cortina “rasgada” ao meio, abrindo uma fenda por entre as palavras projetadas, como um convite para adentramos a esse livro. Até que, finalmente, estas páginas se abrem e somos “engolidos” para dentro da experiência do espetáculo.

No geral, a peça é uma parada, um desfile ou um passeio de personagens da Literatura Clássica e Universal. A Cia. Lumbra evoca para o palco figuras muito queridas e afetivas da literatura, especialmente a infantojuvenil: Dom Quixote, Moby Dick, Pinóquio, Drácula, Alice no País das Maravilhas e O Pequeno Príncipe. São cenas curtas, que trazem uma síntese das obras, com enfoque na personagem central de cada uma das narrativas clássicas. Como em trabalhos anteriores da companhia, a peça faz pouco uso das palavras, confiando no poder sobrenatural das sombras e das luzes para captar a atenção e o inconsciente dos espectadores. A trilha sonora é original e bem cuidada (assinada por Gustavo Finkler), e serve como um fio condutor tanto para a experiência emocional do espectador, quanto como um marcador da partitura corporal dos sombristas Alexandre Fávero e Têmis Nicolaidis, que unem o estar em cena e o organizar a cena - aqui inclusa a manipulação de grande quantidade de detalhes técnicos - num único processo.

Já, diferente de trabalhos anteriores, em “Criaturas da Literatura” a Cia. Teatro Lumbra opta por experimentar uma variedade de telas de projeções, com formatos diferentes e móveis. A companhia se reinventa e foge do clássico formato da grande tela de projeção à frente do espectador. São pequenas cortinas puxadas ou montadas no momento da cena e telas em formato circular, suspensas ou sustentadas pelos próprios sombristas.

As imagens projetadas nesses aros ganham um duplo movimento: o da imagem projetada e o da tela de projeção em si, que pode então passear pelo palco levada pelas mãos dos sombristas. Os olhos dos espectadores embarcam nessa dupla viagem, nesse duo sensorial: o da imagem e, ao mesmo tempo, do suporte que a apoia, e que em movimento se faz imagem também.

Nestas telas circulares percebi que houve uma nítida parceria de Alexandre Fávero com a sombrista e videomaker Têmis Nicolaidis desde o processo de criação da peça. Aqui vemos um toque de seu estilo de projetar e editar imagens, que já tive a oportunidade de ver em seus trabalhos a partir do Coletivo Catarse. O resultado é uma boa surpresa, ao ampliar as possibilidades de suportes para as imagens de sombras e luz. Esse encontro, essa parceria, fez de “Criaturas da Literatura” um trabalho diferente dentro do próprio repertório da Cia. Lumbra, quando comparado com anteriores.

E por falar em movimento, percebemos que o espetáculo é acima de tudo uma experiência imersiva, em que todo o espaço do auditório do Instituto Ling se torna lugar da encenação. As sombras escapam das telas e voam para o teto, deslizam pelas paredes, passeiam livres pelo teatro. A peça demanda dos espectadores não só uma atitude atenta, mas acima de tudo ativa. São mergulhados, abraçados pelas sombras, luzes, cores e texturas em todas as direções e temos que nos movimentar na cadeira para acompanhá-las. Mas parece que a Cia. Lumbra não anda se contentando mais só com o aspecto visual de sua estética. (E aqui aviso que tem “spoiler” pela frente…)

Na cena da obra “Alice no País das Maravilhas” a tela com a imagem – a Rainha Vermelha – se desloca do palco e se atira na direção dos espectadores. A faixa de tecido é puxada pelos sombristas contra a plateia e passeia por sobre nossas cabeças. E a Cia. Lumbra acaba por conquistar o impossível: dar um corpo material e palpável para as sombras, as luzes e as imagens. A Rainha Vermelha passa sobre nossas cabeças e “sentimos” a sua imagem no toque do tecido nas mãos, no rosto, na brisa causada pelo deslocamento do ar. Conversando com alguns colegas ao final da apresentação, foi unânime a magia desse momento. Em “Criaturas da Literatura” as sombras estão soltas, estão livres, encantadoras, assombrosas e até, estranhamente palpáveis.

Algumas escolhas nesse espetáculo talvez possam incomodar o espectador que não esteja ainda afeito ao teatro de sombras, em especial o pesquisado e construído pela Cia. Lumbra e que tem uma ênfase mais forte nesse trabalho. Um, que quero destacar, é a despreocupação ou a clara intenção de deixar à vista do público as entranhas do espetáculo, os seus intestinos de traquitanas, silhuetas e dispositivos. A companhia não faz questão alguma de escondê-los e aqui você tem uma outra camada, uma dimensão real do espetáculo, que igualmente pode encantar os curiosos num espetáculo de teatro de sombras, que é o de tentar perceber ou mesmo adivinhar de onde toda aquela magia sai.

Além de evocar o imaginário do espectador, a Cia. Lumbra tem particular interesse pela sua curiosidade. A companhia incorpora nos seus trabalhos momentos de formação de plateia para essa linguagem, ao abrir, ao final da apresentação, o espaço da encenação para que os curiosos possam se refastelar olhando de perto os materiais e equipamentos, conversar com a companhia e até tocar nos materiais. Aqui entra em cena o trabalho feito por Fabiana Bigarella, que colabora com a criação e encenação em vários processos, mas que é uma figura marcante em promover essa mediação entre o público e a obra, de estabelecer este ambiente afetivo de acolhida e diálogo com quem fica algum tempo depois da peça. Então aqui vai uma dica, que já repassei a vários novos espectadores do teatro de sombras: quando você for assistir uma peça da Cia. Lumbra, não saia correndo ao final e não perca a oportunidade de tomar esse “café” com a companhia para conversar sobre o que você quiser, tirar dúvidas, compartilhar suas impressões e aprender sobre teatro de sombras.

Pra mim, fica nítido desde o começo da peça que estamos diante de um trabalho ainda em processo, que ainda tem muitas potências a serem exploradas e que ainda falta encontrar seu ritmo, ou sua identidade rítmica. Tal fato é confirmado por Alexandre Fávero na sua fala ao final da apresentação e se deve ao próprio tempo do projeto “Ponto de Teatro” do Instituto Ling, que desafia artistas e companhias a criarem obras novas dentro de um cronograma apertado, como é a realidade dos projetos culturais em geral. O cronograma técnico de execução de uma obra financiada raramente cabe dentro da necessidade orgânica da criação e amadurecimento de uma obra teatral.

Dois elementos penso que precisam melhor ser afinados: um diz respeito à conexão entre as cenas, uma vez que mostrar as silhuetas e elementos cenográficos não se mostrou um conectivo forte o suficiente para manter a fluidez da viagem por todo o espetáculo. Fiquei com essa sensação de quebra entre uma cena e outra. e uma freada no ritmo do espetáculo.

As falas em “O Pequeno Príncipe” talvez precisem ser revistas, pois só reforçam o quanto é interessante quando a imagem (e a música conexa a ela) dão conta de comunicar o que precisa, sem que seja necessário apelar para o uso de texto falado que, aliás, nesse caso, já é bem conhecido de todos nós. Acredito que esse quesito será revisto e resolvido com maestria, pois trabalhos anteriores já dão conta da capacidade da Cia Lumbra de evocar o poder das palavras apenas pelo imagético e o sensorial.

Por fim, fiquei sentado bem no meio da plateia e senti falta de algum filtro ou controle para a luz do retroprojetor. Da minha posição, a luz do foco incindindo diretamente contra os olhos algumas vezes encandeou minha visão e me via lateralizando o olhar algumas vezes para fugir dessa sensação. São ajustes técnicos que ainda precisam ser feito na relação entre a proposta de encenação, a dramaturgia em si e o espaço cênico.

Apesar dessas condições – de tempo curto de criação e maturação, do local da apresentação, etc - a Cia. Lumbra se desdobrou com bastante êxito e entrega ao público um espetáculo que não decepciona. Ao mesmo tempo em que a peça é, no agora, no estado em que se encontra, envolvente e mobilizadora da atenção e emoção do espectador, aponta para um futuro muito promissor que, segundo a equipe, é direcionada à rua e ao espaço público.

Como conseguirão tal feito, do ponto de vista técnico, não faço a menor ideia. Mas, depois de tudo que já vi, ouvi e senti nos trabalhos da Cia. Teatro Lumbra, eu que não ouso duvidar.

 

*Leandro Silva é artista bonequeiro, diretor teatral do Grupo Fuzuê e mestre pelo Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da UFRGS