AGORA \ Crítica Teatral
CABARÉ DIVERSIONES
Mateus Araújo (PE), em Recife, 01/09/2015
Grupo olindense Vivencial Diversiones volta à carga 40 anos depois
"Cabaré Diversiones" se vale da estética do teatro de revista para fustigar preconceitos, moralismos e o quadro político

A subversão resiste ao tempo

A passagem do tempo aponta outros caminhos e perspectivas, embora a essência do que fomos continue intacta no presente. Prova disso é que, 40 anos depois de extinto, o grupo olindense Vivencial Diversiones volta à cena mostrando que o riso escrachado e as críticas ácidas à moral e aos bons costumes vão além do tempo - estão no cerne da sua criação. Diversão para os anárquicos e consolo aos saudosistas, as vivecas (como eram e são chamados os integrantes do grupo) renasceram no último dia 20 de agosto de 2015, no Recife, com o espetáculo Cabaré Diversiones.

A montagem atualiza o elenco e o sarcasmo do coletivo que foi ícone da subversão teatral em Pernambuco durante a década de 1970, fazendo parte do contexto da contracultura e do tropicalismo junto a nomes como os cariocas Dzi Croquettes. Nesta reelaboração do Vivencial, dirigida por Henrique Celibi (integrante da primeira formação do grupo), os conflitos em cena evidenciam que os tempos são outros. Atualmente o Vivencial não lida com a ditadura que afrontou no passado, mas a “revive” num contexto em que o discurso conservador segue tão forte como nas décadas de repressão. Teatro de Revista por essência, o Cabaré se vale de dublagens musicais, coreografias cafonas e sarcasmo para expor, entre outras coisas, preconceitos e moralismos ainda atuais.

No elenco, formado em sua maioria por atores desconhecidos, estão moças e rapazes ávidos pela alegria de reavivar o mítico grupo. Mas percebe-se um pudor que faz o desbunde de 40 anos atrás passar longe dessa nova montagem. Comparada com a transgressão do passado, o novo Vivencial é bastante tímido. A nudez, por exemplo, parece velada e o nu frontal é visivelmente evitado, com poucas exceções, como as cenas do ator Cássio Bomfim. Aliás, Cássio tem uma desenvoltura comprometida pela inconstância do corpo e uma dicção incompreensível.   

Os textos assinados por Carlos Eduardo Novaes, Glauco Mattoso, Fernando Pessoa, Luis Fernando Verissimo e Guilherme Coelho originam quadros separados, em que se alfinetam comportamentos, religiões e referências pop da cultura contemporânea. A dramaturgia – cansativa da metade para o final do espetáculo, pela redundância ou alongamento dos quadros e pela incoerência nos excessos dos quadros musicais – também não esconde um novo olhar político.

Se um dia o Vivencial alinhou-se com setores políticos de esquerda na contestação ao regime militar, agora o alvo das críticas é a esquerda que chegou ao poder. Eles não aliviam as investidas à presidenta Dilma Rousseff e ao ex-presidente Lula, por exemplo. Por outro lado, são maleáveis com o conservadorismo dos políticos religiosos e com as polêmicas em torno do deputado federal Eduardo Cunha, presidente da Câmara.

Cabaré Diversiones é também metateatral. Intercalando as cenas, surgem diálogos sobre o ofício de artista e quadros simulando os bastidores do musical que os atores chamam de “Broadway tupiniquim” .

O espetáculo revela bons humoristas. Um deles é Filipe Enndrio, que começa timidamente engraçado interpretando uma criança desengonçada, mas cresce no decorrer da montagem, fazendo de cada novo papel uma excelente criação cômica. É impagável, por exemplo, sua Cleópatra implorando para ser picada por uma cobra.

Mas os destaques são mesmo Henrique Celibi e Sharlene Esse (também ex-viveca, que nas noites recifenses se traveste de Gal Costa para fazer shows). Assistir a Celibi no papel de “âncora” do Cabaré Diversiones, debochando da arte e da plateia com versos afiados, ou ainda na cômica dublagem de Maria Bethânia, e em seguida ver Sharlene na sua preciosa Gal Costa, é confirmar que, sim, as vivecas voltaram. Pelas palmas e euforia desse retorno, é fácil perceber que daqui pra frente ninguém segura o Vivencial.