AGORA \ Crítica Teatral
CONCENTRAÇÃO
Soraya Belusi (MG), em Porto Alegre, 18/08/2015
Espetáculo transporta o universo de um campo de concentração para dentro de um reality show
Os atores se revezam em uma série de personagens nas cenas do espetáculo

Somos todos culpados

Misture o formato dos reality shows contemporâneos ao cotidiano de um campo de confinamento e trabalhos forçados. No lugar de prisioneiros de guerra, voluntários participantes em busca do sucesso. Em vez de soldados nazistas, um batalhão de choque para manter a segurança. Saem os chefes de Estado e sua gana pelo poder para dar lugar às grandes empresas midiáticas e sua fome pela audiência. Essas são algumas referências que alimentam a criação da diretora Ana Paula Zanandréa em Concentração, espetáculo em cartaz em Porto Alegre.

A criadora parte do romance de Amélie Nothomb, Ácido Sulfúrico, para conceber conjuntamente com o grupo de atores a dramaturgia do espetáculo.  Se a fonte de inspiração do trabalho narra, em linhas gerais, as atrocidades de um campo de concentração no qual duas mulheres vivem uma história de amor, a montagem teatral transporta este universo para dentro de um programa de TV, no qual os condenados cometeram o único crime de querer aparecer na televisão  a qualquer custo.

A situação originalmente potente, porém, não encontra formulação à altura na elaboração da escrita dramatúrgica e da concepção da cena em Concentração. O espetáculo apóia suas referências estéticas no próprio universo que pretende criticar: estão lá as reproduções caricaturais dos personagens que fazem parte dos bastidores da televisão – o apresentador gay, o diretor canastrão e mau, a produtora babaca  –, os estereótipos dos policiais nos moldes do Bope – aqui chamados de Kapos, mas que podiam ter saído de uma cena de ‘Tropa de Elite’ –, os prisioneiros candidatos à fama – representados como vítimas da manipulação e da ganância alheia.

Quando a paródia não alcança seu poder de ironia e destruição, mais que criticar seu objeto de reflexão, acaba reforçando os estereótipos que pretendia condenar. E é nessa opção que Concentração se sustenta. O problema reside não no que se quer dizer, mas na forma escolhida para a construção do discurso teatral.

A direção de Ana Paula Zanandréa opta por uma espécie de “sistema coringa” em que a utilização de elementos de cena e figurino é capaz de identificar a mudança de personagens, com os atores se revezando em diversos papéis “tipo”. Esta escolha traz consigo o risco de manter todas as atuações em um registro facilmente identificável, mas frágil em sua composição artística, quase sempre ressaltado por trejeitos e exageros que pretendem alcançar o cômico. As atuações ficam aquém da potência necessária para possuir uma acidez crítica. Em nenhum segundo a montagem consegue gerar um incômodo em quem assiste ao que deveria ser um circo dos horrores da humanidade.

Construída coletivamente durante o processo de criação, a dramaturgia tende a “carregar os rastros de sua fabricação” (Josette Féral). Isso se torna notável em alguns momentos do espetáculo, em que as cenas se elaboram como jogo e improviso na utilização de objetos, no espaço, na música, materiais que ainda carecem de elaboração por se assemelharem demais a exercícios de sala de ensaio, mas que guardam em si grande possibilidade de desenvolvimento. É quando se afasta do referencial televisivo (na forma e no conteúdo) para poder criticá-lo que a montagem alcança seus momentos mais potentes.

É inquestionável que o elenco, formado por Frederico Vittola, Miriã Possani, Pedro Nambuco, Priscilla Colombi e Sofia Vilasboas, demonstra total engajamento na construção da cena. Mas algumas soluções propostas no palco beiram o indefensável, como a  tentativa de simular um rewind na cena do programa de TV ou o tango-bolero-dança-do-acasalamento para retratar a sedução entre vigilante e prisioneira.

“De quem é a culpa?”, nos questiona o tempo inteiro o espetáculo. A pergunta não serve apenas para refletir sobre a situação apresentada em cena, mas levanta questionamento sobre o próprio fazer teatral. Não há inocentes: erra quem repete os padrões  que o espectador já conhece e erra o espectador, aquele que se mantém sentado, “assistindo passivo a esse espetáculo brutal”.