AGORA \ Crítica Teatral
TREMOR: SOBRE COMO AS COISAS FORAM CHEGAR NESTE PONTO
Michele Rolim (RS), de Porto Alegre, 25/05/2018
Com uma postura muito mais performativa do que representativa, Cia Rústica estreia espetáculo do projeto Transit 2018
Cia Rústica estreia o espetáculo Tremor: sobre como as coisas foram chegar neste ponto, a partir do texto da dramaturga e diretora alemã Maria Milisavljevic

Sobre como narrar o nosso tempo

 

Afeita a trabalhar com dramaturgias construídas em sala de ensaio, a Cia Rústica estreia o espetáculo Tremor: sobre como as coisas foram chegar neste ponto, a partir do texto da dramaturga e diretora alemã Maria Milisavljevic.

O espetáculo faz parte do projeto Transit 2018, criado pelo Goethe-Institut, no qual a instituição financia a encenação de dois criadores gaúchos para um mesmo texto, de autoria de um dramaturgo ou dramaturga alemão contemporâneo. Patrícia Fagundes e a Cia. Rústica criaram Tremor: sobre como as Coisas Foram Chegar neste Ponto (que terminou ontem), enquanto Lucca Simas e o grupojogo de experimentação cênica vão estrear Tremor (em cartaz dias 22 e 23 de maio). Os dois espetáculos voltarão ao palco do Goethe-Institut entre o final de maio e início de julho.

O texto Tremor (Beben, no original) se encaixou perfeitamente na linguagem que o grupo da diretora Patricia Fagundes vem desenvolvendo, consolidando uma estética. No seu mais recente trabalho, Fala do Silêncio (2017), que teve composição dramatúrgica de Patrícia a partir de Betrayal, de Harold Pinter, a Cia Rústica já se questionava sobre onde estávamos quando tudo isso acontecia? O que fazíamos? Nele, o que movia os personagens era o amor como ato revolucionário, tendo como pano de fundo o que ocorria no Brasil e no Mundo. E nessa montagem não é diferente. 

A peça é sem personagens, fica a critério do encenador escolher o número de atores que estarão no palco. A única indicação que se faz no texto original é “Personagens: Nós: quem quer e quantos quer que sejamos.” Não há uma trama única, nem rubricas,  são diversas narrativas, fragmentos e diálogos que abordam temas como a violência, guerra, notícias, política e redes sociais.

Um dos grandes ganhos da montagem é encenar o texto da dramaturga alemã de 35 anos como ele de fato é, sem buscar narrativas que facilitem a compreensão da plateia, ao mesmo tempo em que se buscam aproximações do texto com o espectador pela inserção de nota de referência de algumas expressões da peça. (exemplo)

Estão em cena Evandro Soldatelli, Lauro Fagundes, Priscilla Colombi e Ander Belotto e inclusive a própria diretora. 

No relato do processo de criação (confira no link) é descrita a proposta de Patrícia para a montagem: "Engrenagens expostas, do mundo e da cena, jogo revelado, ossos rasgando a carne. (...) valorizar a palavra sem deixar de explorar corporeidades intensificadas e vibrantes, como em outros espetáculos da encenadora, que investem na potência da palavra aliada a uma ética festiva e corpórea”.

De fato, o palco é transformado em uma Ágora. O tremor não é apenas das palavras na encenação da Rústica - ele se dá na fisicalidade dos corpos. Com uma postura muito mais performativa do que representativa, os atores sobem e descem escadas a todo instante, e muitas das falas são coreografadas. Aqui vale destacar o trabalho do coreógrafo Marco Rodrigues, do grupo My House, que garante ritmo ao espetáculo e provoca novos sentidos nas palavras.

No programa da peça, o grupo se questiona: “Como podemos narrar nossa história, nosso tempo, nosso mundo?”. No palco o que vemos é um espetáculo que dialoga com seu tempo, consegue dar sentido ao caos. E não é justamente isso que precisamos? Simples assim.