AGORA \ Crítica Teatral
MILHÕES CONTRA UM
Renato Mendonça, Porto Alegre, 08/03/2019
Formado por membros da família Azevedo, grupo gaúcho Oazes estreia discutindo questões de gênero e engajamento da arte
Direção de Ricardo Zigomático rejeita convenções e dispõe os espectadores em espiral. Crédito da foto: Amanda Gatti

Uma família enfrenta o vórtex

O mal do século tem a forma de um turbilhão. A todo instante, somos instados a pegar o trem-bala da história, sobreviver a sucessivas ondas de tragédias, escândalos, drinques da moda, maratonas de seriados, hard and fake news. No caso do Brasil, imerso em profundas crises ética, social, política e econômica, o ralo parece muito mais próximo que a praia.

É nessa sensação de redemoinho que o espetáculo Milhões contra Um aposta alto. O ponto de partida é o texto O Doido e a Morte, do português Raul Germano Brandão (1867-1930), em que um homem invade o gabinete de um governador com uma bomba que ele afirma capaz de arrasar vários quarteirões. O dois mantém uma conversa tensa, com a perspectiva da explosão que dará cabo inclusive à vaidade do figurão em seguir escrevendo suas peças românticas e alienadas. Na encenação do diretor Ricardo Zigomático, a trama se atualiza: temos então uma mulher-bomba expondo as contradições do governador.

A mudança de gênero de um dos personagens, embora assente a questão de gênero como o principal fundamento da peça, é parte de uma encenação ambiciosa. Pode-se sentir o vórtex, o esforço para manter-se à tona, a luta para identificar referenciais fixos, a urgência de nos posicionarmos. Tudo é cru, direto, próximo, instabilizador.

O público percebe o tamanho da encrenca assim que entra na sala: as cadeiras estão fora de lugar, dispersas. O grupo Oazes (Lisiane, Carlos e seus filhos Vitório e Casemiro) conversa informalmente com a plateia, dando detalhes sobre a montagem e o coletivo, revelando que os quatro são da mesma família enquanto dispõe as cadeiras em forma de espiral e acomoda os espectadores. Nada de truques, estamos todos no mesmo barco, solidários no olho do redemoinho.

Sucede-se um tour de force de 50 minutos entre Lisiane e Carlos. É ela quem assume a ofensiva, encurralando seu oponente com o argumento de que a purificação e a resolução de conflitos serão atingidas por meio da morte. Como uma grande inquisidora, ela nos imerge em um mar de conflitos: mulher x homem, loucura x sanidade, mediocridade do cotidiano x grandes gestos, arte pela arte x arte engajada, ficção e realidade, atuação x representação.

O espectador está literalmente em cena, despojado da situação confortável de plateia tradicional na medida em que é obrigado a encarar outros espectadores e constrangido a se desalojar das cadeiras durante o espetáculo. Tolerância zero para ilusões: a operação de som e de luz é feita em meio à plateia. Lisiane e Carlos representam personagens, mas há momentos em que se percebe estarem expondo conflitos e referências pessoais. A luz dura, impessoal e fria, por vezes desconfortável, mantém o estado de prontidão.

O acúmulo de conflitos, o tom ansioso, o final em aberto, a nossa desesperança com tudo isso que está aí acabam por compor uma peça, ou uma experiência, marcada pela impiedade. Talvez esse grau de dureza (com um tantinho de ternura) seja o que é necessário em tempos de redemoinho, mas o fato de Carlos e Lisiane criarem Milhões contra Um ao lado dos filhos Vitório e Casemiro se constitui em receita sutil mas potente: há que se exigir energia e ímpeto, mas também a solidariedade, o afeto e a tolerância que caracterizam as melhores famílias.

A alienação do artista é um dos conflitos de "Milhões contra Um". Crédito da foto: Adriana Marchiori