AGORA \ Crítica Teatral
DAS TRIPAS SENTIMENTO (2018)
Carlinhos Santos, Porto Alegre, 21/09/2018
Coreógrafa June Machado recria espetáculo que estreou há 18 anos homenageando a cantora Elis Regina
"Das Tripas Coração (2018)" coloca em cena dança, teatro e recursos circenses ao som dos sucessos de Elis. Foto: Gui Malgarizi

Vozes corporais para Elis Regina

Como enfrentar cênica e coreograficamente o tal furacão Elis? Aquele cuja voz se transmutou em estrela cujo brilho é indelével até hoje no ambiente da música brasileira?! Das Tripas Sentimento (2018), em cartaz dias 21, 22, 23, 28, 29 e 30 deste mês, às 20h, na Casa Cultural Tony Petzhold, investe nisso. Trata-se de uma recriação com nova seleção de repertório e direção de June Machado, que esteve à frente da empreitada há 18 anos. . Dança, teatro e recursos circenses, mais a trilha pontuada por canções interpretadas por Elis Regina, se imbricam no espaço cênico num misto de manifesto artístico e estético sobre os tempos contemporâneos.

Há, do começo ao fim do trabalho, uma clara vontade de discursar sobre questões do cerceamento das liberdades vividas pela sociedade contemporânea. Vendas nos olhos clamam por serem retiradas e a arte o faz em seu moto-contínuo. É preciso ver, é preciso enfrentar, é preciso dançar sobre isso. A voz ganha corpo, os corpos falam e cantam o tanto de contundência que, repita-se, Elis deixou como legado impecável à MPB. Eis um dos trunfos da remontagem: reorganizar, atualizar e reverberar o que já foi tão significativo.

Na mistura das linguagens artísticas, há vigor no aproveitamento dos diferentes recursos do espaço. As cenas e as danças se esparramam pelo palco, por baixo dele, pela sala, pelas paredes, alcançando empatia. Há focos pontuais em algumas das performances, quando se evidencia a potência de alguns dos intérpretes – como é bom ver o vigoroso corpo-presença de Lu Paludo; é significativo ver Diego Mac em cena, na trama da dança-DNA que a mãe, June, põe em cena outra vez, e ao mesmo tempo afirmando sua linguagem, “macarenando” Gracias a La Vida com humor; é contundente ter Cassandra Calabouço fazendo uma travessia carregada de metáforas.

Por constituir-se de diferentes corpos, com diferentes danças ou performances cênicas, Das Tripas Sentimento (2018) tem a atualidade desses atravessamentos artísticos e estéticos da cena contemporânea. Ora há escolhas mais da ordem da diversão, acrescidas de humor e outras alegorias dramatúrgicas e coreográficas mais palatáveis, noutros momentos o trabalho se adensa, tal qual a voz de Elis, como a emoção de ouvi-la que sempre acomete os corpos dispostos a essa experiência. Aí o olho escolhe um foco da cena e se aquieta, se inquieta.

Romaria, Cartomante, Gracias a La Vida, Dois pra lá Dois pra Cá, Deus Lhe Pague, Travessia, Alô Alô Marciano, Como Nossos Pais, Velha Roupa Colorida, dentre outras músicas, estão ali reafirmando uma voz, mas dando coro a outras vozes artísticas. Num Brasil de querelas, amarras e mordaças, é cada vez mais necessário ter uma arte posicionada, comprometida com a produção de pensamentos – no caso desta montagem, há um esforço ainda mais corajoso de estar em cartaz sem maiores patrocínios ou recursos de editais. Assim, na cachaça e no sorriso, nas tripas e nos sentimentos, Elis ressurge cênica e coreograficamente como homenagem, arrebatamento e reinvenção. E é preciso ter força, ter garra, sempre.