AGORA \ Crítica Teatral
PAÍS CLANDESTINO
Michele Rolim (RS), de São Paulo, 15/03/2018
Espetáculo, uma das atrações da MITsp 2018, reproduz discurso homogêneo
Montagem coloca em cena artistas de diferentes nacionalidades e da mesma geração, entre 30 e 35 anos foto: Guto Muniz

Até quando?

País Clandestino, a última estreia na MITsp 2018, perde a chance de discutir temas como colonialismo e identidade e acaba levando ao palco uma criação que privilegia o discurso normativo.

A montagem coloca em cena os artistas Florencia Lindner (Uruguai), Lucía Miranda (Espanha), Pedro Granato (Brasil), Mäelle Poésy (França) e Jorge Eiro (Argentina), todos da mesma geração, entre 30 e 35 anos. Eles se conheceram em 2014 durante uma residência artística no Directors Lab, do Lincoln Center Theater, em Nova York, um dos principais complexos de artes cênicas do mundo, quando formaram o grupo Les Fives Pays.

O que poderia ser um encontro entre diferentes identidades apresentando díspares olhares sobre a situação atual de cada país acabou reproduzindo um discurso homogêneo. Os corpos que estão em cena são de classe média, branca, cisgênero, com acesso à cultura e educação e que se identifica com as premissas políticas da esquerda (me
incluo nessa descrição). Todos ocupam lugares de privilégios, o que envolve a possibilidade de transitarem por diferentes locais e países, conhecerem diversas culturas, falarem várias línguas. Em outras palavras, permite viverem o benefício da globalização. Tanto que, para criar essa montagem, tiveram a possibilidade de se encontrar em uma cidade em que nenhum dos participantes nasceu ou reside. Além disso, para a criação da obra foram utilizados artifícios tecnológicos como WhatsApp, e-mails e reuniões via Skype.

No entanto, ter privilégios não é a questão (ou pelo menos ainda está longe de ser uma questão a ser solucionada). A questão é como esses artistas utilizam esses lugares de privilégio e acesso para configurar um discurso que produza tensões na norma vigente e que possa vir a mudar estruturas sociais.

Os artistas trazem depoimentos pessoais que expressam lembranças familiares, preconceitos acerca de seus respectivos países e fatos históricos. No entanto, por conta do enfoque dado, o discurso autorreferencial parece estar à serviço de um exibicionismo, distante de uma fala que possa reverberar em outras esferas sociais epolíticas.

O cerne do espetáculo é o encontro de pessoas de nacionalidades diferentes falando de seu lugar de enunciação, mas o quanto existe realmente de diversidade de pontos de vista e de realidades? Ambas são muito parecidas. Ainda que exista um abismo entre as condições de vida de um país latino-americano e de um país europeu, esse abismo só é vivenciado por uma classe desfavorecida, o que não é o caso. Quem tem dinheiro também pode desfrutar de uma vida, digamos, “europeia”.

A pergunta que se coloca é: em um contexto mundial no qual vemos emergir novos fascismos, conservadorismo, e a retomada de uma extrema direita, a quem esse discurso homogêneo serve?

Precisamos neste momento mais do que apenas expor fatos históricos, autodocumentais e pixar cartazes com frases de “Fora Temer”. Precisamos começar reconhecendo premissas básicas: trabalhar no que se gosta não é um ato libertário, superar o medo viajando não é ter coragem – são questões de privilégio. A discussão da peça está
focada em um recorte especifico de classe e raça e esquece a perspectiva ampla do nós.

Ainda que a forma do espetáculo traga questões do teatro contemporâneo, como o borramento das fronteiras entre o real e a ficção, a interação entre público e artistas, o uso de diversos idiomas e projeções audiovisuais, ainda assim é insuficiente para propor um encontro que produza fricções e não afirme privilégios.

Se a classe média branca, detentora de um lugar de poder, continuar debatendo pautas da esquerda somente entre si, acreditando que isso significa realizar um ato revolucionário, continuaremos onde estamos e deixaremos que a direita avance. Quando saíremos de fato da bolha que nos protege?