AGORA \ Crítica Teatral
ABOBRINHAS RECHEADAS: REI ROBERTO
Carlinhos Santos, Porto Alegre (RS), 21/09/2018
Coreografias criadas a partir de versos das canções de Roberto Carlos, temperadas com humor, são os ingredientes do espetáculo da Macarenando
Nilton Gaffree Jr., Juliana Rutkowski e Daniela Aquino, da Macarenando Dance Concept, estão em cena no palco do Instituto Ling

Recheios para a dança contemporânea

Há muito a pecha do hermetismo persegue a dança contemporânea. Isso contribui, de forma recorrente, para o esvaziamento das salas de espetáculo, para certos questionamentos sobre a importância ou validade de trabalhos dessa ordem e mesmo para o desdém de algo que se anuncie com essa nomenclatura. Esse contexto pede, portanto, diálogo com o público, queda de alguns dogmas e revisão de alguns procedimentos.

Pede humor, disposição para despir-se de regras e eruditismos, vontade de ser popular sem conceder ao raso, diriam os diretores Diego Mac e Gui Malgazari, que assinam o espetáculo Abobrinhas Recheadas: Rei Roberto, que está em cartaz no Instituto Ling dias 15 de junho, às 20h, 16 de junho, às 18h, 22 de junho, às 20h, e 23 de junho, às 18h, dentro do projeto Ponto de Teatro.

Partindo do jogo coreográfico “Dance a Letra”, a dupla tem experimentado levar esta brincadeira dançada ao palco, esboçando a ideia do Stand-Up Dance Comedy. Em 2009, na estreia, foram eleitos Melhor Espetáculo pelo Júri Popular no Prêmio Açorianos de Dança. Um sinal de que estavam conseguindo a tão desejada comunicação com o público. Depois, em 2017, companhia Macarenando Dance Concept (dale a tu cuerpo!!!), o grupo fez Dance a Letra Grupão Pocket Live Gestos Caetano, até chegar ao repertório de Roberto Carlos deste novo trabalho.

Mas o que, enfim, o Maracenando dá aos corpos em cena? Dá a liberdade do improviso, recurso que só se consegue a partir de muita habilidade técnica; dá percepção do timing para entrar e sair de cena (ainda que se trabalhe com a cena aberta, uma vez que todo o grupo permanece no palco); e também dá aos corpos dançantes a potencialidade de recriar uma coleção de gestos banais, transformando-os em linguagem coreográfica. Este é um dos achados, um dos recheios saborosos dessas abobrinhas.

A habilidade de esboçar o que seria uma trama coreográfica costurada por trecho de músicas de Roberto Carlos, talvez um dos maiores hit makers do país, estabelece de pronto a cumplicidade com o público. É a partir disso que os “números coreográficos” vão se intercalando com mais ou menos eloquência na hora de dançar as tais letras. Isso é feito com diferentes recursos e linguagens que a contemporaneidade na dança permite, tais como a mímica, a dança de salão, o teatro.

Aliás, é nesse entremeio, na fusão dessas possibilidades, que a proposta da Macarenando deve ser vista. Há um saudável exercício de margens borradas entre uma linguagem e outra que dá fôlego ao trabalho que, registre-se, também se assume como show – a abertura, os intervalos entre um momento e outro da coreografia, os figurinos, a visível comunicação com o público pelo olhar ou mesmo buscando o coro da plateia para as músicas da trilha reforçam essa condição. E, no conjunto, esses elementos assumem, sim, a vaidade da cena.

Então, cada uma das 55 letras do Rei dançadas tem suas nuances. As feras feridas do grupo são hilárias, Esse Cara Sou Eu é um jogo nonsense coletivo, Costumes tangencia a melancolia com humor, claro, a corrida explícita do bailarino em 120, 150, 200 Km/h soaria ridícula noutro contexto, mas aqui, perpassada pela tal verdade cênica (sic), é trunfo. E o que não dizer do coro final de Força Estranha – elenco de mãos dadas, cantando apelativamente ao público, que na sessão do sábado, 9 de junho, fez parte da plateia levantar e, de mãos dadas também, cantar junto?! Alguém aí falou, estudou, teorizou, pesquisou, problematizou sobre dispositivos que instruam contextos, propõem atravessamentos, agenciam reverberações?  Pois, o Rei Roberto, a Macarenando e essa tal dança contemporânea promovem isso tudo de forma prazerosa. E essa opção não exclui as outras possibilidades de se fazer dança, as pesquisas corporais, a aposta em processos mais do que em produtos coreográficos, os hibridismos todos. 

Todas estes achados que enriquecem as muitas possibilidades de leitura e de apreciação de Abobrinhas Recheadas: Rei Roberto qualificam, no conjunto, a proposta da Macarenando Dance Concept. Não há qualquer problema em buscar (e conseguir!) esse contato com o público, unindo dança e humor. O que é preciso colocar em questão é o quanto esses procedimentos podem render enquanto linguagem ou podem se tornar o risco de repetição de uma fórmula, tornando-se uma armadilha e derivando para um possível engessamento dessas mesma ações coreográficas.   

Repetir é um dom do estilo, já sinalizou Manoel de Barros. Mas isso precisa do refinamento, da minúcia para encontrar novas possibilidades para um jeito de refazer o já posto e experimentado com êxito. É dessas forças imbricadas que se abrem vetores vigorosos para se continuar dançando as letras todas que a contemporaneidade nos oferece e que a Macarenando vem experimentando. E, nesse contexto, as abobrinhas vão requerer novos e novos recheios para que o público se dê ao desfrute de adentrar às tantas nuances e possibilidades da dança.