AGORA \ Crítica Teatral
ÀS VEZES EU KAHLO
Carlinhos Santos, Porto Alegre, 29/09/2018
No novo espetáculo da GEDA Cia de Dança, coreógrafa Maria Waleska van Helden mergulha na vida de Frida Kahlo
Pintora mexicana ganha forma e emoção através da bailarina-intérprete Graziela Silveira. Crédito da foto: Sabrina Canton van Helden

GEDA entre (i)mobilidade e (in)tensões coreográficas

O verbete Frida Kahlo tem sido recorrente no mundo das artes e do entretenimento. Na comemoração de seus 35 anos na cena da dança gaúcha, a GEDA – Cia de Dança Contemporânea, buscando referência no ícone da pintura mundial, estreou Às Vezes Eu Kahlo no Theatro São Pedro (e depois fez apresentações nos dias 28 e 29 de setembro, no Teatro Glênio Peres), com programa que incluía a obra Verde (in)tenso, de seu repertório.

Buscar referência na vida e obra da pintora mexicana é um trunfo dada a riqueza da obra e da trajetória da artista. Na abertura do solo concebido por Maria Waleska van Helden, um corpo nu surge à boca de cena. É desse corpo feminino, alquebrado, de dores e de desafios sobre mobilidade num contexto desafiado pela hegemonia do masculino, que trata o trabalho. Visto por esta ótica, Às Vezes Eu Kahlo ganha potência na enunciação de uma dança que se articula pelas partes (que faltam) e o todo de uma trajetória sobre superação (que reverbera).

Na construção de partituras coreográficas em que a muleta da personagem vira extensão do corpo da bailarina-intérprete Graziela Silveira, há um desequilíbrio que pontua contextos históricos e possíveis leituras sobre fragilidade, desacomodação e, também, vigor de uma figura feminina que soube transitar, ainda que imóvel, pelos desafios dos papéis sexuais, das convenções sociais e dos jogos políticos. Há uma graciosidade manca em alguns dos movimentos. A obra sugere algo de amputação de trajetos e, ao mesmo tempo, da necessidade histórica de reinventar esse corpo feminino, de desvestir o luto para abraçar a paleta das cores de Frida Kahlo.

Às Vezes Eu Kahlo tem a habilidade de lidar com materiais cênicos que lhe dão plasticidade vigorosa. Os fios que prendem a intérprete no começo do trabalho, o maneirismo dos movimentos das escápulas da personagem, os vídeos projetados, a sonoridade, a iluminação contribuem positivamente. No entanto, toda essa riqueza cênica imobiliza e até ofusca a potência coreográfica que o trabalho pode ganhar. E não se calar para os discursos lineares e as legendas ainda é um desafio à dança contemporânea.

Verde (in)tenso sinaliza um conjunto de informações e procedimentos que marcaram os 35 anos do GEDA na cena da dança contemporânea gaúcha e brasileira. Os maneirismos da dança-teatro, as figuras cênicas, as narrativas, o trunfo do apelo à sensorialidade com o uso da erva-mate espalhada pelo linóleo e lançada ao ar, afirmam um tempo e os ventos dessa trajetória. São uma assinatura artística. Nela estão inseridas questões sobre o feminino, dos impedimentos e das expansões, das tosquias e das bailantas, das bravatas e das bravuras de um quase continente ímpar ao Sul do Brasil.

Se em alguns momentos essa coleção de informações e referências soa algo datada, remetendo a um contexto em que a afirmação do gauchismo soava quase vanguarda, há que se conceder à remontagem a condição de revisão de procedimentos, repetição para afirmação de uma estética, de um estilo. Nesse retrospecto, para além das alegorias estetizantes, as tensões e as intenções desse verde expandido se perdem no desenho coreográfico de uma pampa heroica, mas que, imbricada em sua paisagem, anuncia também desafios, planuras e miragens.