AGORA \ Crítica Teatral
A MULHER ARRASTADA
Renato Mendonça, Porto Alegre (RS), 04/06/2018
Violência é tema do texto de Diones Camargo que volta a cartaz após estreia no Palco Giratório
Montagem é inspirada em Claudia Silva Ferreira, mulher negra assassinada pela PM carioca. Crédito: Regina Peduzzi Protskof

Dissecando o Brasil

A coordenadora do 13° Palco Giratório SESC Porto Alegre definiu os 22 dias de espetáculos e de atividades do evento sem rodeios.  “Agora é para valer”, disse Jane Schoninger, aludindo ao tom militante que muitas atrações do festival usaram para fustigar violências históricas do Brasil, ligadas a gênero, a etnia e a classes sociais. Os conflitos ganharam a cena de muitas maneiras: pela celebração da vitalidade popular (Suassuna), pela violência explícita (Tom na Fazenda), pelo humor alegórico (Insetos), até pela degustação de uma pasta pela plateia (Farinha com Açúcar).

No esforço de guerra contra tantos dragões da maldade, a montagem gaúcha A Mulher Arrastada brilhou. O diferencial do espetáculo, criado a partir de uma parceria entre o autor Diones Camargo, a encenadora Adriane Mottola (fundadora da Cia. Stravaganza) e a atriz Celina Alcântara (cofundadora do grupo UTA - Usina do Trabalho do Ator), é oferecer-se generosa e provocadoramente para diversas leituras, algumas próximas do panfleto, outras alçando ao transcendente, todas elas contundentes, do tamanho do Brasil.

O ponto de partida foi o assassinato de Cláudia Silva Ferreira, auxiliar de limpeza, negra, baleada pela PM carioca durante ação no Morro da Congonha em 2014. O caso ganhou maior repercussão na mídia porque o corpo de Claudia foi arrastado por mais de 300 metros, preso ao porta-malas de um camburão. O velório foi feito com o caixão fechado, para evitar reações da população.

Diones, entretanto, escancara o que a morte (e a vida) de Cláudia tem de vergonhoso, brutal e humilhante para um país ainda nas franjas da civilização. Habilmente, o dramaturgo faz a história da mulher arrastada se imbricar com as confissões de um policial. Num primeiro momento, parece que o policial (Pedro Nambuco) é o algoz, e Cláudia (Celina), a vítima. Isso contempla a indignação primeira. A Mulher Arrastada, entretanto, pode nos levar a lugares mais distantes, que não restritos ao subúrbio carioca. É quando sentimos que o que está em cena é o desperdício de uma nação, um povo de vítimas distraídas que sacrifica seu destino pela incapacidade de encarar e corrigir o que tem de feio.

Assisti a um dos últimos ensaios antes da estreia no dia 25 de maio. Adriane e Diones deixaram claro que ainda havia detalhes técnicos a serem acertados, cenas a serem polidas, mas o estágio levemente bruto da montagem até reforçou uma sensação de precariedade que calhou bem. O piso de cimento escovado, a ausência de qualquer ideia de ilusionismo, o frio desconfortável da noite de Porto Alegre, a proximidade entre atores e espectadores propuseram um ajuste de contas entre brasileiros. Em que todos saímos perdendo.

Havia um risco para a montagem: a barbárie do crime que inspirou o texto de A Mulher Arrastada, ao mesmo tempo em que garantia a adesão civilizada e civilizatória dos espectadores, poderia limitar o impacto da montagem à denúncia de mais uma entre tantas atrocidades. Mas aí entram Diones, Adriane e Celina.

O dramaturgo arma o bote quando estabelece uma relação entre o corpo de Cláudia e o mundo em que ela vive. Em uma passagem impressionante, a personagem esquadrinha seu corpo explicando que “Meus ouvidos são meu estudo, a genitália é a escritura, o aparelho reprodutor é a minha sentença”.  Não estamos diante tão-somente de um discurso, mas de um corpo que significa, uma mapa visível de ultrajes, a ofensa materializada.

Celina Alcântara, em voz e em corpo, coloca em cena a violência da dignidade. Enquanto o policial se protege em coturnos, os pés descalços de Cláudia a consagram como arquétipo perdido de um povo feliz. Quando fica de pé sobre uma maca, acima de nós, os que assistem, ela celebra a força dos inocentes – e humilha os medíocres que, como o personagem de Nambuco, usam a negação como arma e acabam por tornar-se seus próprios algozes.

Adriane sabe que o importante é estar a serviço da ligação primordial que se estabelece entre Celina e o público. Ao som da ótima trilha executada ao vivo por Felipe Zancanaro, propõe imagens contundentes, como a do policial correndo como cobaia em torno do público, e elege a maca como ícone principal da encenação. É verdade e é triste: a maca não servirá para salvar alguém. A maca é onde se faz a dissecação de um Brasil que fracassou.