AGORA \ Crítica Teatral
LOBO
Diones Camargo, Porto Alegre (RS), 04/10/2019
Espetáculo de Carolina Bianchi possui uma força simbólica, poética e sensorial que compromete qualquer avanço de palavras que intentem encarcerá-lo numa análise racional
Fotos: Adriana Marchiori

“A minha bandeira, senhores, é toda a extensão que liga a cervical até o cu. A minha bandeira não tem nada escrito porque se tivesse não seria em nenhuma língua desse mundo. 

Como explicar com palavras desse mundo que não há mais ninguém para lhe pesar a mão nos cascos? (...) Como lutar contra o envenenamento das minhas próprias palavras? Quando eu falo eu sinto que o meu sangue muda de cor. Então assumo minha falta de talento completa para me dirigir a vocês, senhores. E vou tentar falar através de um outro signo.”

Carolina Bianchi - “LOBO”

 

 

O Porto Alegre Em Cena terminou há cerca de uma semana, porém algumas das obras apresentadas no festival continuam reverberando na minha imaginação, assim como na do público. Um desses trabalhos foi “LOBO”, da atriz e performer Carolina Bianchi. Assumindo o risco de soar incompreensível, minha escrita aqui tentará emular o mesmo princípio de abstração e incerteza que caracteriza o devaneio de Bianchi, deixando a compreensão incontestável a quem vai ao teatro em busca somente da luz, nunca da escuridão.

 

PARTE 1 – ANTES

 

Acompanho o trabalho de Carolina há cerca de 15 anos. Embora em sua longa carreira existam espetáculos ou performances aos quais não assisti (alguns foram apresentados na Europa e em outros países da América do Sul, e poucos têm sido convidados para as mostras no RS, infelizmente), é baseado nesse conhecimento prévio que dimensiono a artista que ela gradualmente se tornou. De trabalhos marcadamente nonsense como “Corra Como Um Coelho”, passando pela melancolia patética de “A Pior Banda do Mundo” (adaptado das HQs do português José Carlos Fernandes), ambas montagens da extinta Cia. Dos Outros, da qual foi cofundadora, até este recente trabalho apresentado em Porto Alegre na segunda semana do festival, Bianchi vem percorrendo o árduo caminho d@s profissionais das artes cênicas deste país que se dedicam exclusivamente à criação autoral e à pesquisa de linguagem, sem abdicar de sua identidade artística e provocativa e por vezes controversa em troca de sucesso fácil. Assim, não foi exatamente uma surpresa quando, no ano passado, assisti ao espetáculo “LOBO” em São Paulo no amplo – porém intimista – espaço da Cia. Mungunzá, o Teatro de Contêiner. E mesmo que já esperasse algo inovador, não tive como não reconhecer que Carolina havia feito um mergulho na cratera do vulcão lunático da criação, e que saiu de lá maior ainda.

 

PARTE II - ARTEMISIA GENTILESCHI PINTA UM RETRATO DE UMA MULHER QUE MATOU UM HOMEM ENQUANTO ELE DORMIA

 

“LOBO”, o delírio fetichista-feminista desta jovem atriz, performer, encenadora e dramaturga é um enigma paradoxal: apesar da fruição prazerosa e de concepção aparentemente simples, há nele uma força simbólica, poética e sensorial que compromete qualquer avanço de palavras que intentem encarcerá-lo numa análise racional – o que talvez explique a incapacidade de alguns críticos que buscam enquadrar a experiência proposta às suas definições arcaicas do que é uma obra cênica. Por se tratar de um exemplar muito bem pensado de teatro-perfomance, em que a fábula não evidenciada dá lugar a um conjunto de símbolos que delineiam o ponto de vista do emissor sem a necessidade de descrevê-lo ou inscrevê-lo num contexto específico, a obra segue a lógica intrínseca da Performance Art, ou seja, a de deixar que a experiência do(s) corpo(s) presente(s) na cena (e fora dela) se torne(m) a principal chave para a compreensão do todo. Ao mesmo tempo, do ponto de vista do Teatro, “LOBO” se apresenta como um elaborado espetáculo que alia poder visual, sarcasmo e teor confessional para retratar uma sociedade que se deixou convencer pelo mito do Homem como centro do Universo.

Inspirada por alguns dos grandes propositores da cena performática contemporânea, tais como Romeo Castellucci e Angélica Liddell, Bianchi alia referências clássicas e contemporâneas nas quatro partes em que divide sua liturgia que – se tem mesmo que ser resumida – faz uma outra leitura da História Ocidental, perpassando-a e desmembrando-a em busca de um novo ponto de vista daquilo que chamamos de “Civilização”. Para isso, já de saída Bianchi aborda o surgimento da questão em si, estabelecendo o seu próprio Gênesis. Se na mitologia judaico-cristã, tão cara a Europa, o primeiro homem surge do barro e a primeira mulher da sua costela para a ele servir, na cosmovisão profana de Bianchi é do caldeirão de suor de machos histéricos em deslocamentos inócuos e intermináveis que surge o “primeiro” ser. Carregando junto a seus dorsos recipientes vazios que nunca serão preenchidos, em seu narcismo autocomplacente os tais machos corredores acabam atraídos uns pelos outros até enfim condensarem-se numa enorme massa indistinta que forma assim o primeiro organismo – uma espécie de Monstro do Pântano composto por pênis, escrotos e nádegas à vista de todos. Nesse charco formado por transpiração, secreções e deleite, o “monstro-homem” permanece por muito tempo ainda, movendo-se sensualmente na medida que o seu auto prazer exige satisfação. Porém, após certo período, tendo deleitado o seu apetite feroz e já entediado com o próprio sabor, este organismo-macho se vê inevitavelmente tentado à novidade. E esta mudança só ocorre quando finalmente entra em cena um outro ser. Ao menor sinal de aproximação desta outra criatura que – vejam bem! – já existia em sua completude muito antes desta massa indistinta se formar, o “Frankenstein” é tomado por um súbito vigor e atraído para a Fêmea Alfa com a mesma ferocidade que um dia amalgamou os seus retalhos.

Ao surgir em cena, a Mulher passa a ser apresentada por Bianchi numa dupla e irônica alegoria: ela é ao mesmo tempo a Madona dos renascentistas e a Madonna da nossa época. A primeira, sofredora, cuidadora, mantenedora do Status Quo do macho; a segunda, a femme fatale ambiciosa, caçadora, devoradora das vísceras dos homens, vísceras estas que posteriormente se tornarão o ovo que – tal como fez Björk no tapete vermelho do Oscar no início deste milênio – A Fêmea Alfa deixará rolar sobre os mandamentos assertivos de um grande livro que tanto pode ter sido escrito tanto por um dos maiores nomes da literatura Ocidental quanto inventado por apóstolos cujas percepções de Mundo e sociedade regem até hoje os preceitos da moral ocidental. Se a Madona dos mestres italianos segura um homem moribundo em seus braços para que este abandone seu corpo nu e suba ao Reino dos Céus, a Madonna do showbusinnes deixa que homens nus a segurem e a elevem às alturas – sejam estas espirituais ou carnais.

E é dessa disputa interna – em que cada parte da “Besta-Macho” busca obter mais prazer que o todo – que então o organismo (antes uno) acaba por se desmembrar e perseguir individualmente a saciedade dos seus desejos egoístas. E esta acabará sendo (para usar uma expressão que agrada os apreciadores da dramaturgia clássica) a “falha trágica” da Fêmea Alfa, a ruína daquela que um dia domesticou os lobos e escolheu um dentre eles – aquele cuja sensibilidade poética se aproximava do que chamamos de “humano”, mas que ela, distraída, confundiu com “amor”.

 

PARTE III - O AMOR NÃO É BELO

 

A partir daí vemos uma sucessão de quadros cujos significados se revelam aos poucos através ou das citações textuais diretas ou de representações cênicas de animais. Esse encadeamento proporcionado por essas simbologias zoomórficas funcionam da mesma forma que quando vemos um grande afresco nas capelas de Roma: à medida em que avançamos e percorremos com os olhos a totalidade do que é mostrado, os fragmentos distintos vão aos poucos se consolidando no límpido panorama que deixa entrever enfim o conteúdo discursivo subjacente. Se observados apressada e isoladamente, não se verá muito além de imagens arrebatadoras e palavras dilacerantes, mas também chistes bem-humorados – como não poderia deixar de ser para uma artista cujo um dos maiores dons é a iconoclastia.

Falando nisso, no sentido puramente estético, a apresentação no Porto Alegre Em Cena obteve um ganho acima da assistida no espaço do Teatro de Contêiner. Isso porque o recorte da caixa cênica deixou perceber com maior clareza o apuro visual da obra, com um desenho de luz cuidadosamente pensado para o novo espaço a ser ocupado. E se na apresentação vista em SP a impressão do movimento dos corpos, dos fluidos e odores masculinos imperavam no ambiente, na assistida aqui, no nosso requintado Theatro São Pedro, o corpo da performer e o odor da lagosta que tomou conta do ambiente deixaram a impressão para alguns – através de estímulos sensoriais agressivos – que para ser uma mulher neste mundo é necessário se associar àquilo que não é humano, pois só assim a Fêmea Alfa conseguirá domar novamente a matilha que por instinto planeja devorá-la. Assim, não é de espantar que – tendo feito tentativas de comunhão com o animal-homem em diversos momentos durante o espetáculo e não obtendo sucesso em nenhuma delas – a obra termine com uma afirmação sui generis contida tanto como anotação na dramaturgia original quanto presente em cena de modo simbólico: “CAROLINA E A LAGOSTA FAZEM AMOR”. Misturada à lava do vulcão lunático da criação, a nova Carolina Bianchi sabe agora como arder e também como devastar.

 

PARTE IV - MARY SHELLEY E FRANKENSTEIN MORREM ABRAÇADOS

 

Transitando entre as cenas alternando-se nas forças arquetípicas da Santa e da Herege, podemos ver um lampejo da leitura possível de Carolina Bianchi para a Fêmea Alfa: um ser pra sempre aprisionado na tentativa de encontrar um elo com o Homem, a criatura esta fragmentada por natureza e irremediavelmente incompleta, não preenchida. Na cosmovisão de Bianchi, a força feminina que forjou uma sociedade aparentemente dócil através do afeto, da dedicação e da resignação (“Eu te dei os melhores anos da minha vida, mas isso não tem importância porque o amor sempre vale a pena”), não foi capaz de educa-lo a ponto de impedi-lo de se desmembrar rivalizar com suas próprias partes fundantes, levando-as a competir entre si no antiquado museu do pavoneamento masculino e do narcisismo autocomplacente. E se neste ambiente empoeirado construído por uma sociedade profundamente patriarcal a imaginação e o ímpeto criativo de uma Mary Shelley, de uma Emily Dickinson, ou de uma Artemisia Gentileschi estão fatalmente fadados ao segundo plano no panteão que privilegia os bustos dos grandes homens da civilização, então somente com a coragem e a revolta de uma Sísera ou de uma Judite é que o Macho será um dia subitamente acordado de seu doce, tranquilo e milenar descanso.