AGORA \ Crítica Teatral
FISIOLOGIA DO DESESPERO
Carlinhos Santos, Porto Alegre, 16/11/2018
Espetáculo da coreógrafa Eva Schul, destaque do 3º Gestos Contemporâneos, expõe dilemas da contemporaneidade
Carla Vendramin, Viviane Lencina e Renata de Lélis trafegam entre a dança e a performance. Crédito das fotos: João Mattos

Sobre parir a redenção

Seria a cena de origem, da mulher na floresta, já expulsa do Paraíso e fadada à tragédia da culpa pelo pecado do corpo? Com essa possível alegoria na abertura, Fisiologia do Desespero, que estreou em julho no Instituto Ling e integrou a programação o 3º Gestos Contemporâneos, apresentado dia 11, no Teatro do SESC, é um trânsito estético entre a dança e a performance, ancorada por referências do teatro. É, portanto, um exercício por si só estimulante por não se contentar no enquadramento de uma só linguagem, mas pela capacidade de enriquecer-se dessas várias dessas possibilidades.

Quatro mulheres – as cocriadoras Carla Vendramin, Renata de Lélis e Viviane Lencina, mais a coreógrafa Eva Schul – organizam imagens, referências e discursos coreográficos sobre acossamento, distorção e deformação do humano em inferências que brotam do corpo em movimento para referendar e tensionar justamente seu lugar social – e que produz tanta reverberação sobre as instâncias do feminino, do masculino e demais possibilidades entrecruzadas. Não à toa o desequilíbrio é constante na gestualidade. Há frêmitos e tremores. Há frisson e há fluidez atravessadas nos gestos. O corpo seminu se veste de metáforas, meio mulher, meio cavalo, muito surreal. Bestialidades fetichizadas em vison e mordaças. Freios nas sensações, liberdade assistida em vitrines para negociar volúpia, lascívia e estereótipos de mulher objeto, abjeta da coisa em si.

Como vem construindo em sua trajetória vigorosa na cena da dança gaúcha e brasileira, Eva Schul dá à carne-corpo muitas possibilidades de memória. Nessa obra, refirma sua capacidade de apreender o espírito do tempo e fala dos dilemas da contemporaneidade. Organiza um manifesto sobre as inconstâncias, sobre reexistir e resistir diante de maquinarias de opressão, explicitando um mal estar pela emergência de contextos totalizantes, excludentes, falocêntricos, heteronormativos e, obviamente, opressores. Resolve e enuncia estas questões com as habilidades e inteligência artística de suas três colaboradoras, nos engates e deslizes, nas sutilezas, nas envergaduras e encaixes dos movimentos e, ainda, nas vigorosas posturas de cena, ora em solos, noutras revezando em duos e trios. E, de novo, o trabalho não se prende a apenas uma estética, mas transita e busca recursos em diferentes técnicas da dança para atestar o vigor do corpo que se reinventa o tempo todo enquanto dança.

Ainda que um discurso/estudo denso sobre esse desespero que nos abarca enquanto humanidade que parece querer revisitar a barbárie, o trabalho também faz troça das meninas-venenos e ou das eguinhas pocotós que insistem no cadafalso da sedução fácil. Um burlesco que poderia ser cômico, mas se anuncia trágico.

Tudo é enriquecido por uma luz que também coreografa e uma trilha que faz live PA dos sons emitidos em cena, sussurros da inquietação em looping. Progressões e reverberações do equilíbrio estético, sensório e sígnico dessa dança-performance-instalação carregada de fruições impactantes. Afinal, entre as sombras da natureza do início e da urbe no epílogo, saindo da caverna alienante para restaurar algum mito da verdade, Fisiologia do Desespero atesta que mulheres têm a capacidade de subverter o que está posto – e que pesa, inflama e inquieta – para, entre líquidos seminais, mênstruos e águas lustrais, redimensionar a vida. Afinal, não há remissão sem reinvenção. E o jugo é apenas uma instância. Resta parir o devir.

                                                                                                     

Gestos potentes

Realizado pelo SESC em parceria com o Theatro São Pedro e a Secretaria do Estado da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, em sua terceira edição Gestos Contemporâneos fez um significativo recorte da produção contemporânea gaúcha de dança.

O Gran Fuleiro Circus, da Companhia H, dirigido por Ivan Motta, e Contos de Falta, assinado por Andrea Spolaor e com a Cia. Municipal de Caxias do Sul, são opções de uma dança que também se propõe a divertir, entreter e agradar a iniciados e a um público mais amplo, na perspectiva da busca por novos espaços e contextos de comunicação.

Em outro contexto, Fisiologia do Desespero, Vaga, da Geda Cia de Dança, de Maria Waleska van Helden, e Patas Arriba, com direção e coreografia de Rui Moreira, são trabalhos que enunciam questões importantes sobre religiosidade, opressão, migrações, políticas sociais, aculturação, afro-brasilidade. Cada um traz temas fundamentais para o debate na contemporaneidade. E, também, colocam a dança como uma importante linguagem artística na construção de pensamentos e na proposição de reflexões para a sociedade. Ética e estética atravessadas e imbricadas, se amalgamando enquanto produto artístico.

A programação teve ainda o espetáculo Balada da Virgem Em Nome de Deus, da Companhia Carne Agonizante, de São Paulo, com direção e coreografia de Sandro Borelli, que também participou de um dos dois Diálogos da Dança, importante espaço aberto para encontro e debates. A outra convidada foi a pesquisadora caxiense Sigrid Nora.

Nos dois dias de Diálogos da Dança, com o público possível, mas longe do ideal, a necessidade da construção de redes de colaboração e de formas de produção e sustentação – para a manutenção da dança em si – foi pauta de conversas também mediadas pelo afeto, afirmando a importância do Gestos Contemporâneos para dinamizar, potencializar e qualificar a dança contemporânea gaúcha.