AGORA \ Crítica Teatral
ISTO É UM NEGRO?
Paloma Franca Amorim, São Paulo, 09/01/2019
Destaque no FIT Rio Preto 2018, espetáculo dirigido por Tarina Quelho desafia o racismo
Coletivo paulista Chai-Na expõe estratégias e mazelas das políticas de exclusão dos negros. Fotografia: Rodrigo de Oliveira

As dores de quem resiste

Aimé Cesaire, poeta e ensaísta da Martinica, escreveu no livro Discurso Sobre o Colonialismo: "estas cabeças humanas, estas colheitas de orelhas, estas casas queimadas, estas invasões góticas, esse sangue que fumega, estas cidades que se evaporam à lâmina do gládio, não é a tão baixo preço que nos desembaraçaremos delas.".

De fato, não é a baixo preço que o espetáculo Isto é um negro? apresentado a 6 de julho de 2018, na programação do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, traz à tona a cartografia dolorosa dos efeitos do racismo que determinam a função do negro na história ocidental. Diante de nós moldam-se esquemas de uma realidade cruelmente racializada e racista às marretadas e aos incêndios.  As cenas se desenredam em uma espontaneidade vibrante dos atores que, em gestos narrativos, expõem também a condição viva e transmórfica do racismo, essa prática branca que se adéqua, em jogadas perversas e profissionais, a todos os sinais de avanço da emancipação dos povos subalternizados.

Isto é um negro? nos apresenta narrativas, ações, imagens calcados na dor e nas trajetórias de resistência de corpos que precisam dilatar o signo da negritude determinado historicamente pela voz dominante, a sociológica branquitude assentada no sistema capitalista a coisificar pessoas pela ordem única do lucro financeiro. Em Isto é um negro? esse signo em dilatação, mesmo em face das interdições desumanizadoras, produz ações e reações potencialmente modificantes do ponto de vista do imaginário social, do labor da ficção e das práticas teatrais no estado de São Paulo.

Nesse sentido, é impossível me furtar de minha condição de espectadora e crítica negra, indígena, amazônida, num sistema de festivais de teatro cuja regência ainda se dá pela predominância branca e sudestina. Aqui, portanto, redimensiono esse texto para a primeira pessoa afetiva, maculando a suposta tradição da crítica acadêmica estabelecida na cena de São Paulo como uma articulação neutra de opiniões sobre o fenômeno da linguagem teatral.

Pesco no ar as palavras de Discurso Sobre o Colonialismo porque a escrita de Aimé Cesaire, para além dos necessários questionamentos antirracistas, também se manifesta às dobraduras do poético. Aimé realiza com destreza o enlace entre a metáfora e o pensamento materialista e a mesma operação de diálogo se dá em Isto é um negro?. A dança, ora angustiante, ora despojada, entre poesia e política soa conceito condutor da obra.

A prerrogativa do título, alimentada pelas eleições estéticas de encenação, iluminação, sonoplastia, interpretação e texto, já se anuncia em mim como uma espécie de interlocução possível do processo especulativo de minhas vivências. O que é ser um negro? O que é ser uma mulher negra? O que significa saber-se a partir da racialização histórica que encontra no chamado espírito contemporâneo sua continuidade política de exclusão? 

Pessoas negras têm axilas escuras, ancas largas, cheiro forte, são boas de cama. Mulheres negras não recebem anestesia epidural na hora do trabalho de parto porque aguentam todo o tranco.

(A mãe negra, que me reside no peito, ao leito de morte aprende a não pensar na finitude existencial do romantismo alemão, só resta a si pedir às filhas que concluam as universidades porque isso garantirá um futuro melhor no qual ela já não estará.)

O negro, portanto, bem como o sertanejo figurado por Euclides da Cunha em Os Sertões, é um forte.  Mas essa tipologia resolve nossas existências no mundo? Esse mundo que, segundo a dramaturgia de Isto é um negro?  é um só e precisa ser mudado. A tese da força ontológica racial não foi o princípio filosófico que nutriu 400 anos de escravidão física e simbólica?

O achatamento do que significa ser negro surge portanto como uma forma de expressão totalitarista que resume nossas presenças a possibilidades voltadas, tão somente, à produtividade da força de trabalho braçal e da biologia.

Tudo isso está no espetáculo, à luz de uma encenação que explora recursos epicizantes reveladores do teatro enquanto zona de debate e confronto estético. Confronto também é o termo que sugiro como designação aos procedimentos dos atores e atrizes em cena que se apresentam munidos de uma interpretação engendrada pela conversa direta e provocativa com o público.

Há vibrações líricas no espetáculo que contrastam com a aridez doída de muitos discursos. Imagens traçadas por corpos desnudos, diversos em suas semelhanças, a derrubar muralhas tecnicistas, mistificadoras, dessubjetivantes, em busca de uma possibilidade aparentemente óbvia: esses corpos desnudos, negros, plurais, querem ser e são corpos de gente.  

Originalmente publicada no site do Festival Internacional de São José do Rio Preto de 2018